O absurdo
por Larissa Prado
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Sangue na neve
um conto de Natal


 

A brisa úmida anunciava a chegada das chuvas de fim de ano. Eu podia sentir a alteração climática pela forma que o vento tocava meu rosto quando andava pelas ruas. A última lembrança do céu de dezembro que ficou registrada em minha memória visual da infância era de um cinza fechado, como se as nuvens se acomodassem para fechar o mundo numa espécie de bola de chumbo. Depois dos 8 anos perdi a visão. Depois de perder a visão, passei a sentir o mundo ao invés de enxergá-lo e assim me orientava.

No início foi difícil o processo de adaptação, minha família fez o possível para que eu fosse integrado ao mundo dos que enxergam, mas mesmo com todos esforços, deles e o meu, passei a me sentir parte de um tipo de realidade diferente que não tinha nada a ver também com o universo dos deficientes visuais. Era algo além. Eu via coisas além da escuridão dos meus olhos físicos. Coisas como a aproximação do homem na neve.

A primeira vez que ele veio tinha um cheiro de graxa, eu sabia que era o tio Malvin que estava distribuindo os presentes na noite de Natal daquele ano, vestido de papai noel. Meus primos faziam muita algazarra nesse momento apesar de eu me manter alheio por conta dessa incômoda visão vermelha da neve do lado de fora. O cherio de graxa que meu tio exalava me fazia lembrar que quando todos estivessem dormindo eu iria estar do lado de fora perseguindo o homem na neve. Não sei porque relacionava o odor do meu tio à chegada dele, as coisas pareciam interligadas de alguma forma.

Daquela primeira vez, dois anos após ser acometido pela doença que me cegou os olhos, eu tive um encontro muito revelador com o homem. Quando a ceia terminou, as conversas e risos cessaram e toda família se recolheu, eu saltei pela janela do quarto, a chuva fraca se misturava à neve formando flocos enquanto caía. Devia estar fazendo grau negativo, mas não sentia frio com os pés descalços afundando na matéria branca e macia. Ele estava parado próximo ao nosso portão de entrada e tinha um sorriso muito bonito, como os que enfeitam biscoitos natalinos, a boca circundada de escarlate, os olhos redondos e animados. Eu não tinha amigos, o homem da neve tinha se tornado o único.

- A neve vai cair mais forte no próximo ano, Matt. - ele caminhou comigo pela calçada e nos acomodamos no meio-fio, lado a lado.

- E quanto mais forte ela ficar mais forte você também ficará. Aceita um cookie? - ele abriu um pacote colorido e cheiroso.

O sabor daqueles cookies era maravilhoso. Divino. Tinha gosto certo de Natal.

Eu não conseguia falar muito em nosso primeiro encontro, apenas ouvi a tagarelice do homem da neve sobre coisas que eu não entendia direito, previsões, ele me fazia sentir bem de alguma forma ao me dizer como eu seria grande, forte e poderoso quando os próximos fins de ano chegassem. 

Eles chegaram. Nossa relação se tornou mais forte, ele não apenas ia me visitar toda noite de Natal como também aparecia no meu quarto de repente. Quando eu abria os olhos, acostumado a viver sempre na escuridão do despertar e do dormir, podia ver sua sombra parada ao lado do meu armário, ou no banheiro a se olhar no espelho. Isso durou a vida toda. Todo dezembro.

Quando completei vinte anos, o homem na neve me trouxe um presente atípico. Era uma navalha muito afiada que ele disse ter herdado do seu pai e que o pai dele herdara do avô. Uma relíquia. Nunca imaginei o homem na neve parte de uma família, fiquei a imaginar todos iguais, como humanos biscoitos de biscuit, ele não tinha cabelos, não sei qual relevância dessa informação no momento, mas eu me lembro que quando o via chegando sempre me assustava quando ele tirava seu chapéu fedora e revelava uma careca reluzente. 

Então, ele desapareceu. Dezembro veio e a brisa úmida também, mas naquele ano não nevou tão forte, não me lembro sequer de ter nevado. Eu morava de favor na casa do meu irmão mais velho, tinha conseguido me virar como mecânico ajudando ele na oficina, e por isso, entendo que o cheiro de graxa do tio  Malvin tenha me perseguido a vida inteira. Ele também mexia com automóveis, e isso parece que nos perseguiu como uma doença hereditária. 

Esperei na varanda fumando um cigarro atrás do outro e sentindo minhas orbes remexerem em agonia, os olhos querendo saltar para uma visão real do mundo. Nunca tinha me sentido tão desconfortável com minha cegueira como naquele ano. Ele não veio, mas eu podia ver os respingos vermelhos na neve guiando os passos do homem branco, assim, caminhei seguindo-o. A navalha estava no meu bolso, Luiza estava brincando próximo da piscina, ela era minha sobrinha e estava preparada para noite de Natal daquele ano. Eu sempre amei Luiza, era uma das poucas crianças que realmente amava. 

Mas houve um momento entre o olhar dela para mim e o meu para ela que tudo fez sentido, como se um último fragmento de uma mensagem importante fosse encaixado no todo. Ela gritou, eu podia sentir o cheiro de graxa emanar da minha roupa de papai noel, naquele ano era eu o sorteado para os gracejos dos presentes. Pude ver seus olhos arregalados com tamanha nitidez.

Ela gritava a plenos pulmões: "PAPAI. PAPAI. O TIO MATT" 

E não houve tempo de terminar sua mensagem, porque então a neve borbulhou o sangue quente que navalha abriu na sua garganta, e minhas mãos trêmulas pareciam biscuit quente. Eu nunca tinha me sentido tão feliz em toda minha vida enquanto Luiza gorgolejava suas últimas súplicas em meus braços pude sentir a imensa onda de amor que sentia por ela, algo tão arrebatador e macio como eram os cookies que o homem da neve me oferecia aos 10 anos de idade. 





 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 20/12/2017
Alterado em 20/12/2017
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