O absurdo
por Larissa Prado
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A morte convida para a dança

 
“Mr. Sandman, bring me a dream make him the cutest that I've ever seen give him two lips like roses and clover then tell him that his lonesome nights are over. Sandman, I'm so alone...” a vitrola no canto fazia a música ecoar com o som da agulha castigando o disco. A recepção estava vazia com o ventilador de teto girando em preguiça dominical. Andrea tinha deixado o balcão havia duas horas para o almoço, nunca tinha demorado tanto antes. A música repetia sem parar fazendo a pousada parecer um salão em fim de festa.
 
Fora do período de férias o lugar ficava jogado às sombras, mas não era o caso, estavam no alto do verão e a expectativa era que todas reservadas fossem finalizadas. Não fora, Andrea e o marido estavam passando por maus tempos com o negócio. Tudo estava difícil para todos, ela tinha cansado de ouvir Samuel reclamar sobre a economia local, a construção do parque temático na cidade próxima que mudou o foco dos turistas da região para as modernas termas de água natural. Tumbled Stone parecia cada dia mais uma cidade de fantasmas.
 
Os passos do hóspede entraram por lá apressados, seus olhos arregalados anunciavam sua extrema urgência. Ele gritava enquanto batia no sino sobre o balcão.
 
- Por favor! Hey, recepcionista! Hey! – seu tom era desvairado.
 
Nenhum sinal de Matilde também, a cozinheira pelo visto também tinha ido fazer sua hora de almoço há tempos. Ele pegou o celular nas mãos, trêmulo, o som que circulava no lugar fazia sua cabeça funcionar lenta e atrapalhada, aquelas vozes distantes e arranhadas num canto do salão. “Mr. Sandman (Yes?) bring us a dream give him a pair of eyes with a come-hither gleam. Give him a lonely heart like Pagliacci and lots of wavy hair like Liberace...Mr Sandman, someone to hold (someone to hold”.

O aparelho não mostrava que iria estabelecer sinal, o rapaz sentou no sofá da recepção e insistiu com crescente agonia. Olhava para todos lados à espera, a música continuava ressoando, ninguém estava ali, mas sentiu a presença de algo se aproximar. Num salto, Levi olhou para a porta de entrada, o alívio durou pouco. Não havia nada ali, ninguém. Então, que passos foram aqueles que ouviu se aproximar? Aquela presença respiratória, uma sombra, talvez... Ele afastou, tremendo da cabeça aos pés sem compreender a origem do pânico.

Não conseguia contato com o irmão, o quarto que estavam não abria e Levi tinha certeza que algo muito ruim tinha acontecido lá dentro porque o lugar emita um odor bolorento de carne estragada. Ele tentou arrombar a porta e conseguiu apenas uma contusão no ombro. O celular piscou por duas vezes com o recado de “bateria fraca”, Levi desistiu, resolveu procurar um telefone por ali. Pegou o da recepção, linha muda. Ele observou o fio cortado na parede e o jogo começou a fazer sentido: estavam brincando com ele, os maníacos que dirigiam a pousada. Seria possível?

Levi se embrenhou pelas portas da administração, chamando por alguém, ainda podia sentir que alguém o acompanhava assim como a música da vitrola que ficava distante e mesmo assim parecia adentrar seus ouvidos e azucrinar suas ideias.

- OI! Alguém! – ele gritou pela copa e cozinha dos funcionários.

Não houve resposta.
Pelo menos a resposta não veio nos primeiros minutos.

Levi empurrou uma porta que estava entreaberta com a ponta dos pés, ele viu pés estendidos, um deles tinha o sapato deslocado do calcanhar, reconheceu os calçados da recepcionista, Andrea, com quem tinha conversado na noite anterior em que se hospedaram ali. Levi e Fred só queriam um pouco de diversão, longe da agitação metropolitana, trilhas na natureza, quem sabe garotas turistas. Evitou entrar na sala voltando a correr para a sala da recepção, atordoado.

