O absurdo
por Larissa Prado
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Amanhecer canibal

 
 
I.
 
 
As luzes do hospital refletiam nas paredes brancas me deixando com os olhos dormentes na espera agônica da madrugada. Há meia hora entrei às pressas com Aurora pela porta da emergência, uma enfermeira veio ao nosso encontro perguntando o que estava acontecendo.

- Vômitos é isso, ela não para de vomitar e está... – não consegui me concentrar no que acontecia, Aurora expelia pela boca o líquido sanguinolento enquanto formava grossa baba ao redor dos lábios feridos.

- Não sei! – entreguei ela aos cuidados da enfermeira que desapareceu pelas portas da emergência auxiliada por outros colegas de trabalho. Quando passaram pela porta pude notar pela fresta que lutavam para mantê-la sobre a maca. Precisaram amarrá-la.

O relógio na sala de espera marcava 01:15, o do meu celular marcava 01:00, não sabia em qual acreditar, mas quinze minutos não parecia grande diferença. Fiquei alternando o olhar do relógio de parede para o celular e ninguém vinha para me dar notícias. O silêncio era tão entorpecente quanto o branco das paredes.

Cansei de mexer no celular, esperei que as pessoas que interessavam me retornassem as mensagens sobre a situação de Aurora, não retornaram. Não havia eco de parte alguma, nem a enfermeira surgia pela porta da emergência nem alguma mensagem chegava no meu celular como forma de apoio. Era aterrorizante me sentir tão sozinho no mundo.

Ao sair para a madrugada de volta para casa não existira mais ninguém nas ruas, eu estaria completamente só, foi o que cheguei a imaginar diante o silêncio imperturbável que era interrompido às vezes só pelo tiquetaquear do relógio na parede. Levantei e me sentei nas cadeiras da sala de espera, era curioso que não chegasse mais ninguém procurando ajuda. O mundo talvez estivesse mesmo deserto. Não aguentava mais ir até a máquina de café e apertar para que ela cuspisse seus expressos fortes e horríveis.

Vencido pelo cansaço da espera, torturado pelas paredes muito brancas refletindo as luzes claras, fechei os olhos deixando meu corpo deslizar pela cadeira e busquei as lembranças de Aurora na minha memória. Como tínhamos nos encontrado? Era no meio do outono quando ela apareceu, seu primeiro emprego, fiquei responsável por ensinar tudo o que sabia sobre as rotinas do escritório. Estávamos cursando Direito ainda, ansiosos para um dia estarmos no lugar dos nossos patrões, mas Aurora logo desistiu e foi procurar o que realmente gostava, se tornou uma ótima jornalista. Eu segui como advogado. Vivíamos juntos há 6 meses, mas não conseguia me lembrar bem como surgiu a ideia de dividirmos a casa.

Levantei mais uma vez, lembrando das viagens que fizemos juntos, dos planos e que não tinha deixado a porta dos fundos aberta para Steve sair se precisasse urinar. Ele era o cachorro de Aurora antes de nos conhecermos, se tornou meu grande companheiro também, lembrar dele no meio de outras boas recordações sobre Aurora me fez até rir. O silêncio continuava, nenhuma pessoa saía pela porta da emergência ou chegava na entrada do hospital, a sensação de estar sozinho no planeta aumentava até que escutei rompendo a calmaria agonizante da madrugada uma sirene de ambulância ao longe. Que alívio! Pelo menos um som para mostrar que as coisas estavam normais, que ainda havia a humanidade do lado de fora. Pensamentos absurdos de uma madrugada absurda.

 
II.
 
“Olha como ele sorri para você” foi a última coisa que Marlon me disse enquanto segurava Tony de 8 meses, seu bebê. Os dois gostavam muito de mim, é verdade, mas Tony em especial tinha aquele brilho nos olhos quando me via por perto como deve acontecer a filhotes de animais ao procurar a figura materna. Não estava em meus planos ser mãe, mas aprendi que planos só servem para alimentar nossa ilusão de controle sobre nós mesmos. Quando me envolvi com Marlon também ganhei Tony de brinde.

