O absurdo
por Larissa Prado
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"- Feliz aniversário, minha querida “, a imagem de Yago se dissipava para logo se sustentar de novo, repetia a mesma frase daquela noite do seu último aniversário. ”- Feliz aniversário, minha querida" até ela acordar ensopada de suor e perturbada. Não conseguia sair daquela parte do sonho, era como ter uma imagem travada em sua mente.

Onde Yago estava nos últimos dois anos?
 
Valentina espiou o dia amanhecer da sua cama. Prometia ser quente. Seus três gatos se espreguiçavam pelas cobertas espalhados na confortável cama de casal. Ela estava no fim de suas férias, entediada, nunca pensou que sentiria falta da rotina no escritório.
 
Olhou o celular ao lado da cama que marcava 6:00 e resolveu tomar banho. Não queria voltar a dormir, tinha medo de voltar a sonhar com Yago, estava acontecendo muito nos últimos dias. Quando saiu do banho, enrolada na toalha e enxugando os cabelos, escutou o som do liquidificador vindo da cozinha, Miguel tinha voltado da sua corrida matinal. Ela vestiu um short e uma camisa velha, leve e folgada, se manteve descalça. Foi tomar café com o futuro marido.
 
- Tão cedo? Por que não volta pra cama? Aproveita enquanto pode…- ele estava encostado na pia tomando sua vitamina e deslizando o dedo pela tela do celular. Não olhou pra ela ao dizer aquilo.
 
Valetina sentou na mesa e se serviu do forte café que ele preparou.
 
- Eu sonhei com ele de novo. - ela olhou para Miguel que não pareceu ouvir. - Sonhei com Yago de novo- pronunciar o nome dele sempre despertava a atenção do noivo.
 
Ele colocou o copo na pia, guardou o celular no bolso, estava com a camisa pendurada no ombro, o suor ainda escorria pelo corpo que Valetina julgava perfeito. Deu a volta na mesa e beijou a cabeça dela, gostava da forma que os cabelos caíam pesados pelos ombros quando estavam molhados.
 
- O que foi dessa vez, é o mesmo sonho? -
 
Ela assentiu dando uma bebericada no café.
 
- Quando chegar do consultório podemos conversar sobre isso, se você sentir que precisa.-
 
Valentina se virou para ele e tocou sua mão com carinho antes de beija-la, Miguel era bonito, gentil e, o mais importante, um bom amigo, mas ela nunca iria sentir o que um dia sentiu por Yago mesmo ele com todos seus problemas e não sendo tão atraente quanto Miguel.
 
- Miguel, já conversamos sobre isso. Não quero me tornar uma de suas pacientes, basta você com esse olhar de analista para mim o tempo todo.-
 
- Não te olho assim - ele abriu o sorriso que havia feito ela se render às suas investidas há 1 ano.
 
- Olha sim, não percebe, como iria? Você não pode ver a cara que fica sempre que falo dos meus sonhos ou… Do Yago. -
 
- Não é de propósito. Força do hábito-  ele sorriu mais um pouco e deu um beijo demorado nela, nada dos breves roçar de lábios que Yago fornecia, nada da frieza no contato. Miguel tinha tudo para ela ama-lo, mas não conseguia.
 
Ele saiu em direção ao quarto para tomar banho e ir para mais um dia de trabalho no hospital psiquiátrico São Lázaro. Valentina sentiu uma forte pontada na nuca como se uma correne elétrica a atingisse, incomodada saiu da mesa e olhou para sala, as janelas abertas estavam ocultas pelas pesadas cortinas. Resolveu sentar no sofá e mexer no seu computador, adiantar um pouco o trabalho que teria que entregar ao voltar das férias. Mais uma vez, seu notebook não queria ligar.

Miguel passou pela sala, nos seus trajes de médico parecia ainda maior, iluminado. “Divino” ela pensou enquanto o admirava pegar uma maçã e segurar na mordida.
 
Ele acenou para ela, o jaleco esvoaçava sobre sua maleta, quando Miguel bateu a porta, Valentina nunca sentiu tanto medo de estar sozinha como naquele momento. Por um tempo ficou observando a sala de estar, as cortinas não se moviam, nenhuma brisa soprava. Sentiu que, de alguma forma, sua casa parecia uma prisão.

Miguel chegou do trabalho no início da noite, colocou a maleta sobre a bancada da cozinha e chamou por Valentina. Não obteve resposta.

Andou até o quarto, ela estava sentada no meio da cama, álbuns de fotografias espalhados ao seu redor sem fotos, vazios como um dia ameno sem brisa. As lágrimas riscavam seu rosto, ela não levantou o olhar na direção dele se o fizesse enlouqueceria.

- Querida? – ele aproximou com cautela e sentou aos pés da cama.

- Quem é você?- Valentina falou entredentes.

- Como? Do que está falando?-

Ela jogou um dos álbuns na direção dele.

- O que é isso, Miguel? Não tem mais nenhuma foto nossa, ou de Yago ou ... do meu passado –

Ele fechou o álbum, seu semblante relaxou e sorriu como sempre charmoso, o sorriso que amolecia Valentina, mas que naquele instante só a encheu de fúria. Os olhos dela encaravam-no como olhos de cachorro louco pela Raiva.

- Querida – seu tom era ponderado, como se falasse com uma criança – Esses lapsos de memória são normais, estamos apenas na versão teste, precisa ter paciência se realmente estiver disposta a seguir adiante. –

Valentina saiu da cama, as mãos levadas aos cabelos em total agonia descobriram ali, projetado sob a da têmpora esquerda, um calombo. Ela massageou o lugar, não sentia dor. Virou para Miguel, o rosto transparecendo apenas descrença.

- O que é isso? –

Ele sorriu, relaxado, e saiu da cama para aproximar-se dela.

- Isso? É sua vida agora. –

Valentina não sentiu nada depois que ele levantou a mão para acariciar seu rosto, os dedos tocaram o calombo sob a pele, ela apagou como uma IA reiniciando seu aplicativo em conflito.
 
 
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 17/01/2018
Alterado em 17/01/2018
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