Vasculhou às pressas as gavetas do balcão, o painel de chaves, mas não havia nada lá. Levi voltou para a porta do quarto que tentava abrir, chamou pelo irmão muitas vezes, mas daquela vez a resposta veio através de uma voz desconhecida do outro lado da porta que rangeu ao abrir.

O som da vitrola explodiu pelo andar em que estava, mais forte as frases se sobrepunham como ondas sonoras rodopiantes de caos “Give him a lonely heart like Pagliacci and lots of wavy hair like Liberace...Mr Sandman, someone to hold (someone to hold”

- Olá Levi, estava te esperando há horas. – a figura prostrada na penumbra ao lado da cama projetava uma sombra gigantesca que cobria toda dimensão do quarto.

- Para dançar. –

Levi saltou quando ouviu o bater da porta atrás de si, Os olhos demoraram a se acostumar ao breu, ele notou que o irmão estava caída de uma maneira torta no chão do banheiro, o som do chuveiro ligado estava abafado pela música rodopiante que subia pelas escadas e se esparramada pelas paredes da mente dele.

Não houve tempo de questionar a identidade da figura, mas Levi sentiu o frio das suas mãos tocando seu pescoço em uma carícia fúnebre. Não parecia feminino nem masculino, e sim, algo sem forma, tempo, dimensões. Uma sombra, um som, algo que vagueava pelo ar sem criar delimitações.

Sentiu os pés deslizarem pelo quarto, entregue à vontade daquela outra presença, pouco a pouco o ar foi diminuindo e a música se tornando cada vez mais alta e mais alta ao retumbar por suas paredes encefálicas. Levi lembrou-se do arrebatamento que sentia toda vez que se refugiava em paisagens rústicas, aquele tipo de deslocamento da matéria para algo abstrato, perder o corpo e o peso, era assim que se sentia no momento que aquilo lhe envolveu todo corpo.
 
 
*
 
Aquela noite chegou trazendo uma brisa quente prometendo quebrar a monotonia em que se encontrava a pousada modesta localizada entre os morros mais bonitos de Tumbled Stone. Andrea estava tentando resolver seus jogos de palavras cruzadas, enquanto o cigarro queimava no cinzeiro. Ela não prestou atenção no homem que desceu pelas escadas com um semblante traumatizado e horrorizado até que ele encostasse as mãos sobre o balcão.

- Essa música, essa maldita música na vitrola...-
 
Andrea levantou os olhos de sua revista e encarou Levi com um ar preocupado.
 
- Vitrola? Do que está falando? –
 
Ele parecia preso num ataque sonâmbulo, Andrea conhecia bem aquilo, o filho mais novo passara por isso muitas vezes antes de se livrar dos terrores noturnos enquanto morava ali com eles. Ela deu a volta no balcão e tocou os ombros de Levi guiando-o até o sofá, não queria deixa-lo mais assustado.

- Senta aqui, você está sonhando. Eu estava mesmo preocupada com o senhor e seu irmão... ontem quando chegaram da trilha estavam tão pálidos. –
- Sonhando ... – ele murmurou atrás das palavras dela. – Eu sonhei que estava dançando com a Morte. –

Andrea desapareceu pela recepção, não levou muito tempo até retornar com um copo de água para o hóspede, mas não havia sinal dele ali. Era como se nunca tivesse existido. Ficou parada sentindo calafrios percorrerem seu corpo por inteiro, olhou em volta para ter certeza que estava onde conhecia que não havia mesmo uma vitrola tocando no canto do salão.

O copo espatifando no chão foi resultado do que Andrea vira sair bailando da escada e passar rodopiando em direção à porta de entrada da pousada, uma sombra, uma dançarina esguia e gigante, uma brisa trazendo de longe uma música cadenciada antiga e arranhada da ponta de uma vitrola:
“Give him a lonely heart like Pagliacci and lots of wavy hair like Liberace...Mr Sandman, someone to hold (someone to hold...)”
 
 
 
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 20/12/2017
Alterado em 20/12/2017
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