O absurdo
por Larissa Prado
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1876
 
I.

Quando o grito do bebê ecoou pela casa alcançando toda região em volta, os pássaros voaram de seus esconderijos nas árvores. A mãe, exausta e abatida, podia sorrir de novo. Era sua criança renascida, o retorno do primeiro filho perdido, mas seu regozijo durou pouco. A parteira fitou a mulher sobre a cama e o bebê se movendo encoberto por panos por um longo tempo.

- O que foi? – gritou a mãe.

- O que tem de errado com meu filho? –

A mãe estendeu os braços, sem poder recuar a parteira lhe entregou o bebê. Do lado de fora, o pai pressionava o chapéu contra o peito, estacado diante a porta do quarto, não tinha coragem para entrar porque algo não estava certo. Ele podia sentir através dos calafrios que percorriam seu corpo.

Depois do primeiro choro do recém-nascido, um silêncio prosseguiu, aumentou a ansiedade do pai. Tomado de uma curiosidade aflitiva, ele entrou pela porta, o urro da esposa vindo do quarto o fez afastar antes de entrar por completo. Algo estava mesmo muito errado, ele sabia, contendo o assombro aproximou da cama e não conseguiu disfarçar o terror em seu semblante.

 
II.
 
O único ruído era o vento da chuva do lado de fora, o narrador permaneceu calado acendendo seu terceiro cigarro da noite. As duas mulheres que o cercava trocaram olhares desconfiados:

- E então, o que aconteceu? –

- Ele está fazendo suspense enquanto pensa nas próximas lorotas. –

O homem que contava a história deu um sorriso cheio de malícia. Na sala, a pouca iluminação vinha dos celulares das duas, os rostos pareciam flutuar na escuridão. A forte chuva não parecia querer dar trégua e a energia do chalé também não parecia querer voltar tão cedo. Os três permaneceram no breu da noite.

- O que faz você pensar que a história é mentirosa? –

- Ah, por favor, Kaleb, você só está tentando nos assustar, pelo menos comigo isso não funciona. –

- Certo – ele deu uma tragada no cigarro, voltou a olhar pela janela, observando a chuva chicotear o vidro.
 
 
III.
 
As chuvas naquela época do ano eram escassas, eles deixaram o bebê, que era uma garotinha, no calor insuportável do celeiro onde suas únicas companhias eram as moscas e os pombos que infestavam o lugar abandonado.

- Doutor-, o que podemos fazer? – o fazendeiro mascava um pedaço de fumo e cuspia em seguida um bolo duro aos pés, visivelmente descrente.

- Nunca vi um caso assim, sr. Miller, sinto muito. Levei o caso da sua filha para médicos amigos na capital, mesmo assim, nenhum deles viu algo parecido. Posso arriscar dizer que é resultado de uma má-formação durante a gravidez. Vamos apenas proporcionar o melhor que pudermos para ela crescer menos dependente possível de vocês. Onde está a garotinha? –

- A culpa é minha, então? – Carmen serviu o café, deixou transparecer o nervosismo nos tremores das mãos – Não é isso, doutor? Ela saiu defeituosa porque não pude gerar direito. –

O médico tomou um gole de café e observou o olhar repreensivo do marido para ela. Decidiu apaziguar a situação.

- Claro que não, sra. Miller, não temos como prever esses incidentes. São imprevistos da ciência. –

- Deus está nos castigando... primeiro levou Yago, agora nos mandou um monstro. – Carmen saiu da sala, não iria se permitir chorar diante os dois homens.

- Então, sr. Miller, onde está a garotinha? Gostaria de examiná-la agora que já alcançou os 6 meses de vida –

Sr. Miller pareceu constrangido, se mexeu na cadeira e serviu o café para si próprio.

- Ela está na casa da avó, mãe de Carmen, na cidade. Vamos busca-la no fim da tarde, foi o melhor jeito que encontrei para conter essa mulher... Doutor, ela diz coisas muito ruins sobre a filha. –

- Isso é normal sr. Miller, ela ainda está traumatizada pelo o que aconteceu, é apenas questão de tempo e a etapa de aceitação começará. –

Apesar do médico não ter acreditado na versão do pai de que a criança estava com a avó na cidade, resolveu não se meter em assuntos familiares. Prometeu a sr. Miller que iria procurar um amigo que estudava a mente das mulheres em estado de histeria e marcariam uma visita para Carmen. Sr. Miller pareceu mais tranquilo em relação a mulher, e nada mais falou sobre a pequena.

