O absurdo
por Larissa Prado
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Mamãe Loba
 
 
A mulher estava encostada no balcão enquanto esperava o marido descer as malas do carro, ela ouvia a recepcionista da pousada contar sobre a cidade que escolheram para passar o fim de semana.

- E no Sábado teremos o festival de balões de ar, é lindo, o céu fica todo colorido, cheio daqueles pontos decorados ao longe. As pessoas se reúnem na feira que acontece no centro da cidade. Você tem muitas opções por aqui nessa época. É a primeira vez de vocês vem a Tumbled Stone? – Andrea estava fitando a hóspede e esboçando seu melhor sorriso de boas-vindas.

Joyce permanecia de olho no marido do lado de fora, mas não era exatamente ele quem ela vigiava, e sim, uma garotinha que entrou pela porta da pousada correndo, o rosto estava afogueado de calor e euforia, agarrou a mão de Joyce.

- Ah sim, nós nunca viemos aqui mesmo morando tão perto. Ulisses está sempre ocupado, e também tem a escola de Annabel.- ela tocou os cabelos para refazer o rabo de cavalo em que estavam se desgrenhando.

- É uma linda garota, quantos anos você tem? – Andrea se debruçou sobre o balcão para olhar Annabel, notou que ela não era do tipo tímida e abriu um sorriso sem um dos dentes da frente.

- Vou fazer 7! –

- Uau, - Andrea voltou a se recostar na cadeira – já é uma mulher feita! –
Ulisses rompeu pela porta segurando todas as bagagens da família, Andrea deu a volta no balcão para ajuda-lo se desculpando por não oferecerem aquele tipo de serviço, o seu marido quem fazia e ele não estava ao passo que Ulisses impediu que ela pegasse as malas maiores, e assim, cobertos de cordialidades mútuas a família subiu para seu quarto acompanhada da recepcionista e dona da pousada.

O quarto era amplo, a janela permita a entrada dos raios de sol iluminando todo ambiente e a estrada podia ser vista dali cortando a paisagem em sua trajetória curvilínea. A primeira a se manifestar foi Annabel que pulou na cama de casal e ficou sentada observando a paisagem do fim do dia. Joyce e Ulisses foram organizar as malas enquanto Andrea deixou o quarto depois de explicar os horários de café-da-manhã entre outros serviços oferecidos pela pousada.

- A gente vai morar aqui? – Annabel virou o rosto para a mãe que estava terminando de trocar os sapatos da viagem pelas confortáveis sandálias.

- Não, querida, é só um fim de semana, gostou daqui? – ela sentou atrás da filha na cama e a envolveu num abraço.

- Gostei! Eu queria morar aqui, mamãe, pra sempre – ela deixou os olhos se perderem na estrada. Aquela enorme janela parecia uma tela de TV em alta resolução, Annabel adormeceu poucos minutos depois.

A família descansou a noite inteira sem perturbações, Joyce não fechou as cortinas, até que o sono viesse ficou observando as luzes da cidade ao longe e o movimento dos poucos carros que passaram pela estrada. Quando o dia amanheceu foram aproveitar os passeios da cidadezinha, Annabel estava empolgada e Ulisses também, mas Joyce sentia-se cansada, o sol forte a deixava impaciente, os programas da cidade interiorana a faziam entediada, mas tentou disfarçar, ver o entusiasmo do marido e da filha davam a ela força para suportar o fim de semana.

Enquanto caminhavam pelo festival de verão que acontecia em Tumbled Stone, Joyce sendo puxada pela mão por Annabel e Ulisses se perdendo vez ou outra envolvido pelas barracas de artesanatos, uma brisa quente soprava no rosto deles. Por alguns momentos Joyce se assustava com os artistas que passeavam pela feira fazendo acrobacias ou mostrando seus trabalhos a fim de vender. Ela desviava de todos, perturbada, mas a filha fazia questão de dar atenção a todos.

- Eu vou me sentar um pouco, Ulisses – Joyce falou em um tom alto no ouvido do marido, a música do festival, os ruídos das pessoas e a brisa que soprava deixava tudo atordoante. Ele assentiu e continuou vendo os pescados de uma barraca, estavam na parte de comidas típicas da cidade, ela sentou em uma das mesas arrastando consigo Annabel, deixou-se envolver pelas fumaças que subiam das barracas, a mistura de cheiros das comidas despertaram sua fome.

- Anna – ela remexia na bolsa – vai comprar um pedaço de torta pra sua mãe? Pode comprar pra você também – deu uns trocados para filha que atravessou para o outro lado indo em direção da barraca de tortas que a mãe indicou, Joyce ficou atenta aos passos da filha até que surgiram o grupo de saltimbancos e suas performances acrobáticas musicais.

Joyce perdeu Annabel de vista, o desespero se instalou tímido com ela apenas movendo a cabeça à procura da filha e logo tomou conta de todos seus gestos fazendo-a correr pelas barracas chamando a filha.

