O absurdo
por Larissa Prado
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Último Balão
 
“And she screamed out, kicking on her side and said
“I’ve lost control again...”
 
 
À medida que os balões subiam ao céu os olhos de Bia se enchiam de brilho. Ela parecia segurar a respiração, estava encantada como estivera poucas vezes na vida. Segurando a mão do pai, não conseguia deixar de olhar aquele amontoado de balões movidos a ar quente, as cestinhas carregando os condutores para longe. De imediato soube o que a admiração significava: possibilidade de, um dia, também ir para bem longe. Bia olhou para o pai ao seu lado, ele também sorria, mas faltava o brilho nos olhos. Ele sorria como um manequim de loja o faria, inexpressivo e opaco.
 
Bia encostou a cabeça em seu ombro, não sem conter o tremor que sempre subia por suas pernas quando estavam próximos. Por muitos anos ela tentou compreender aqueles tremores. Raiva? Pavor? Nojo? Não sabia e suspeitava que tudo fosse uma coisa só, não inventaram ainda palavra que aglomerasse em torno de si tudo que fosse odioso e repugnante.
 
- Vamos voltar para o restaurante, meu bem. – ele apertou sua mão como sempre fazia ao lhe dar uma ordem.
 
Bia só acenou com o rosto numa afirmativa desanimada. Eles entraram pela porta dos fundos do salão, se dirigiram de volta à mesa que estava ocupada pelos colegas de trabalho do pai. Bia sentou ao lado dele, cabisbaixa. Quando não estavam observando-a, ela aproveitava para olhar eles e analisar cada um nos mínimos detalhes. Era essa sua vida, viajar com o pai em seus encontros de negócios para e para cá, realizar suas vontades como uma boneca de trapos sem vida.
 
- Todo ano nessa época fazem esse festival de balões, acho que é uma competição – comentou o mais velho dos três homens. Ela sabia que ele mandava no seu pai e nos outros dois só pela forma que eles o escutavam, sempre subservientes com olhos de cães de guarda.
 
- É puro tédio, olhar balões de ar no céu? Coisa de caipiras – Rony, o outro homem tão gordo que Bia via a barriga saltada encostada à mesa como se quisesse explodir dos botões da camisa social. Quando ele ria os talheres tilintavam como se um trovão saísse por seus dentes redondos.
 
- É questão de cultura, Rony. Nós também temos nossas esquisitices metropolitanas. – arrematou o pai de Bia, mais interessado em terminar seu Scotch.
 
Bia perdeu o foco das observações. Ela olhava para as bocas se movendo e falando, mas não conseguia ouvi-los. Todos os ruídos do restaurante foram suspensos como se tivesse os ouvidos obstruídos. Ela se deixou levar pelo asco que aquelas bocas glutonas, mastigando carne malpassada gordurosa enquanto se moviam, causavam. As papadas adiposas sob os queixos pareciam com os pudins chacoalhando em sua flacidez que os garçons levavam de mesa em mesa.
Bia olhou para o pai, ele estava com os olhos sobre ela há muito tempo, sempre observando-a com um traço de temeridade. Seus lábios gordos e detestáveis se mexiam com urgência. Não podia escutá-lo, continuava presa na bolha na qual era lançada sempre que se sentia por um fio, prestes a perder o controle. Um homem parado no jardim do restaurante a encarava. Seus olhos perderam o foco do rosto do pai por completo fixados naquela cena. Ele usava uma cabeça de lobo, Bia não se assustou, apenas ficou curiosa. Com o festival de balões acontecendo por perto talvez fosse alguém que estava se divertindo, ela ignorou os arrepios que a imagem faziam percorrer por sua espinha. Era uma cabeça de lobo muito real.
 
- Bianca! – a voz do pai conseguiu tirá-la do torpor. Ela olhou para ele com resistência, sem interesse, queria continuar de olho no homem parado no jardim.
 
- Você está bem, querida? Está se sentindo bem? Trouxe seus remédios? –
Bia negou, os colegas do pai a olhavam com curiosidade, em outra circunstância se sentiria constrangida, mas naquele momento estava mais interessada na figura do jardim que não estava mais lá.
 
- Preciso ir ao banheiro, pai. Estou com um pouco de náusea...-
 
Ele assentiu, observou a filha deixar a mesa e comentou entre os colegas.
 
- Desde que a mãe morreu ela tem certos apagões. Fica fora do ar – ele mexeu no drinque – Eu preciso ter muito cuidado com Bianca, ela é muito sensível. –
 
Os dois homens concordaram e retomaram os assuntos dos negócios. Bianca estava sentada numa privada, as mãos suavam e seu corpo todo tremia. Ela apertou a barriga lembrando da aberração que crescia ali.
 
