O absurdo
por Larissa Prado
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Enterrada
 
 
“Festival de verão de Tumbled Stone”, a faixa hasteada entre dois postes de energia tinha as cores, antes vibrantes, desgastadas. Acontecera na região central da cidade, o famoso festival de verão que reunia visitantes de todos lugares. Eram quatro dias de frenesi artístico, aquilo movimentava a pacatez de Tumbled Stone.

A faixa tremulava numa brisa áspera, Giulia perdeu-se em pensamentos prostrada diante a entrada do que restava do festival. A máquina fotográfica profissional permanecia junto ao peito, ela fazia menção de leva-la aos olhos, mas não o fazia.

- Hipnotizou? –

A voz dele veio por trás seguida de uma risada.

- Já vai fazer meia-hora que está parada encarando essa faixa, Giulia. Vamos, precisamos pegar a estrada de volta... –

Ela olhou para o amigo tentando disfarçar o embaraço. Eles seguiram na direção do estacionamento em que o carro dele estava parado. Era uma acomodação barata para os quatro dias de festival. Bernardo convidou Giulia para comerem antes de partirem, percebeu o olhar dela parado na faixa do festival do outro lado da rua.

- Bernardo, eu preciso ver as fotos que fez durante o festival... –

- Agora? – ele suspirou.

- É. Vamos comer e eu conto sobre o que aconteceu ontem... –

Bernardo encarou ela por um tempo antes de se acomodarem no balcão do restaurante. Giulia pediu um sanduíche que não fez questão de comer e ele se deliciava no seu almoço. Ela mexia na máquina fotográfica do amigo, em silêncio perplexo.

- Ontem eu encontrei uma mulher na feira que estava saindo em todas fotos que eu tirava. Curiosa, fui até ela e pedi para fazermos uma foto dela embaixo da faixa do festival, porque ela vestia uma roupa muito esquisita, como se fosse de outro século. Deve ser algo temático do festival... nas suas fotos ela não aparece em nenhum momento e tinha certeza que vi você fotografá-la.-

- Ela não deve ter saído porque eu sou melhor fotografo que você. Nada que eu não queira não sai nas minhas fotos – Bernardo sorriu debochado.
Giulia colocou a câmera dele sobre o balcão, suspirou, parecia que seu abatimento não era apenas por causa do cansaço.

- Eu perdi todas minhas fotos, Bernardo. Elas simplesmente desapareceram da câmera. É como se eu não tivesse tirado nenhuma... Isso que está me intrigando sobre essa mulher. Ela ferrou todo meu trabalho. –

- Mas Giulia, como assim desapareceram? E como era essa mulher? –

Não teve tempo para responder, Bernardo viu Giulia levantar num salto da cadeira e sair pela porta do restaurante numa corrida desenfreada. Ele pagou pelo almoço de ambos e foi atrás da mulher que atravessava a rua na direção do terreno em que acontecera o festival. Bernardo correu e chamou Giulia por um longo caminho. Atravessaram toda extensão da pradaria em que as barracas estiveram montadas, mas não conseguia encontrar Giulia. Ela tinha desaparecido.

Ele parou de correr para tentar avistá-la, as paisagens do lugar eram planas, não tinha como ter perdido ela de vista ou que ela permanecesse sem ser vista porque era um campo aberto de poeira e sol quente. Bernardo respirou fundo, sentia muita dificuldade em respirar na aridez do lugar. Ele se viu segurando a câmera de Giulia nas mãos, antes de sair do restaurante tinha pego sobre o balcão e deixado a sua câmera para trás. Ele a xingou mentalmente, desejando encontra-la o mais rápido possível e saírem de lá logo.

Bernardo começou a andar na direção que julgava ter visto Giulia correndo pela última vez, ele chamou pelo nome dela muitas vezes, sua voz ecoava e retumbava de volta em ecos estranhos. Não tinha percebido o quanto estava afastado da rua e da cidade, embrenhando-se pelas pradarias atrás de Giulia, não se ateve para a direção que deveria seguir para retornar ao seu carro. Bernardo estacou os passos, exausto, nenhum sinal de Giulia, nada. Ele olhou a câmera dela em sua mão e ligou, ela tinha dito a verdade, não havia nenhuma foto salva ali, mas eles tinham trabalhado no festival juntos, ele lembrava de Giulia tirando fotos e algumas ela chegou a mostrar para ele durante as noites de feiras.