Ulisses segurou a mulher pelos ombros tentando fazê-la se acalmar, juntos começaram a percorrer todo festival em busca de Annabel. Joyce ficou encarregada de andar pelo lado direito e Ulisses pelo esquerdo, marcando o reencontro com a mulher embaixo da roda-gigante que era o último lugar do festival, onde os brinquedos do parque da cidade funcionavam a todo vapor e gritos de crianças ecoavam pelo céu.

- Mamãe? – a voz de Annabel veio por trás de Joyce que se dirigia para roda gigante depois de procurar por toda feira mais de duas vezes. Ela se virou para a filha seu rosto estava pálido e assombrado.

- Annabel! – ela correu e apertou a filha num abraço violento, em seguida, sacudiu-a tanto a ponto de arrancar-lhe lágrimas de medo. – NUNCA MAIS FAÇA ISSO! – continuou sacudindo-a com violência até Ulisses intervir e pegar a filha no colo aos prantos.

- Não precisa disso, Joyce, vamos voltar pra pousada – ele caminhou na frente da mulher.

Joyce ainda observou os dois indo embora por uns minutos antes de segui-los, sentindo-se oprimida, de alguma forma, expulsa do círculo de afeto familiar, o sentimento se manifestou como vinha acontecendo muitas vezes nos últimos meses, o ressentimento, a raiva e inveja de Ulisses, não só pela ligação que mantinha com Annabel, ela podia amar a mãe, mas idolatrava o pai, Joyce sentia raiva por ele ser tudo que ela não conseguia ser, bem sucedido, rico, seguro de si, e acima de tudo, calmo e simpático.

Ela deu uma olhada em volta antes de seguir para o carro da família e percebeu dois olhos sobre si. O homem estava parado a alguns passos, das suas mãos pendiam um par de malabares, era um dos membros da companhia de teatro de rua. Seu rosto estava pintado com o que parecia ser uma face de lobo, ela podia julgar isso pelo nariz riscado de preto e bigodes despontando das bochechas no rosto completamente coberto por tinta branca-acinzentada, além das orelhas que ele trazia no topo de uma cabeça raspada. O rapaz dirigiu um sorriso afiado, modificado nas presas raspadas para serem afiadas, para ela, contra sua vontade Joyce também sorriu para ele e seguiu adiante.

Joyce entrou pela porta do quarto e flagrou Ulisses com Annabel no seu colo, os dois estavam num sofá que ficava no canto e olhavam pela janela, eles conversavam, mas silenciaram quando ela entrou.

- Onde você tinha se metido? – Joyce olhou para filha que tinha o rosto virado para o pai cheia de dúvida.

- Joyce, vá descansar, esqueça isso, Annabel só se distraiu com aquele grupo itinerário de artistas. Não precisa fazer tempestade num copo d’água – ele sorriu para a esposa e para filha, Annabel encostou a cabeça no ombro do pai e olhou para mãe, Joyce viu que ela tinha algo nos braços e estava apertando contra o peito.

- Você diz isso porque ela não sumiu com você. – disse se aproximando dos dois e observando o que a filha tentava proteger no abraço. – O que é isso aí, Anna? – suavizou o tom e se abaixou ao lado da menina.

- É a mamãe loba – ela colocou o bicho de pelúcia no colo a fim da mãe ver.
Não passava de uma loba vestindo camisola e com os óculos de grau torto sobre o fuço, Joyce até achou gracioso o bichinho.

- Onde conseguiu isso? – ela acariciou os cabelos de Annabel.

- Foi o moço do teatro, o moço dos malabares que tinha cara de lobo. Ele me disse que essa é a mamãe loba, a mamãe dele e eu achei tão bonitinha... aí ele me deu - 

Ulisses ainda mantinha o sorriso no rosto e Joyce percebeu o quanto ele parecia tolo ao sorrir como nunca tinha notado antes. Ela beijou a testa da filha e sem dizer uma palavra foi para o banho. Enquanto o chuveiro funcionava, o vapor da água subia pelo banheiro Joyce pegou-se pensando sobre aquele estranho observando-a com um sorriso no rosto, “foi o moço do teatro, o moço dos malabares”, ela fechou os olhos tentando afastar aquele tipo de paranoia sobre estranhos e pressentimentos ruins sobre sua família, mas tudo o que conseguiu ver por trás do breu dos olhos fechados foi a figura do malabarista se agigantando onde apenas sua boca ampliada no sorriso afiado permanecesse na mente de Joyce.

Quando ela, finalmente, saiu do banheiro, Ulisses e Annabel estavam dormindo na cama abraçados, “mamãe loba” descansava no seu lugar da cama ao lado de Annabel. Ela se aproximou do bicho de pelúcia e o pegou fitando os olhos lustrosos lembrou-se da sua própria infância quando ganhou da avó uma boneca inseparável. Annabel nunca tivera um brinquedo que amasse daquela forma, resolveu deixa-lo entre as duas.

Na manhã seguinte Ulisses, Joyce e Annabel saíram para visitar lojas locais, não encontraram ninguém na recepção. Voltariam para cidade no fim do dia, era Domingo e Joyce sentia-se mais animada em pensar que era o último dia em Tumbled Stone.

- Ontem acordei no meio da noite com uma música que vinha da recepção parece – comentou Ulisses enquanto caminhava de mão dada com Annabel que apertava seu lobo de pelúcia no outro braço. Joyce ajeitou o chapéu que a protegia do sol forte do lugar.

