O absurdo
por Larissa Prado
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Lâmia

 
 
Eu abro os olhos para o mundo da completa escuridão.

Escuto a goteira no teto marcar os segundos ritmada aos ponteiros do relógio na parede. O apartamento é bem mobiliado, organizado, mas está localizado no subúrbio. Serve mais como um lugar para se esconder do que para morar. Permaneço sentada na beira da cama, 60 segundos passaram o que leva mais um minuto da manhã, o tempo não parece passar quando estamos à espera de algo.

Uma hora se passa, é 10h da manhã, a hora marcada. Levanto, o mundo continua imerso no breu, meus ouvidos se atentam para os ruídos do lado de fora.

Um rato sai do lixo acumulado na lateral do prédio atrás do café da manhã. Um pintor deixa cair gotas de tinta sobre a escada que está subindo para terminar seu trabalho. Uma atendente estoura a bola de chiclete no café do outro lado da calçada. Uma criança respira fundo ameaçando chorar ao ser puxada pela mãe para atravessar a rua.

A cacofonia atordoante no qual o mundo funciona me entorpece.

Estou na janela desfrutando o único silêncio que conheço, o dos meus olhos. Cega de nascença.

Não sei qual a fisionomia das pessoas, mas imagino.

Os homens que estacionam em frente ao apartamento vestem roupas caras, sapatos sociais lustrados por algum engraxate do subúrbio. Atravessam o hall de entrada, cumprimentam Carlito, o porteiro.

Posso ver seus rostos, um tem bochechas caídas como um Bulldog, é o mais nervoso dos três, anda mais rápido, é pesado. O segundo tem olhos pequenos e vidrados de um porco viciado em pó, ele está fungando alto, elétrico. O que vem atrás é o mais perigoso, forte, caminha sem pressa, sua cara parece a de um cavalo selvagem. Ele não fede a colônia pós-barba vagabunda como os outros, seu fedor é de cigarro e combustível queimado. Os três entram no apartamento, posso sentir os aromas misturados enchendo a sala de entrada. Bulldog vem direto para o quarto, o Porco vasculha o que pode levar de valor, Cara de cavalo está com a arma empunhada, pude ouvir o dedo encaixando no gatilho.

- Quem é você? – o Bulldog está parado entre a cama e um armário aberto bagunçado.

- Quem é essa puta? – Cara de cavalo fica ao lado do parceiro.

Eu me viro, posso ouvir o sangue correr com força pelo corpo dos dois, os corações acelerados, pulsantes. Um deles está tão nervoso que posso ouvir o movimento peristáltico da saliva descer pela garganta, é o Porco prostrado na porta atrás dos dois, seu cheiro é de leite estragado, o cheiro da covardia.

- Cadê a Judith? –

Esse apartamento não é meu. Judith está na banheira, a água ainda morna, os braços para fora com pulsos gotejando as últimas gotas de sangue fresco. Seu cheiro está mais forte, metálico, adocicado, uma podridão suave.

Não tem como se acostumar ao fedor da morte.

Cara de cavalo corre até o banheiro. Ele está tremendo, posso ver sua cara assustada, o suor brotando na testa.

A filha do chefe morta. Suicida, essas moças ricas sofrem pela falta de sentido em suas vidas fáceis.

Os canos das armas do Sr. Bulldog e Sr. Porco estão apontados para mim. Eles me observam como se fosse uma aberração.  Estou acostumada aquele peso de olhares de repúdio e desprezo. Quase sinto o cheiro da pólvora que vai traçar o trajeto até minha cabeça. Eles não estão se aguentando, querem me furar toda, mas tremem de medo.

- Quem é você? – cara de cavalo grita, ainda está de costas.

- Eu fui paga para estar aqui –

Meus olhos brancos rolam para Cara de cavalo. Sinto as lâminas frias dentro dos bolsos do casaco, aquele toque é reconfortante.

- Você é só uma puta louca maldita – disse Sr. Bulldog, seu dedo quase puxando o gatilho. Ele saliva de vontade.

- É, costumam me chamar assim –

As três lâminas cortaram a penumbra do quarto, cintilando, deceparam as três cabeças simultaneamente. Por um tempo, as cabeças ficaram sobre os pescoços antes de deslizarem e caírem junto com os corpos.

Desviei dos corpos para tirar os punhais cravados nas portas do quarto e do banheiro.

A manhã estava apenas começando, anotei os quatro corpos na caderneta de trabalho. Quantos anos estava nesse ramo? Tempo suficiente para me sentir exausta. Estava envelhecendo, talvez umas férias me fariam bem, longe da cacofonia da cidade e do fedor de morte.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 22/01/2018
Alterado em 22/01/2018
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