O absurdo
por Larissa Prado
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(o)culto
 
 
 
Quando se tem 15 anos a vida é um mar infindo de possibilidades e a morte é apenas uma vaga ideia pertencente a um futuro quase intocável. Um frescor atravessa nossos caminhos trazendo a energia de utopias inalcançáveis. Diante mim as promessas de destinos brilhantes se estendiam em um tapete dourado. Não havia espaço para o desespero ou desânimo, eu tinha o tempo do mundo.

Assim era minha vida, crescendo numa casa harmoniosa com uma família amável e unida, cercada de perfeitas amizades adoráveis. Apesar dos problemas típicos da idade me considerava uma garota muito sortuda. A ideia de que algum mal existisse e pudesse pairar sobre mim era impensável. Quando se está muito envolvida na própria felicidade, cega por todos encantos dos sonhos, não se lembra das forças obscuras que agem de formas misteriosas no mundo triunfando no imprevisível.

Não sei ao certo quando o mal iniciou, mas posso dizer com certeza que a mudança de rumo na minha vida começou com a separação dos meus pais e a partir daí o declínio pode ter iniciado, mesmo que sinta que ele parecia existir por trás do véu de todos meus momentos felizes há muito tempo.
Eles não estavam se dando bem desde que J., meu irmão mais novo, nasceu. Ele tinha 4 anos quando minha mãe saiu de casa levando suas poucas coisas e nunca mais voltou ou deu sinal de vida. Não entendia como o equilíbrio impecável no qual tinha crescido havia se rompido de forma tão abrupta. Contra minha vontade passei a responsabilizar J. por tudo de ruim que começou acontecer, afinal, ele era o elemento recém-chegado em nossa rotina, não conseguia amá-lo como uma irmã deve amar seu irmão mais novo, tudo o que sentia começou como desprezo e desenrolou-se em outros tipos de sentimentos tóxicos e destrutivos.
 
Não demorou muito para meu pai arrumar uma nova companheira. Ele a convidou para morar conosco depois de 1 ano e meio de namoro. A mulher era bondosa, não tinha o que reclamar dela, apenas que se afeiçoara muito a J. como se ele fosse seu filho e eu uma intrusa na casa. Muitas vezes cheguei da aula e vi ela sentada com ele no meio da sala cercada de brinquedos com um sorriso enorme do rosto, mas quando me via passar para o meu quarto aquela alegria se desfazia do seu rosto e voltava a ficar séria, J. acompanhava seu humor me olhando um pouco assustado. Todos em casa agiam como se eu fosse um problema, continham as risadas, sufocavam as gargalhadas sempre que eu chegava no ambiente. Meu pai por muitas noites entrava no meu quarto a fim de conversar sobre minha mãe, tentava explicar de uma maneira gentil que ela não era má, só precisava de um tempo, como se aquilo fosse ajudar, como seu fosse me sentir menos intrusa. Eu começava a dar razão para a partida de mamãe, meu pai era um homem tão tolo, ingênuo e, terrivelmente, sem espírito. Começava a vê-lo como um boneco de algodão que minha madrasta manobrava de acordo com suas vontades.

O meu tempo de estradas douradas para futuros brilhantes estava chegando ao fim, a única ideia que se alimentava por conta própria em minha cabeça era a de que J. precisava desaparecer e junto a ele a mulher que meu chamava de “meu amor”.
 

Você já alimentou tanta raiva de alguém que sentiu um calor consumir seu corpo a ponto de quase derreter seus órgãos internos? Uma raiva tão avassaladora que a morte da pessoa seria pouco e apenas seu sofrimento poderia fazer o calor ceder e sua paz de espírito voltar?  Era assim que me sentia sempre que o “amor” do meu pai e J. estavam próximos a mim na mesa durante as refeições ou quando chegava em casa e tinha que passar por eles na sala da casa que um dia fora minha e da minha família. Aquelas pessoas não significavam nada para mim, meu pai muito menos, passei a notar que ele nunca importou de fato, era apenas uma peça da mobília, a diferença insuportável era que ele falava, tentava me integrar ao novo tipo de família que se formava em que J. se tornara a figura central e principal preocupação de todos.

Por noites e noites, deitada no meu quarto sem conseguir pregar os olhos desejei que algo acontecesse e levasse J. embora e sua mãe-postiça junto. Não chegava a desejar o mal de papai, mal me lembrava dele, a raiva me cegava ao ponto de só enxergar J. sentado no colo dela, brincando, sorrindo e articulando palavras erradas que era as únicas coisas que conseguia fazer, uma criança estúpida e tola. Uma perda de tempo.

