O absurdo
por Larissa Prado
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No quarto de hotel
 

Naquela dia ele havia chegado um pouco diferente, não diria que estava abatido, mas havia algo perturbador em sua fisionomia. O senhor Martin não era um homem comum. Usava roupas amarrotadas, às vezes ao avesso. Nada nele parecia coerente, suas pernas eram longas e o torso curto. Os olhos eram o que mais me incomodavam, estrabismo severo, quando nos olhava não parecia estar nos enxergando, cada órbita ocular se deslocava para um lado. Martin era diferente, não tanto pela sua desproporcionalidade, nos acostumamos a isso, era mais difícil lidar com sua personalidade assustadiça, volátil. Toda noite que ele chegava na recepção do hotel e pedia o mesmo quarto podia notar sua decrepitude acentuada. Ele estava sempre sozinho, isso havia começado há 3 meses. Não existia regularidade nas visitas de Martin, passavam semanas sem que ele aparecesse. Pernoitava e ao sair pela manhã tinha o semblante assustado, como se não soubesse quem era. 

Aproximei dele por acaso, coincidiu de ser meu turno quando Martin entrou em colapso. Lembro que fazia frio e chovia o dia todo quando ele parou o carro na entrada do hotel, abaixou o vidro o suficiente para que eu visse seus olhos tortos de peixe morto, desceu e solicitou o mesmo quarto de sempre. Já era hábito reservamos para ele. Tudo corria normal até às 2 horas quando fui surpreendido com as batidas desesperadas de Martin no balcão da recepção. Ele me arrancou dos meus pensamentos e da música que tocava em meus fones.

- Senhor, o que foi? - perguntei tirando os fones.

Ele se limitou a gritar, quase aos berros, e apontar na direção do seu quarto. Apressei em segui-lo, não queria que aquele barulho incomodasse os outros hóspedes. Quando saí de trás do balcão ele agarrou meu braço com força, estava tremendo, chorando, senti pena daquele senhor solitário e perturbado. 
Ele me levou até seu quarto e notei seu constrangimento ao notar que tudo estava normal. Não havia monstros do armário. 

-O senhor teve um pesadelo? O que houve? - abri o frigobar e ofereci um copo d'água. Ele bebeu e tentou se acalmar, seu desespero era real, não tinha como fingir aquele colapso nervoso. Estava convencido que Martin era algum tipo de lunático, devia sofrer alucinações. 

-Não acredito…- ele sentou na cama, cabisbaixo, derrotado - está acontecendo mesmo aqui. Nem aqui onde tinha encontrado paz para dormir isso parou…você não ouviu? Não escutou os ruídos? - 

- Não, senhor…-

-Martin, pode me chamar de Martin, filho. Você deve me achar um velho desequilibrado, louco, não te julgo por isso…é exatamente assim que me sinto. - ele passou a mão pelos cabelos desgrenhados. O mais estranho era que ali próximo de Martin ele não parecia tão velho, apesar dos fios grisalhos manchando a basta cabeça negra, ele tinha um rosto jovial, o cansaço o deixava envelhecido. Não sabia arriscar sua idade, mas estava seguro que deveria estar entre 36-45 anos, não mais que isso.

- Não posso dormir em casa, é por isso que venho para cá, até hoje não tinha me encontrado aqui. – ele se encolheu como se sentisse uma súbita rajada de frio entrando pelo quarto todo fechado e com ar-condicionado desligado deixando o ambiente abafado.

- Posso trocar seu quarto – diante a situação inusitada tentei fazer o meu melhor – se você se sentir melhor com isso. –

A porta estava aberta e fechou-se num baque alto. Assustado, olhei de imediato para ela e voltei a observar o rosto de Martin, os olhos arregalados e mais estrábicos que o normal. Sua feição era o próprio assombro transfigurado em expressão facial, ele parecia um bicho assustado.

- Martin? – minha voz saiu num fio rouco porque eu podia sentir atrás de mim algo crescer como a sombra de um edifício quando caminhamos na rua, como uma árvore quando estamos expostos ao sol quente. Mas aquela sombra não trazia alívio por sua fria penumbra. Ela se agigantava tomando todo quarto e nossas mentes. Não consegui me virar, nunca conseguiria, minhas pernas travaram paralisadas.

Estava prestes a perguntar que tipo de brincadeira era aquela quando vi a cabeça de Martin girar e girar num ângulo assustador de 360º em uma velocidade alucinante até estourar em uma massa sanguinolenta que cobriu a cama e a parede do quarto.

A sombra escureceu tudo, mesmo assim não virei o rosto para ela, meu rosto manchado com massa encefálica, meu rosto pálido e assustado demais para conseguir se mover. Todo meu corpo entregue àquela força que me arrastou para fora do quarto e me fez sentar na recepção como se nada tivesse acontecido. Eu mesmo me sentia desgrenhado, amaldiçoado. Fora de mim. O outro estava tão morto quanto Martin no interior de um quarto de hotel barato.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 28/01/2018
Alterado em 28/01/2018
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