Eu me compadecia daquele bebê por ter perdido a mãe tão novo, nunca iria conhece-la a não ser por fotos e isso me fazia pensar na minha própria mãe querida a quem sempre fui muito ligada. Como teria sido se ela simplesmente tivesse morrido quando nasci? Por causa do meu nascimento ela tivesse ido embora? Como se as duas não pudessem existir simultaneamente, foi assim com Tony, para que ele estivesse nos braços de Marlon sua mãe precisou morrer, e Natasha era uma das minhas melhores amigas.

Toda aquela situação me enchia de culpa, estar tão entremeada na vida da família que deveria ser de Natasha, não minha. Mas levei adiante por amar Marlon e Tony, por precisar estar no centro da vida deles, mas a culpa existia assim como sabia que existiria em Tony quando crescesse e soubesse a verdade sobre a partida da mãe. Todos acumulamos uma boa tonelada de culpas para pesar sob nossas escolhas, é a vida, não aproveitar integralmente tudo o que há de bom.

Marlon sentia-se muito mal nos últimos dias. Febre, vômitos e uma intolerância a certos cheiros, tudo o que comia não parava no estômago, me preocupei e o arrastei ao médico que nos garantiu ser apenas uma virose. Ele deixou de ir ao trabalho, aos poucos ficou apenas na cama sem força para conseguir andar, mas naquela noite ele tinha ido até o quarto de Tony, eu dormia perto do berço, preocupada se ele iria acordar com fome ou assustado. Pegou o filho e ficou observando ele dormir, quando acordei, assustada com a presença de Marlon, me deparei com a terna cena à minha frente e com Marlon repetindo aquilo “olha como ele sorri para você”, e isso vai ficar na minha cabeça pelo resto da vida.

Eu me lembro que levantei os olhos para o relógio que ficava sob a cômoda no quarto de Tony, marcava 00:30. Esperei Marlon acomodar o bebê no berço, preocupada se ele iria acordá-lo, era tarde e Tony tinha demorado a dormir, esperei, apenas parada, sentada na poltrona fitando os dois. Marlon tinha um olhar estranho, paralisado, meio morto. Olhos de um sonâmbulo.
“- Marlon?-“ chamei ele baixo, mas continuou parado segurando Tony nos braços.

A primeira coisa que escutei foi o rugido que antecedia os vômitos vindo do estômago de Marlon, levantei e me aproximei dos dois, Tony mexia os pés, estava acordado, mas não chorava, apenas observava o pai que tinha os olhos parados em um ponto qualquer do quarto, ele não estava olhando para Tony como imaginei. Toquei seu ombro e perguntei se ele estava bem pedindo para que voltasse comigo para o quarto. Ele não pareceu me ouvir, continuou parado. Há uma coisa que precisa ser dita sobre esse momento, algo que só agora me veio à memória, a forma como Marlon parecia lutar com algo dentro de si mesmo, seus braços tremiam ao segurar Tony, como se tentasse controlar a própria força que exercia ao envolver o filho.

- Nesse momento você percebeu que ele iria atacar o próprio filho? – o policial me pergunta de forma fria como se perguntasse sobre as horas.
- Não. Percebi que ele estava estranho, mas nunca me passou pela cabeça que poderia fazer algum mal a Tony. Ele jamais faria isso em seu estado normal – respondi e prossegui o meu relato.

Então, eu percebi por baixo da sua camiseta a barriga ondular, isso mesmo, como se a algo deslizasse por baixo da sua pele que cobria o abdômen. Marlon olhou para Tony com aqueles olhos estranhos, meio perturbados, e abocanhou o pequeno rostinho rosado. Por Deus, ele mordeu e, praticamente, arrancou nariz e boca na mordida. Pior do que isso foi ver ele mastigando com calma como fazíamos em churrascos, ele simplesmente devorou parte do rosto dele. Eu ainda escuto os berros de Tony, você pode imaginar os berros de uma criança recém-nascida que teve metade do rosto arrancada? Não, você não pode porque não há poder imaginativo que dê conta de aproximar-se da sensação.

