O absurdo
por Larissa Prado
CapaCapa
TextosTextos
ÁudiosÁudios
E-booksE-books
PerfilPerfil
Livros à VendaLivros à Venda
ContatoContato
LinksLinks
Textos


Bandeira 2

 
 
Não era inabitual ter meus clientes de praxe. Alguns deles, a maioria senhores de idade, gostava de pegar meu táxi e estabelecer diálogos sobre o clima, política, questões de família, mas o que me causava estranheza naquele rapaz era o fato dele entrar no meu táxi toda noite às 22 horas em ponto às sextas-feiras. Muito introspectivo, respondia minhas perguntas de forma monossilábica impedindo que as minhas tentativas de aproximação se desenvolvessem.

Toda sexta-feira me mandava seguir para o mesmo lugar, um bairro nobre do outro lado da cidade, pedia para encostar na esquina de um quarteirão e saltava. Não levava nada consigo além da roupa do corpo. Era um homem alto, seu rosto tinha traços comuns, mas as roupas pareciam caras, um paletó, camisa e calça sociais. Pela minha experiência como motorista de táxi há mais de 10 anos sabia que ele não morava nas redondezas, duvidava até que era natural da nossa cidade. Ele tinha uma pele acinzentada, doentia, mas os olhos muito vivos. Aquela era a nossa terceira viagem, mas sabia que ainda haveriam muitas outras, todas sextas-feiras às 22 horas.

- Para o mesmo local hoje, senhor? – olhei seu rosto emoldurado pelo retrovisor do carro, ele sempre mantinha o olhar disperso pela janela semiaberta.

- Sim. –

Atravessei a cidade com os ruídos do meu rádio do táxi baixos. Era a única coisa que garantia que nosso silêncio não se tornasse insuportável. Às vezes checava o espelho retrovisor para me certificar que havia alguém no banco de trás, sua presença não podia ser percebida, ele nem parecia respirar. Imóvel, sossegado, calado. Aquele tipo de companhia me dava nos nervos. Sempre fui um homem agitado, conversador, minha esposa me dizia que sofria de hiperatividade como lia nas suas revistas sobre saúde.

- Acho que hoje vai chover de novo de madrugada. Viu o pé d´água que caiu ontem? –

Ele não respondeu nada e eu percebi que não adiantaria, seria como nas outras vezes, falar sozinho.

As ruas estavam vazias, para o bairro que íamos não tinha muito movimento. O pessoal se concentrava em outras partes da cidade onde estavam localizadas as casas noturnas, bares, a agitação. Ali era um local ermo, residencial, cheio de lotes baldios e a iluminação pública parecia mais fraca do que em qualquer outro lugar. Parei na esquina e acendi a luz do interior do carro, ele tinha estendido uma nota de 50 entre os bancos da frente. Sempre me dava notas de 50 e dizia “Fique com o troco”, isso reforçava a minha ideia de que era um homem rico. Ele saltou do carro e virou o quarteirão desaparecendo na penumbra da noite. Fiquei um tempo ali parado observando a sombra dele espichada na calçada pela qual seguiu me perguntando para onde aquele homem ia toda sexta-feira à noite?

Dei de ombros, guardei minha nota na carteira e dei a volta no fim da rua, que se tornava uma viela, para ir para meu ponto. Durante o trajeto de volta me senti, inexplicavelmente, atraído para a figura que há pouco estava sentada no banco do passageiro. Volta e meia olhava pelo espelho para me certificar que ele tinha mesmo descido. Em todas minhas voltas daquela viagem com aquele passageiro sentia aquele desconforto, como se não tivesse certeza que fosse real: o trajeto, o homem, a rotina das sextas-feiras noturnas.

Estacionei no meu ponto e Jair estava dormitando no seu carro à minha frente. Desci e fui cumprimenta-lo, ele deu um salto e limpou a boca, esfregou os olhos.

- É perigoso ficar assim a essa hora, Jair – eu fechei a porta do passageiro que estava aberta.

- Eu sei, Fernando. E aí, o cara veio hoje de novo? –

- Como sempre. É estranho...-

- O que? – Jair estava checando algo no seu taxímetro.

- Esse homem, ele é estranho. –

- Vai ver faz algum trabalho sujo, tem o jeito de ser um desses criminosos que matam por dinheiro. –

- Nem brinca – fiz o sinal da cruz, e dei um beijo no pequeno crucifixo prata que ganhei da minha esposa há mais de 10 anos – Ele parece um fantasma. Todas as vezes que tentei puxar papo ele ficou calado, parado, nem parecia respirar. –

Jair deu uma risada, parecia bem cansado como todos outros parceiros àquela hora da noite.

- Vai ver é uma alma penada mesmo – ele acenou com a cabeça, mas percebi que não era para mim, e sim, para um casal que vinha diminuindo às minhas costas. Fiz o favor de abrir a porta de trás para os passageiros de Jair e voltei para o meu carro.

Tentei dar minhas cochiladas até que outra corrida surgisse, mas entre um cochilo e outro o único movimento que presenciei foi o dos olhos do homem estranho no banco de trás me fitando pelo retrovisor.

Estava me perturbando mais do que o normal daquela vez.

Na semana seguinte, sexta-feira chegou e como esperado ele atravessou a rua em direção ao meu carro. Daquela vez tinham mais três carros além do meu, Fernando estava na frente da fila de táxi, entre nós estava Rubens, eu era o último. Ele veio direto até mim como se os outros não existissem, entrou no banco de trás e nada disse.

