O absurdo
por Larissa Prado
CapaCapa
TextosTextos
ÁudiosÁudios
E-booksE-books
PerfilPerfil
Livros à VendaLivros à Venda
ContatoContato
LinksLinks
Textos


NINA
 
 
“Nina, meu nome é Nina, eu ainda estou com 20 anos e tenho um ótimo emprego”. Não posso me esquecer disso, por isso fico repetindo sem parar diante o espelho. O meu rosto coberto de sangue e poeira não parece mais o mesmo. Não fosse pelo verde dos olhos, diria que era uma máscara, a face  assustadora de uma mulher que desconheço.

As últimas horas não passavam de um borrão. Eu sei que me chamo Nina, mas e o resto? O que mais me lembro além do meu nome, idade e emprego? Não sei. Sentada na cama desse quarto num hotel de beira-de-estrada, tento recordar o que minha memória insiste em apagar.

Estou escrevendo num bloco de anotações que deixam na cabeceira da cama, o espaço é pouco, por isso, vou tentar relatar tudo o que conseguir lembrar da forma mais resumida possível. Era meia-noite quando Eliot chegou no hotel, ele me deixou esperando por horas, trancada nesse quarto minúsculo. Tivemos uma breve discussão sobre o atraso, mais uma vez prometi que nunca mais nos encontraríamos ciente que não cumpriria. Ele pareceu mais cansado do que o normal.

- Bati o carro em algo...- Eliot sempre conseguia fazer com que me sentisse culpada.

- Como? Você está bem? – perguntei e ele só acenou uma afirmativa com a cabeça antes de ir tomar banho.

Sai do quarto para checar o carro, o estrago no para-choque mostrava que tinha sido uma colisão em algo grande. Lembro que pensei “Talvez tenha sido uma vaca, cavalo...um animal grande”, nessa região há muitas áreas rurais, é normal encontrarmos os animais pela pista.

Esperei ele sair do banho, finalmente pudemos ficar juntos, mas a noite não foi como eu imaginei. Eliot passou boa parte do tempo calado, quando o serviço de quarto trouxe nossa comida, ele mal tocou. Pensei que talvez fosse algum problema em sua família, com a esposa ou um dos filhos, ele possui um casal, o acidente tinha sido dissipado da minha cabeça. Não pensava mais nisso até Eliot retomar o assunto.

- É estranho – ele estava arrumando a cama para deitarmos – quando bati no bicho, o carro deslizou pela estrada. Depois, olhei pelo retrovisor e não havia nada ali. Desci para olhar, e não tinha sangue, nada. Não sei... – ele se deitou na cama e se encolheu, trêmulo.

Terminei meu lanche noturno. Estava combinado que iríamos a um festival de música na cidade que acontecia todo fim de ano, exposição de animais exóticos e tudo o que os amantes do mundo rural gosta. Eu não estava tão animada quanto Eliot, e naquele momento, ele parecia bem abatido.

- Pode ser que o animal saiu correndo, não machucou muito... –

Eliot não disse mais nada, ele pegou no sono muito rápido. Tomei um banho e me deitei. Eu tinha chegado ao hotel às 18h, esperei muito tempo por ele, por isso, achei que o cansaço iria me fazer adormecer assim que colocasse a cabeça no travesseiro, como Eliot tinha feito, mas ao contrário, demorei a dormir.

Lembro que tive um sonho muito ruim, algo relacionado ao acidente de Eliot, mas eu era a motorista, não ele. Atrás do volante de sua caminhonete eu tinha me chocado contra algo que estava parado na estrada, mas quando descia para ver era Eliot o animal atropelado, mas seu corpo estava disforme. Haviam patas de cachorro no lugar das mãos, e ele não gemia, uivava. Eu lembro que tentei gritar no sonho, mas acordei na cama gritando. Olhei para o lado e ele estava em sono profundo, não acordou com meu rompante.

Levantei e fui ao banheiro, lavei o rosto e quando cheguei na cama de novo, lembro que escutei o som de partida da caminhonete de Eliot. O último pensamento que tive foi que estávamos sendo roubados. Sai pela porta do quarto, daí em diante não lembro de nada. Vem o borrão.

Acordei com o sol da manhã direto nos meus olhos. Estava encolhida, deitada na porta do quarto do hotel. A poeira me incomodava, logo, comecei a sentir as dores pelo corpo. Quando vi que minha camisola estava coberta de sangue, me vi gritando por socorro, não tinha ninguém ali. A recepção do hotel estava deserta, uma placa de “volto logo” estava pendurada na porta de entrada. Corri pelo corredor de quartos, todos estavam vazios, as portas abertas, apenas o nosso permanecia fechado. Entrei chamando por Eliot, levou um tempo até perceber que o sangue não era meu. Sentei na cama e fitei meu reflexo no espelho da penteadeira. Foi uma surpresa desagradável perceber que não me lembrava de nada, até meu nome tinha se perdido em minha cabeça. Comecei a pensar nele. As letras “n” rodopiavam e rodopiavam em minha memória num balé estranho. “Nina”, me lembrei como odiava meu nome. Mas não pude recordar o resto da noite.

Revirei o quarto, liguei para Eliot e seu celular tocou sobre a cabeceira da cama. Ele não voltou até agora, está anoitecendo. Nem Eliot, nem o gerente do hotel ou as pessoas que trabalham aqui. O único carro parado no estacionamento é o meu. Eu fico me perguntando o que fiz, porque dentro de mim uma certeza toma forma: eu machuquei alguém, todo sangue que cobre meu corpo só aumenta minha convicção, mas e as lembranças? Elas não chegam até mim. Apenas o borrão permanece.

Então, tento me lembrar o momento exato em que despertei do sonho ruim através do grito preso. Eliot sangrando na estrada, atropelado e torto, as patas no lugar das mãos e seus uivos. Eu sinto muito, por não conseguir me lembrar, me sinto doente, o peito doendo cada vez que respiro ou me ataca as tosses horríveis. Em um dos acessos de tosse cuspi um pedaço de carne envolta em um bolo de cabelos. Antes de jogar aquela grotesca bola de comida não digerida pela privada, tento analisar os fios de cabelos pregados nela.

Não consigo deduzir o que possa ser isso, o que significa, mas eu tenho certeza, que você que está lendo esse relato, vai ter uma ideia mais clara do que eu sobre tudo o que pode ter acontecido noite passada. Talvez minhas lembranças não voltem, creio que até mesmo meu nome e as informações básicas sobre mim vão se apagar, porque a única certeza que tenho é que não sou a mesma. Nunca mais serei.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 25/11/2017
Alterado em 25/11/2017
Copyright © 2017. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.