Primeiro fiquei pasmada e paralisada, nunca senti na vida um pavor tão hediondo quanto aquele. Quando ele abaixou a cabeça e ergueu o bebê vi que sua intenção era mergulhar na barriga de Tony, sua boca estava aberta, mas eu arranquei-o das mãos dele e corri do quarto. Corri sem olhar para trás e me tranquei no banheiro. Eu senti a camisola molhada do sangue do menino que não parava de gritar, seu rostinho era apenas uma deformidade gritante. Eu tentava fazê-lo parar, mas você pode imaginar a dor que ele sentia? Mais do que dor, a perplexidade de passar por aquilo nos braços de quem sempre o protegeu? Não, você não poderia imaginar como eu também não posso.

Naquele momento, eu sabia que tudo estava perdido, Marlon, Tony, eu, toda nossa vida, porque não teria como voltar ao normal depois daquilo e não era um pesadelo. Por Deus, é a realidade! Essa é a pior parte. Aí, eu voltei a mim, Tony tinha perdido as forças nos meus braços, ele ficou quietinho, assim como se estivesse dormindo, mas eu sabia que tinha desmaiado ou morrido, não quis pensar sobre isso. Eu precisava tirar a gente daquela casa, mas Marlon – ou aquilo que ele tinha se tornado – estava do lado de fora, eu ouvia ele andando pela casa nos procurando. A pior parte era pensar sobre isso: ele estava nos procurando como um leopardo procura a presa ou algo do tipo.

Esperei um tempo até ouvir os passos afastando, conhecia bem a casa que havíamos comprado juntos, avaliado juntos, sabia que ele deveria ter passado pela sala e estava indo para o quintal, por isso, com todo cuidado, abri a porta do banheiro e sai quase nas pontas dos pés até nosso quarto, eu me tranquei lá e liguei para a polícia, Tony ainda respirava nos meus braços, mas olhar seu rosto era horrível, então, cobri ele com um travesseiro, para não ter que ver, entende? Não foi com intenção alguma de sufoca-lo, só não queria ter que ver aquilo. Ele começou a mexer as perninhas, podia senti-lo se mexendo embaixo do travesseiro e tirei depressa, aliviei sua respiração, mas aquele rosto era impossível olhar aquilo. Eu o deixei sobre a cama, esperneando num choro mudo, saía só murmúrios grotescos da sua boca pela metade. Foi aí que Marlon surgiu batendo na porta a ponto de derrubá-la! Ele não falava ou gritava, só investia o corpo contra a porta em gemidos de raiva, ele e Tony, inclusive, pareciam se comunicar com aqueles ruídos infernais de fúria.

Quando vocês chegaram foi isso que encontraram. Não sei o que aconteceu com Marlon, mas eu te garanto que aquele que chegou aqui não era ele.
O policial terminou de anotar tudo o que eu havia contado e me orientou a acompanha-lo até a delegacia, resisti, disse que só iria depois de saber notícias sobre Marlon que estava sendo tratado na emergência do hospital. O policial desapareceu pela porta em que Marlon foi levado, não voltou mais desde então.

 
III.
 
 
Quando a sirene ficou mais forte e a ambulância parou na porta do hospital vi saltar uma mulher e sobre a maca havia um homem corpulento amarrado, os enfermeiros tinham dificuldades em mantê-lo quieto. Fiquei olhando, a mulher estava com a camisola coberta de sangue e o desespero estava estampado em suas lágrimas. Em seguida, desceram da ambulância o que parecia ser um bebê, mas não pude acompanhar porque várias pessoas saíram pela porta de emergência para ajudar. A mulher foi afastada. A polícia chegou logo atrás com sua sirene inconfundível. Dois policiais seguiram para dentro da emergência e um terceiro ficou conversando com a mulher, acalmando-a. Ele passou por mim para pegar um copo d’água para ela. Assisti tudo sentado na sala de espera da emergência.

Passou horas e o policial ainda conversava com a mulher, anotando uma coisa ou outra, por fim ele se levantou e desapareceu pela porta da emergência. Ela ficou ali sentada, a cabeça baixa, o copo de água pela metade mostrava seu estremecimento. “Bem-vinda ao clube dos que esperam” pensei e voltei a olhar para o relógio de parede, ele marcava 02:00. As paredes do hospital me deixavam zonzo de novo, nada sobre Aurora vinha lá de dentro. Levantei e me sentei, meus olhos foram em direção da mulher do outro lado da sala de espera, ela permanecia na mesma posição, mas podia ouvir o choro baixo e sua respiração altera. Aproximei sem saber ao certo como iniciar uma conversa com alguém que estava tão abalada e com o corpo coberto de sangue. Era o tipo de situação que nunca me imaginei envolvido.