No fim daquele dia, o celeiro estava imerso na penumbra de uma noite muito quente, Sr. Miller abriu a porta devagar, não ouviu nada e temeu pelo pior, que ela estivesse morta. Aproximou do berço, que em outros tempos serviu de repouso para Yago, e espiou a criança dormindo. Estava avermelhada pelas longas horas de calor intenso, coberta de marcas de picadas de pernilongos.

- Eu sinto muito, minha filha – ele limpou o suor da testa da filha e com repulsa levantou o fino lençol que cobria suas pernas deformadas. Voltou correndo para casa, atordoado, antes de entrar no celeiro rezava com toda força para que ela estivesse normal, que aquelas pernas não passassem de um pesadelo.
 
IV.
 
Passados longos meses, o casal Miller manteve a filha na existência solitária e quente do celeiro. O pai a visitava apenas para alimentá-la e a mãe não se aproximava sequer da porta, pouco a pouco ela convenceu a si mesma que a menina não existia. Sr. Miller sentou diante a mulher na hora da janta, o dia tinha sido exaustivo, tocando o gado e domesticando os últimos cavalos que havia comercializado. Era o ano de 1876 e a vida de fazendeiros na região não era fácil, haviam muitos ataques de selvagens e bandidos aos animais.

- Howard passou aqui hoje à tarde – ela levou uma colherada de caldo até a boca e limpou o que restou com um pedaço de pão, não olhava o rosto do marido.

- O que ele queria? –

- Saber sobre a menina, você devia mantê-la calada, dá para ouvir o choro lá das terras dos Hernandez, aqueles mestiços imundos –

- Talvez você devesse cumprir seu papel de mãe e cuidar disso, Carmen, porque estou cheio de trabalho o dia todo, você sabe disso e não preciso do xerife xeretando por aqui agora. –

Ela permaneceu calada, ele sempre fora um marido dócil, tão passivo quanto as cabras que criavam, aquele rompante de raiva era algo novo que ela não estava preparada para lidar.

- A culpa é minha –

- Não vamos começar de novo com isso – Sr. Miller bateu com o cabo da colher na mesa e encontrou o olhar sôfrego da mulher encarando do outro lado.

- Eu nunca contei o que aconteceu meses antes de descobrir que estava grávida. Não contei porque achei que era uma bobagem. –

Ele afastou o prato e saiu da mesa, contrariado e exausto das últimas conversas que tinha com a esposa, todo assunto girava em torno da criança e do que fazer com ela.

- Tive um sonho muito real, Andy, desses que a gente acorda achando que aconteceu mesmo, e você sabe que nunca sonho... –

- Não quero saber, Carmen, não venha com essa conversa agora, estou farto de você o dia todo amuada no quarto ou rezando o tempo todo, sem ajudar na colheita, sem fazer nada. Estou farto de você! –

-ME ESCUTA! – ela levantou da mesa batendo as duas mãos, os fios da pesada trança negra despontavam rebeldes. Carmen era uma bela descendente de espanhóis, antes, agora não passava de uma senhora meio enlouquecida.

- Por favor, me escuta, estou tentando falar sobre isso há dias, mas não te encontro mais – ela avançou no marido e agarrou-o pelos ombros, fitando seus olhos, para seu assombro eram olhos vazios, ausentes e cansados. Ele permaneceu parado, não fez menção de sair ou afastá-la, mas não havia qualquer emoção em seu rosto endurecido pelos anos e pelas perdas.

Ela beijou seu rosto e recostou na mesa, o verão tinha acabado, agora podiam ouvir o vento do lado de fora anunciando rigoroso inverno.

- Eu tive esse sonho com um comboio de coiotes, ou eram cães do mato, não sei, chacais... não consigo diferenciá-los, você com certeza saberia. Eles entraram em nossa casa, e parecia tão real, Andy, eu podia sentir o fedor que traziam de rabujo e carniça. Os olhos pareciam acender amarelados e ferozes, gritei como pude, mas estava sozinha. Você não estava aqui. Um deles, o maior, trazia algo na boca e deixou aos meus pés, eu estava na sala, costurando o enxoval para um bebê... ele tinha depositado parte do rosto do nosso filho. – ela abraçou o próprio corpo, sentindo as lágrimas escorrerem pelo rosto, desamparada, Sr. Miller não se importava, olhava-a com frieza e incredulidade –

- Era seu rosto, eu podia ver perfeitamente a pequena cicatriz na testa daquele dia que ele caiu do berço, lembra? Yago vivia caindo... sua morte não podia ser diferente, tinha que ser a queda do cavalo, logo do cavalo que ele mais amava... como isso pode acontecer, Andy? – ela limpou as lágrimas com o avental.