- Quando ela fez 15 anos, precisei me virar para dar uma festa, mas Bia nunca se importou com isso. O que é anormal para uma garota de 15 anos. Não querer uma festa? Impressionar os amigos? – aproveitou o silêncio entre uma conversa e outra para voltar a falar da filha.
 
- Ela sempre aparentou ser mais velha – disse Rony – desenvolveu rápido. Com todo respeito, sua filha é uma maravilha. –
 
- Eu sei – eles trocaram sorrisos.
 
Bianca se levantou da privada, a tampa sanitária estava coberta de manchas escuras, amareladas. Ela sentiu a tontura embaralhar seus sentidos. Lá de fora, podia escutar uma saraivada de risos. Um escândalo que parecia dirigido a ela. Antes de desmaiar, a porta sem tranca que estava servindo de apoio abriu deixando seu corpo exposto para fora do reservado.
 
Ela o viu do outro lado da rodovia, atrás de si o hotel de luxo que estava hospedada com o pai parecia falido, abandonado. O homem estendeu o braço para cima e sacudiu a mão numa saudação. Por causa do sol forte sua língua pendia de um sorriso largo de lobo cansado. Bianca colocou os pés no asfalto, não se incomodou com a pele sendo queimada ao andar. Ela sabia o que deveria fazer como se tivesse sido preparada para aquilo a vida inteira. Caminhou aos tropeços até o homem-lobo que a esperava do outro lado, ele segurou seu tombo, Bia sentiu as gotículas de saliva respingarem em seu rosto enquanto no céu azul turquesa subia os balões de ar multicoloridas num balé magnífico.
 
- É a hora de ir embora. –
 
Ele não falava, mas ela podia ouvir sua voz dentro da cabeça.
 
- No último balão que vai subir, Bianca. ÉH! – ele ofegou, enquanto a arrastava sem se preocupar com a torrente de sangue que escorria por suas pernas.
 
- Eu queria me despedir. – Ela olhou para trás na direção do hotel de luxo em que estava acontecendo a refeição no salão. – Do papai...-
 
- Ele nunca foi seu pai, ÉH! –
 
Por um momento ela sentiu o frio percorrer sua espinha e paralisar todos seus sentidos, aquela voz em sua cabeça, aquele cheiro de terra e sangue, tudo tão familiar e ao mesmo tempo tão estranho.
 
- Você nunca foi filha de ninguém, Bianca. – a figura com cabeça de lobo parou de arrastá-la pela mão e deixou-a levantar por si própria. – Você é apenas a mãe. –
 
As dores vieram como se cascos de cavalo estourassem em seu ventre dolorido, Bianca se curvou e podia sentir o líquido quente esvaindo entre as coxas e aquela coisa disforme sair rastejando como o último demônio ao meio-dia. Ele não passava de uma representação perfeita do homem-lobo que estava à sua frente. Uivos ecoaram por todos cantos das pradarias. E ela soube naquele momento que o balão ali parado próximo à figura meio lupina era seu e ela deveria embarcar nele para o céu que ficava avermelhado como o sangue que cobria seus pés.
 
- Nunca me senti tão... leve. – ela sorriu com lágrimas nos olhos.
 
O homem-lobo pegou a criatura recém parido nos braços e lambeu toda sua cara felpuda, tão fofo quanto um filho de cão e tão diabólico quanto uma besta sedenta pela primeira mamada.
 
- É porque perdeu o controle de vez. ÉH. O último balão não vai te esperar para sempre. Vá. –
 
- E ele? – não haviam mais os tremores pelo corpo quando ela olhou para a cria nos braços da criatura, apenas uma indiferença glacial, um leve interesse por causa dos olhos de cão recém-nascido.
 
- Ele vai trilhar seu próprio caminho. Vingar os homens maus, há muitos homens maus por aqui. ÉH! –
 
Ela não esperou ele terminar de falar, dirigiu-se para o balão sob passos trôpegos e com uma mente rodopiante e fraca. Os olhos estavam ofuscados pelas últimas luzes da tarde vermelha não permitiram que ela visse para onde iam os outros balões, nem se eles realmente estavam ali. Sentia-se sozinha, mas pela primeira vez, livre quando o seu balão começou a alçar voo.
 
- Já faz meia-hora que sua filha foi ao banheiro, Oskar. – Rony estava com o braço levantado pedindo a conta ao garçom.
 
- Eu vou lá... – Oskar jogou sobre a mesa uma quantia pelos próprios drinques e saiu na direção do banheiro.
 
Ao se aproximar sentiu que não queria entrar no banheiro, algo lhe dizia para retornar à mesa, mas mesmo assim entrou e quando viu o corpo da filha jogado ao chão frio, colapsado e azul, os olhos abertos vidrados para o teto e, de certa forma, risonhos, ele deixou-se cair de joelhos questionando-se pelo resto dos seus anos “O que fui que fiz a você, Bianca?”
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 17/12/2017
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