- Você precisa de ajuda? – perguntei, e me soou uma pergunta estúpida, estava claro que ela precisava de toda ajuda que ninguém poderia dar.

A mulher levantou o rosto para mim e percebi que apesar dos cabelos suados e desgrenhados, da sua expressão de dor e pavor, ela era muito atraente, aquela situação a deixava mais bonita do que deveria ser normalmente. Ela se ergueu da cadeira, pálida, trêmula e apoiou a mão na parede próxima. Abriu a boca para falar algo, mas o choro a impediu, ela recostou na parede e fechou os olhos, àquela altura seu copo d’água estava esparramado no chão.

Olhei na direção da porta de emergência, ruídos vinham lá de dentro e sons de coisas caindo e quebrando. Não tive tempo de amparar a desconhecida, corri até a porta e abri, sem ter a mínima ideia do que poderia ser aquilo.
Quando me deparei com a cena que se desenrolava por trás da porta de emergência do hospital toda racionalidade fugiu da minha cabeça, tudo o que me cercava adquiriu uma espécie de liquidez, como se pudesse se desmanchar. Parecia o enredo de um filme de horror mal feito dos quais passava muito tempo vendo e que Aurora detestava. A enfermeira que me ajudou jazia numa poça de sangue, caída sobre uma maca, parte do seu pescoço tinha sido decepada, para ser mais específico, estava mastigada. Pude ver um dos enfermeiros que desceu da ambulância jogado sobre os armários de remédios, ele ainda respirava e suas mãos envolviam parte do intestino que saltara do ferimento que tinha na barriga.

O cheiro de sangue fez meu estômago dar cambalhotas, era um odor metálico e nauseante. Arrastei os pés para sair dali, meu tênis fez um ruído irritante chamando a atenção de Aurora, só percebi a presença dela naquela cenário horrível naquele momento. Ela estava, parcialmente, escondida por uma das macas, agachada sobre o que parecia ser um médico, seu rosto não era mais seu, e sim, de alguma criatura selvagem faminta. Sua boca fazia movimentos rápidos de mastigação e as mãos estavam cheias do que parecia ser as tripas do homem. Ela olhou direto nos meus olhos, não senti qualquer sinal de reconhecimento, seus olhos pareciam mortos, opacos e desvairados. Ela soltou um ruído tenebroso, e foi se levantando sob um corpo que estralava os ossos.

Senti a mão da desconhecida da sala de espera sobre meu ombro, ela disse num sussurro “Vamos”, não consegui me mexer a princípio, só o fiz quando vi Aurora correr na minha direção esbarrando em tudo o que encontrava pelo caminho. Segui a desconhecida pela porta de entrada, minhas pernas mal conseguiam correr, podia ouvir os grunhidos de Aurora atrás de mim, mas evitei olhar, não podia ver o que ela tinha se tornado.

A estranha me pegou pela mão, apertando com força, e corremos rua abaixo, nenhum carro passava, ninguém andava por ali, era como estar sozinho num mundo que não existia sendo guiado por uma completa desconhecida em trajes de dormir sanguinolentos. Paramos na esquina do hospital, ela olhava a avenida com apreensão, alguns carros, finalmente, cortaram o silêncio da madrugada, mas não pararam para nós. Pude escutar os grunhidos mais fortes e próximos, a primeira vez que olhei para trás me arrependi de ter o feito, Aurora descia a rua sob passos trôpegos, logo atrás dela vinha uma segunda pessoa. A desconhecida virou e olhou também. Ela disse algo como “Marlon... não acredito”, e voltou a correr atravessando a avenida, mas sem me puxar, apenas a segui por instinto.

O sol logo despontaria sobre os arranha-céus de uma cidade condenada.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 04/02/2018
Alterado em 04/02/2018
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