Pensou quão frustrada ela deveria se sentir por ter perdido todo trabalho, mas sua cabeça não parava mesmo de pensar sobre a mulher que ela dizia ter visto. Por que Giulia tinha deixado o restaurante daquela forma? Ela estava correndo atrás do que? Foi quando Bernardo recebeu as respostas das suas dúvidas ao levantar o rosto da câmera fotográfica ele vislumbrou adiante uma figura feminina parada a observá-lo. Ela trajava um longo vestido gasto, fora de época, e tinha os pés descalços. Seu rosto não podia ser definido por estar refletindo a luz do sol, ela era uma imagem trêmula de calor à distância.

- OI? – ele gritou na direção da miragem, pelo menos julgava não ser real aquela mulher. – Giulia? – o vento trouxe um sussurro familiar, a voz de Giulia chamando por ele.

Bernardo levou a lente da câmera até os olhos e mirou na direção da mulher. Assustado, ele afastou a máquina do rosto, a mulher não podia ser captada pela lente, ela não existia no mundo da câmera. Mesmo assim, ele passou a tirar fotos seguidas enquanto caminhava na direção da imagem trêmula. Ela não se moveu, permaneceu parada como se fosse apenas uma projeção. Quando estava apenas a dois passos da mulher, Bernardo tirou a câmera da frente do rosto, ela não estava mais lá. A câmera começou a fazer ruídos como se o filme estivesse sendo rebobinado. Ele observou a tela onde via o resultado das fotos passar uma série de imagens aleatórias, eram as fotos que Giulia tinha feito durante o festival. Todas estavam ali, passando numa velocidade alucinante.

Ele ficou boquiaberto observando o movimento da câmera, as imagens que passavam como num filme, em todos frames a figura da mulher estava parada no plano de fundo. Giulia tinha razão, ela estava em todos contextos, camuflada, observando, seu rosto manchado e difuso. As últimas fotos, porém, não condiziam com o trabalho de Giulia, pareciam galerias subterrâneas, locais escondidos. Bernardo não sabia dizer onde a amiga tinha feito aquelas fotos, mas de alguma forma, pareciam ser recentes, como se estivessem sendo tiradas naquele momento.

- GIULIA! – ele parou de olhar a câmera, se sentia nauseado, o sol forte estava atrapalhando sua percepção. Ele voltou a gritar por ela e andar a esmo. 

O que Bernardo não conseguia dizer aos policiais eram os motivos que levaram Giulia a ter fugido ou como ela estava antes de desaparecer. Arrasado por não ter conseguido encontrá-la e por ter passado mais de 5 horas perdido antes de reencontrar o caminho de volta ao restaurante, ele não sabia esclarecer nada que lhe perguntavam. Durante todo o tempo de investigações iniciais, Bernardo não soltou a câmera de Giulia, só o fez depois que um dos policiais o levou para a delegacia. Não encontraram nada registrado na máquina de Giulia, e mesmo as fotos que ele fez durante o festival não continham nada revelador.

Por muito tempo ele foi suspeito do desaparecimento de Giulia, ele mesmo se culpava por isso. Ele sabia que ela estava viva em algum lugar, durante algumas noites de insônia, e elas eram frequentes desde o dia que ela sumiu, ele podia quase vê-la caminhando pelas pradarias áridas, atrás da mulher nas fotos, com sede e fome, apenas um fantasma do deserto. Bernardo não conseguiu mais seguir como fotografo porque a lembrança da tarde que a câmera de Giulia começou a funcionar sozinha o perseguia sempre que tentava pegar numa câmera e fazer seu trabalho.
 
*
 
A luz entra pouco, na maior parte do tempo é apenas escuridão. Ela escuta os passos sobre si, e as vozes também, mas tudo está muito longe preso em outro mundo. Os olhos abertos parecem sempre fechados por causa do escuro, e o corpo cedeu a todas dores. Ela não se lembra como era a vida na superfície, ou quem era antes de ter entrado por aquele buraco. A única lembrança que preenche sua cabeça é a mulher que visita a cada semana, ou seria noite? Anos? Giulia se move e sente parte das suas pernas atrofiadas pelo longo tempo imobilizada, a cabeça é a única coisa que permanece fora do solo capturando a pouca corrente de ar que circula por lá.

A pior coisa é a fome, mas ela irá trazer alimento, sempre traz, pendendo da mandíbula forte, a carniça insuportável passa a ser aroma para o estômago de Giulia. É um longo processo como os que as borboletas precisam passar, ela está disposta a se manter viva, mesmo que não saiba mais que vida tinha antes daquilo. A cada visita da mulher ela pensa que será o momento do embate, do confronto, o momento em que vai conseguir sair daquela situação e mata-la, enfrenta-la, subjuga-la, mas nunca acontece, porque a fome sempre é maior que a vontade de lutar.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 26/12/2017
Alterado em 26/12/2017
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