O absurdo
por Larissa Prado
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Sala de cinema

- Colapsado?... Ah, estamos todos nós. –
 
 
 
Devagar. Sutilmente as luzes se apagam como acontece ao fecharmos os olhos com lentidão para mergulhar no sono. Os sons são suspensos, um silêncio se instala e minha alma está vazia como se nascesse de novo. Não há nada em minha mente. Todos pré-conceitos e convicções caem em um fosso mental, permanecerão enterrados e nulos. Sou puro novamente, pronto para receber o que a tela tiver para oferecer, e um pouco mais. Minhas idas ao cinema a cada fim de semana são como viagens extracorpóreas.
 
A maioria que está na sala comigo vem em busca de entretenimento, distração, procuram relaxar. Suas rotinas são estressantes. Eu me sento ali como um comandante sentaria em sua poltrona em um jato espacial, a diferença é que minha viagem sempre está além de todas que ele possa ter feito em torno do planeta. Estou sempre só nesse momento, porque é preciso solidão para esse tipo de viagem.

Logo, a tela começa a oferecer seus ruídos, altos que abafam quaisquer outros sons em volta – e por dentro. As imagens se intercalam, coisas começam a acontecer, e estou gravitando em torno de mim mesmo, preso à sequencia de frames na grande tela. Não há mais nada além do contato entre mim e os protagonistas de enredos que poderiam ser minha própria vida, às vezes são.

Saio da sala de reprodução ciente de que preciso disso de novo, para sempre. Todo fim de semana é a mesma coisa e ao sair dali volto para casa em busca de repouso. Fecho os olhos e durmo, não sonho com o filme que acabei de ver, mas o cansaço é como se tivesse feito parte daquilo. Não gosto de ir ao cinema acompanhado, a pessoa ao lado sempre vai atrapalhar a viagem, me trazer de volta para a Terra. Não quero voltar, depois que as luzes se acendem todos vão embora, permaneço sentado encarando os títulos finais até que o rapaz do cinema me mande embora. Eu não quero voltar para casa.

Foi em um desses fins de semana, depois de assistir a um filme que não posso revelar o nome, porque revelar o nome seria te dizer por onde andei, prefiro guardar tudo que vejo só para mim mesmo sabendo que inúmeras pessoas pelo mundo também viram o que eu vi, mas não da forma que eu presenciei. A minha viagem é única, sei que a sua também se você se permitisse.

Depois que sai do cinema, encontrei uma amiga caminhando pela rua, ela parecia apressada como sempre. Não quis dizer “oi!” primeiro. Nunca quero dizer “oi” para ninguém embora as circunstâncias sempre nos forcem a fazer o que não queremos fazer. Ela me disse um “oi” meio apressado, mas antes que pudesse seguir adiante nos seus afazeres do fim do dia, parou e me olhou com uma surpresa que nunca tinha visto antes no olhar de ninguém direcionado a mim.

- Querido, você está bem? –

- Claro (eu não me lembrava seu nome, eu ainda não tinha retornado da última viagem). –

- Você...- e então ela focou os olhos no meu peito, aquilo me incomodou, evidentemente.

Acompanhei seu olhar perplexo e não pude deixar de me perplexar.

- Ah...isso não é nada, uma mancha. –

Eu fechei o casaco de frio para disfarçar o sangue que molhava a camiseta. De onde vinha aquela mancha?

- Tem certeza? Estou de carro, posso te levar em casa ou onde preferir.-

Ela estava apressada, e não queria sua companhia, não naquele momento onde tudo começou a se tornar confuso, mais confuso do que eu poderia suportar. Agradeci a preocupação e segui adiante, a pressa se tornou minha deixando ela para trás sem virar o rosto para despedir.

Quando cheguei em casa, pude tirar o casaco e vi que a mancha tinha secado, era real. Tirei logo a camiseta, afoito por verificar o ferimento, não havia nada ali. O ferimento do homem na tela do filme era meu? Olhei em volta, e a casa não parecia mais a minha. Tropecei nas peças do submarino afundado que se espalhavam pela sala, desviei da cabeça de alce jogada próxima ao meu quarto e quando cheguei e olhei para minha cama esqueci que estava servindo de abrigo para os leopardos. Eles se espreguiçaram me olhando. O anão do show de horrores me cumprimentou com seu sorriso servil estendendo meu chá numa bandeja com os comprimidos contra ansiedade generalizada. Corri para  o banheiro, ela se debruçou sobre a banheira, a cauda de peixe se elevando da água morna.

- Querido? –

Esbarrei na pia e olhei para o peito, o coração parecia bombear a carne, queria sair de qualquer jeito.

- Estou tão colapsado, Samantha – olhei para a mulher-peixe saída de algum filme me fitando serena da banheira.

- Colapsado?... Ah, estamos todos nós. – e mergulhou molhando os longos cabelos pratas.

Ela tinha ventosas embaixo das mãos e a falta de nariz e as guelras nas bochechas davam a ela um aspecto assombroso, mas belíssimo. Entendi porque ela estava ali, porque era uma das coisas mais lindas que eu já tinha visto. Virei-me ouvindo seu rabo grosso bater contra a banheira, me olhei no espelho.

Era uma viagem da qual não podia voltar, mesmo ao ultrapassar a porta de casa, trazia para junto de mim todas experiências de todos anos consecutivos vivendo de verdade a partir da tela dos cinemas pela cidade. Sorri, o ferimento no peito não era real. Não era eu o homem do filme, apesar de me sentir vivo em sua pele, nada daquilo poderia ser real. O homem no espelho, me encarando com um sorriso triste, o ferimento de garras no peito cuspindo sangue garante o contrário. Sua voz arrastada confessa o que inconcebível:

- Sinto dizer, garoto, mas tudo isso é bem REAL-
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 01/12/2017
Alterado em 01/12/2017
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