Certa vez, minha mãe me disse que se desejarmos muito algo com toda nossa força, com insistência, acabara acontecendo. Ela tinha razão, enquanto fechava os olhos com força para tentar dormir desejava que eles dois desaparecessem, mas antes, que sofressem bastante, que fossem arrastados para o mar negro de angústia e dor no qual eu mesma estava vivendo depois que minha casa se fragmentou, depois que passei a ser indesejável até mesmo no meu círculo de amizades.
 
Os anos passaram, continuei convivendo com a força oculta da raiva que crescia em mim e se alimentava da minha sanidade. Tinha esse terreno baldio atrás de nossa casa pelo qual passava todos dias ao voltar do colégio, uma construção inacabada ocupava boa parte dele acumulando todo tipo de lixo que deixavam ali. A presença de moradores de rua podia ser notada pelos colchões abandonados e seringas usadas. Pichações cobriam partes das paredes que ainda se sustentavam de pé. Toda manhã que passava por ali meu olhar demorava na casa inacabada do terreno vazio. Havia aquele sussurro vindo de dentro dela, uma espécie de sopro.

A princípio não me importei, não estava pronta, o tempo e a tormenta em conviver com pessoas que me enchiam de raiva me fizeram despertar os ouvidos para esse sussurro insistente que me chamava cada vez que passava em frente ao terreno. Levou tempo até me aproximar da casa abandonada e checar aquelas vozes em forma de cânticos.

Sob passos incertos atravessei o terreno e entrei por uma das paredes caídas da casa, em outras circunstâncias o medo não me deixaria aproximar dali, mal teria dado importância para aquele tipo de paisagem destruidora, mas não eram os tempos alegres dos meus 15 anos. Eu estava com 17 e minha vida tinha seguido por rumos que não imaginava sequer existirem. Trajetórias negras de ódio e repúdio, frustração. Abismos que sugavam minha paz de espírito e deixavam no lugar essa lama pegajosa, essa ideia atordoante sobre morte e dor.

Segui os sussurros por imensos corredores que não condiziam com a construção inacabada. Eram cobertos de assoalho lustrosos como de mansões, quadriculados em desenhos que se sobrepunham causando ilusões geométricas de fazer as vistas se embaralharem. As vozes me chamavam, como se hipnotizada continuei seguindo sem me preocupar com a incoerência daquele interior para o tipo de casa que acabara de entrar.
Uma porta no fim do último corredor em que virei, ela era dourada como um dia fora os caminhos da minha vida, abriu devagar rangendo. Os sussurros se tornaram cânticos em um idioma morto que nunca ouvira antes, mas que podia compreender com clareza o que significava. Meus olhos ofuscados pela luz forte que emanava da brecha na porta se fecharam, continuei seguindo, todo corpo tremendo, ele estava ali, o medo frio na espinha, travando a garganta, fazendo o coração saltar. Entrei pela porta, um grupo de capuzes negros me aguardavam num círculo, seus rostos eram abismos rodopiantes de espirais de sangue.

Era uma espécie de culto, eles de mãos dadas, sussurrando os cânticos que me atraíram, no centro havia um corpo pequeno embrulhado numa manta manchada de sangue, do corpo saíam os fios que compunham as espirais dos rostos dos membros encapuzados.
Andei para trás, os meus passos me levando para o lado contrário sem que eu tivesse controle sobre eles. Virei para correr, a porta se fechou com um baque ensurdecedor e ecoante.

- Rebeca? – a voz da minha madrasta retumbou dentro dos meus ouvidos.
Levantei os olhos na direção dela que estava parada a alguns metros, meu pai atrás segurando-a pelos ombros, ambos com expressões de puro assombro como se tivessem visto a própria morte.

O rosto macilento de papai parecia feito de uma pasta branca, minha madrasta rendeu-se aos joelhos fracos caindo sobre eles ficando assim na minha altura, pois, eu me percebi ajoelhada. O corpo todo doía, os ossos gritavam como se tivessem sido retorcidos e virado de borracha.

- Pai? – chamei por ele sentindo a voz miúda sair da garganta como fazia quando era criança.

Ele aproximou alguns passos e também caiu de joelhos, acompanhei seu olhar de pavor e vi J. à minha frente, o pequeno corpo desconjuntado, espancado, destruído. Quem poderia ter feito aquilo? Seu rosto era uma massa disforme afundado em todos cantos, olhos, boca e nariz amassados no centro do crânio. As pequenas mãos inertes ao lado do corpo ao contrário depois que o pescoço foi virado.

Estendi as mãos, sujas de sangue, cobertas de hematomas e compreendi, a luz da compreensão me atingiu, levantei os olhos e pude ver à minha frente, mas sem que eu pudesse tocar, um grupo de capuzes negros erguer o corpo da criança morta. “Seus desejos ocultos alimentam nossa força” foi tudo que consegui captar dos últimos sussurros mortos que me enfeitiçaram.
 
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 30/01/2018
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