O absurdo
por Larissa Prado
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Envia-me flores
 
O problema sempre foi a solidão. Aqui, tremendo de febre debaixo de duas cobertas, o suor pegajoso e frio que impregna meu corpo como sinal da minha decomposição interna alcançando a pele, percebo que o problema sempre foi as paredes brancas solitárias. A casa vazia e pequena, sufocante, nenhum quadro, nenhum enfeite. De uns dias para cá, o problema se mesclou a outro e se tornou uma aberração rastejante englobando cada micropartícula do meu cotidiano.

O primeiro problema sempre foi a solidão, arranjei Olivia para se mesclar a isso, ela se tornou o problema dentro do outro problema. Assim, tenho uma bola-de-neve composta de pequenos problemas. Ela foi minha rota de fuga que me levou ao desfiladeiro. Em algum momento, você vai cair no buraco não importa o quanto se esforce para manter o equilíbrio.

Espera um minuto, minha dor atrás dos olhos é tão intensa que por um momento precisei parar de escrever. Os meus dedos parecem de borracha, eles esticam e retraem em espasmos. Eu não sei se estou morrendo, mas se estiver não sinto medo. A morte não iria vir através de uma enfermidade grotesca qualquer, não sinto realmente que seja meus últimos dias, embora as dores sejam fortes. Eu preciso ver Olivia e perguntar muitas coisas. Deve ser muito ruim morrer cheio de dúvidas, basta levar uma vida toda assim, plantando uma dúvida atrás da outra até nos perdemos numa mata fechada de incertezas.

O que aconteceu foi que eu e Olivia nos conhecemos há alguns meses por causa de um contato em comum. Alf trabalhava comigo na minha última empresa de reparação de computadores e me apresentou ela, "uma advogada bem gata", a princípio achei que não iria dar em nada. Mulheres "bem gatas" nunca notaram a minha existência. Olivia notou, o que achei estranho. De fato, nós somos muito diferentes, ela é 10 anos mais velha, mas não parece. Se você nos visse juntos iria até achar que eu sou mais velho por causa dos anos de cigarro e lassidão.

Então, no começo foi tudo muito bom. Dias que não queria que chegassem ao fim, esses dias que nos fazem acreditar em coisas boas do tipo que alguém realmente pode gostar de nós como somos. O velho clichê do poder sermos nós mesmos com alguém. Bobagem. Não percebia meus jogos internos contra mim mesmo para me adequar ao que Olivia considerava bom, divertido. Eu larguei meu emprego por um que ganhava mais mesmo detestando a empresa, mas ver o brilho de orgulho nos olhos dela fez valer a pena.

Fiz bem, progredi, me senti poderoso por algum tempo. Por algum tempo tudo parecia caminhar nos eixos ou pelo menos criei os trilhos pelos quais guiaria minha vida. Olivia estava no núcleo do meu novo ânimo, por ela faria tudo. Durante alguns meses passamos a nos ver com menos frequência, houve uma mudança no jeito dela, um certo desinteresse. Passei a procura-la com uma angústia crescente, a qualquer momento sabia que ela me dispensaria. Às vezes, ligava para ela durante a tarde inteira para que ela pudesse me atender apenas à noite. Não sabia mais o que Olivia fazia longe de mim, sempre alegava estar trabalhando muito.

Sinto muito, as dores por meus ossos correm como fogo numa mata. Está doloroso e aflitivo, preciso adiantar os fatos caso queira concluir a história sobre Olivia.

- Posso te enviar flores? –  Ela perguntou na última vez que me atendeu.

- Flores? – respondi.

- Sim. Diga: envia-me flores. –

Não entendi – e ainda hoje não entendo – porque Olivia falou isso, mas repeti o que ela pediu e no dia seguinte ao abrir a porta de casa para ir ao trabalho encontrei um vaso de flores. Coloquei-as para dentro, feliz, pois achava que era sinal do afeto dela por mim. No dia seguinte, mais flores na porta, e isso continuou por uma semana. Não tenho lugar mais de colocar tantas flores e Olivia não me atende. Elas infestaram o ar da casa, crescem e se proliferam. Por cima da cama, embaixo do travesseiro, há pétalas saindo por meus ouvidos ao amanhecer. Sufocado por pólen, aturdido pelo zunir de abelhas, adoecido.

Tremendo da cabeça aos pés, é assim que estou agora. Liguei para Alf, ele que me apresentou Olivia, contei que não posso mais sair de casa devido à doença que enfraquece meus nervos e queria saber se ele sabia sobre o paradeiro de Olivia.

- Olivia? – ele pareceu surpreso.

- Sim, ela não me atende mais, suas flores continuam chegando... –

- Quem é Olivia? – foi tudo o que ele me perguntou antes que eu desligasse e ouvisse atrás da porta os passos suaves do entregador de flores.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 04/12/2017
Alterado em 04/12/2017
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