- Música? Que tipo de música? Eu deitei na cama e apaguei – sorriu Joyce.

- Não sei, parecia vir de fora da pousada, devia ser de algum carro. –

- É, provavelmente – Joyce notou Annabel bocejando – Dormiu bem, filha? –

- Dormi – ela resmungou e abraçou mais a pelúcia – Mamãe... – Joyce ficou parada um pouco atrás deles e não ouviu o que a filha queria dizer.

Seus olhos se perderam no fim da rua atrás deles, as lojinhas estavam logo à frente. Ela notou a silhueta atrás de uma das árvores da calçada que parecia se esconder, mas ela podia ver as orelhas inconfundíveis sobre a cabeça raspada.

- É ele – olhou para Ulisses, pasma – o homem que deu o brinquedo para Anna! –

- Querida? – ele tentou argumentar, mas Joyce saiu correndo em direção à árvore no fim da rua. Ulisses ficou apenas observando com Annabel.

Quanto mais ela se aproximava mais ele parecia longe, aquilo parecia uma ilusão de ótica bizarra. Joyce sentiu a respiração doendo, o cansaço dominava todo seu corpo.

- Quem é você? – ela gritou ao lado da árvore, não havia ninguém ali, mas seus olhos se moveram rápidos na direção da igrejinha que ficava no centro da praça ali perto. Ele estava encostado na entrada dela, mas não estava sozinha, ela podia ver que havia uma mulher com ele que cobria o rosto com o capuz da capa que usava.

- Querida? – Ulisses tocou o ombro de Joyce que saltou num susto. – O que foi isso? –

- Ulisses, olha lá! – ela puxou sua camisa para que olhasse na direção da Igreja. – Olha aqueles dois! Estão nos perseguindo... –

Ulisses olhou, protegendo os olhos dos raios de sol. Não havia nada para ver.

Ele levou Joyce de volta para pousada, Annabel parecia preocupada com a mãe enquanto afagava seus cabelos. A menina colocou “mamãe loba” entre os braços da mãe e garantiu que a protegeria. 

- Ela vai rosnar e rosnar se alguém te magoar, mamãe – Annabel segredou no ouvido da mãe que tentou sorrir para confortá-la.

Joyce pegou no sono e esse mergulho trouxe-lhe pesadelos envolvendo malabaristas com rosto de lobo e mulheres encapuzadas perversas de risadas grotescas. Bruxas, feiticeiras macabras nuas rodopiando pela estrada em frente à pousada. Num salto, ela sentou na cama, a primeira imagem com a qual se deparou foi a vista da janela à sua frente mostrando o cair da noite deixando o céu manchado de um laranja doentio.

Ela olhou em volta e não achou Ulisses ou Annabel, “mamãe loba” estava sentada no sofá ao lado da cama. Joyce observou-o e notou que o corpo peludo se movia por baixo da roupa cor-de-rosa, como se respirasse. Ela aproximou e pegou o boneco. Normal, inerte. “Isso é coisa da sua mente, Joyce...” pensou e quando ia colocar a pelúcia no lugar, escutou o rosnado baixo a vibração vir da sua mão que apertava o ventre da bola de pelo.

Joyce soltou a pelúcia sobre o sofá e começou a chamar por Ulisses. Sem tirar os olhos da “mamãe loba” sobre o sofá, emitindo os ruídos de rosnados baixos, ela foi até a porta do banheiro do quarto, estava encostada, ela ouviu o som da torneira aberta e abriu. O corpo de Ulisses jazia numa poça de sangue, seu rosto estava virado para baixo, ele estava com a tolha em volta da cintura e cabelos úmidos.

- Querido?! – Joyce gritou e se adiantou para ergue-lo.

Quando virou seu rosto viu que havia sido dilacerado por mordidas. Os rosnados se tornaram mais fortes vindos do quarto. Ela saiu, perplexa, pela porta do banheiro gritando por Annabel. A menina estava encolhida ao lado do sofá, abraçando os joelhos. Joyce não sabia como não a tinha visto ali enquanto ia para o banheiro.

- Mamãe? – ela choramingou.

- Anna, está tudo bem... – Joyce murmurou, seu coração batia forte na garganta e todo corpo estava tomado por tremores.

- Não é com você que estou falando – Annabel levantou o rosto riscado por lágrimas e encarou Joyce, seus olhos emitiram um cintilar estranho “ódio” foi tudo que Joyce pensou antes de ser arrebatada pelos rosnados furiosos de “mamãe loba” enquanto ela mordia seu rosto repetidas vezes.

Joyce lutou com toda sua força, mas as presas estavam cravadas na sua face, a última coisa que viu foi Annabel por trás da figura do bicho de pelúcia segurando, as orelhas projetavam de sua cabeça, ou seria apenas uma ilusão de ótica do bicho e da menina se mesclando? Incapacitada de raciocinar, Joyce tentou pedir ajuda para a filha, mas tudo o que recebeu de volta foram rosnados.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 17/02/2018
Alterado em 17/02/2018
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