- O primeiro está livre – eu me virei no banco para fita-lo, ele me lançou um olhar frio, sem expressão e deu de ombros como se aquela informação não fosse relevante ou não fosse direcionada a ele.

 - E se tivesse passageiros no banco do meu táxi? Por que você sempre faz questão de ir comigo? – não me reconheci, apesar dos lucrativos trocos que ele me deixava não me sentia bem em continuar levando-o para a mesma esquina toda sexta-feira.

O homem não se moveu, se acomodou e ficou olhando para fora do carro, as mãos sobre as coxas, relaxadas. Vendo seu rosto de perfil notei que estava ainda mais acinzentado.

Não tinha outra saída, dei partida no motor e seguimos adiante mergulhados no completo silêncio. Nem mesmo meu rádio fazia seus ruídos habituais da central. Eu, tampouco, me esforcei para puxar conversa, me sentia tão introspectivo quanto meu passageiro, mal-humorado, contrariado. Queria apenas me livrar dele logo.

O carro foi parando aos poucos na esquina, olhei de soslaio a nota de 50 pairar entre os bancos pouco iluminada pela luz do interior do carro. Peguei a nota e percebi as unhas sujas dele, não eram cortadas há um bom tempo, nojentas. Guardei o dinheiro com pressa evitando olhar para o passageiro e prometendo para mim mesmo que seria nossa última viagem. Ele bateu a porta e vi pela janela do passageiro sua silhueta subir o quarteirão e se perder na penumbra da rua.

Fiquei um bom tempo observando a rua e movido por impulso curioso me entreguei aos 5 minutos de loucura que nos assalta em algum momento do dia. Liguei o carro, mas ao invés de descer até o fim da rua para contornar a viela e voltar por onde entrei, virei na esquina que ele tinha subido, em marcha lenta pude vê-lo dobrar mais um quarteirão, desliguei os faróis e o segui até que percebi ele entrar pelo portão de um enorme casarão antigo.

Parei do outro lado da rua e vi a construção de frente, cheia de janelas e varandas no segundo andar, a pintura desgastada mostrava que tinha sido branca no passado. Parte do teto do lado direito estava caindo. Ninguém morava ali, e o que ele tinha ido fazer lá?

O portão estava enferrujado e no que antes parecia ser um belo jardim na frente da casa não passava de um depósito de lixo e plantas mortas. Alguns gatos saíram correndo quando o homem adentrou o casarão. Senti meu corpo encolher e abaixar no banco como se quisesse me esconder foi quando vi o estranho acontecer.

De uma janela de madeira no andar inferior vi sair pelas frestas uma luminosidade forte, meus olhos ficaram cegos ao fitar aquilo diretamente. Levantei a mão para protege-los como se olhasse para um sol esverdeado. Durou uma fração de segundos, mas demorei a conseguir enxergar de novo. Manchas negras cobriam minha visão e tudo se tornou embaçado pelos resquícios da forte luminosidade.

Não houveram ruídos, tudo continuava em completo silêncio. As casas ao redor eram todas de alto padrão, sobrados, mansões, casarões de muros altos onde não se via nenhum sinal de vida. Olhei para a rua deserta, não reconheci onde estava, não parecia sequer ser a minha cidade. Eu podia sentir o pânico crescer por dentro do meu peito como uma teia de aranha embolando o inseto, meu coração pulsava pequeno como uma mosca numa armadilha.

Ouvi o portão antigo ranger e por ele passar o meu passageiro das sextas-feiras, atrás dele vieram mais algumas pessoas, esfreguei os olhos julgando estar afetado pela luminosidade que me cegou, mas não era nenhum truque de ilusão de ótica apesar que eu quisesse muito que fosse. Vi sair atrás do homem e descer pela rua outros homens exatamente como ele, era como vê-lo sair pelo portão inúmeras vezes. Eu segurei meu crucifixo com força sentindo o suor frio descer em cascata pela testa

A porta do banco do passageiro ao meu lado abriu, a brisa da noite invadiu o carro e secou meu rosto.

Ele estava ali sentado, mas não apenas ao meu lado, havia mais três dele acomodados no banco de trás, os olhos fitando o espelho retrovisor e meus olhos perdidos, as mãos tremendo sem conseguir segurar o volante ou dar partida no carro. Outros saíam pelo portão da casa e seguiam em linha reta até o fim do quarteirão. Eu me esforcei muito até conseguir mover a mão na direção da ignição e girar a chave. O carro engasgou por duas vezes como se também estivesse espantado.

- O senhor acha que vai chover hoje? – me perguntou o que estava ao meu lado no banco do carona.

O táxi descia suave pela rua, não conseguia mais vislumbrar os outros homens idênticos a ele, a minha voz estava presa em um nó na garganta. Quando olhei pelo retrovisor do carro não havia mais ninguém no banco de trás, mas podia sentir aquelas presenças de olhos me fitando pelo espelho. Olhei de soslaio para o meu passageiro das sextas-feiras ao lado, ele tinha o rosto grudado na janela, fitando o lado de fora com olhos de um morto.
Desnecessário dizer que essa foi nossa última corrida, minha e dele.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 21/02/2018
Alterado em 21/02/2018
Copyright © 2018. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.