– Quando ia pegar o rosto, o que sobrara dele, o maior dos chacais avançou sobre minha mão, ele a devorou lentamente, como se degustasse, como homens saboreiam um belo pedaço de bife malpassado... mas não foi essa a pior parte do sonho, a pior parte foi ter sido violada pelos outros três animais que o cercavam. Eu acordei com fortes dores por todo corpo, por dentro... Eu não sei o que foi aquilo, achei que era bobagem até ela nascer...como nasceu, aquelas pernas... –

Andy suspirou e deixou a cozinha sem dizer nada à mulher que se entregou ao choro contido por dias.
 
V.

Os trovões aumentaram e a chuva também. Pietra foi quem pediu para ele interromper a história.

- Que coisa horrível! Ai que nojo, Kaleb, diga logo o que a criança tinha! –

- Calma, meu bem, a história está quase no fim –

- Está me dando sono, podia ter deixado eu contar alguma história e você iria ver o que é terror de verdade. – Yasmin sorriu para Kaleb com um sorriso cúmplice que Pietra não gostou nenhum pouco.

- Não é uma história de terror, Yasmin. – ele apagou o cigarro, pegou a carteira e viu que tinha sido o último – Essa história é sobre esse chalé, Andy e Carmen viviam aqui, isso aconteceu aqui, meu avô me contava ela toda vez que passávamos férias aqui.-

- Mesmo assim, ele inventou para te assustar, avôs fazem isso o tempo todo. O meu me contava sobre um homem que vagava com um saco roubando crianças para comer. Besteiras de adultos para assombrar crianças. Deveríamos abrir outro vinho... –

Pietra debruçou sobre o colo do namorado e olhou para Yasmin.

- Por que não chamou seu namorado para vir, Yasmin? –

Ela deu de ombros.

- Não somos namorados, Pietra, e sabe disso, estamos só...saindo. –

- Vocês querem ouvir o fim da história, ou não? – Kaleb dedilhava os cabelos de Pietra que virou os olhos para encará-lo, se a lenda era para assustar estava surtindo efeitos com ela. Yasmin, ao contrário, era cética demais para se deixar levar.
 
VI.

O casal Miller tinha recebido a visita do xerife mais duas vezes até decidirem se livrar da criança. No início, Andy estava resistente quanto à ideia da mulher, mas logo cedeu, pois, seu cansaço era maior, seu desespero em livrar-se das visitas do xerife Howard era mais forte. Carmen sugeriu que jogassem no poço da propriedade, mas Andy não tinha coragem, apesar de tudo, era sua filha e ele tinha se afeiçoado a ela. Para a esposa parecia mais fácil a hipótese de assassinato, ele não conseguia.

Passavam as noites discutindo sobre o fim da criança, ela estava com 1 ano àquela altura, mas não parecia ter se desenvolvido muito por conta das condições em que crescera. Sempre deitada no berço, imóvel, vendo os dias e noites passarem na imobilidade. Carmen acusava o marido de ser frouxo, sensível e fraco por não mata-la, ele sugeria então que ela o fizesse, mas Carmen justificava através da sua crença que Deus a castigaria por aquilo e como Andy não acreditava muito em Deus, estava liberado para matar.

O imbróglio durou algumas semanas até que o sr. Miller foi atingido pela solução enquanto caminhava com a garota sobre o lombo do cavalo na quarta tentativa de afoga-la no rio que cortava suas terras. Do outro lado do rio estavam as terras dominadas pelos selvagens, Andy Miller tinha problemas frequentes com a aproximação deles ou com as infindáveis guerras entre o exército da capital e os selvagens por suas terras. Não sabia muito sobre aquelas criaturas, apenas que adoravam a demônios e comiam suas crianças.

Se comiam crianças ele poderia deixa-la para que a encontrassem, talvez até iria amenizar a fúria dos selvagens aquela oferenda. Foi o que fez, Andy atravessou o rio e cavalgou por 1 hora até avistar as fumaças cruzando os céus vindas das acomodações indígenas.

Com cautela, ele deixou o embrulho com a criança na entrada da vila, qualquer um que passasse poderia ver, mas para garantir que a encontrassem logo, Andy sacudiu a filha para que acordasse, assustada, começou a chorar, e era um choro potente que espantava os pássaros. Pulou de volta no seu cavalo e saiu em disparada para casa. O problema estava resolvido, durante anos não souberam mais nada sobre a menina ou sobre os povos que a encontraram.

Carmen e Andy viveram seus últimos com a certeza de que aquela criatura não tinha passado de um pesadelo em suas vidas. Não era a reencarnação de Yago, não poderia ser. Carmen, no seu leito de morte, confessou ao padre e ao marido que havia feito um ritual para que Yago voltasse, no desespero da perda e da dor, tentou de tudo, inclusive evocar forças desconhecidas. Aos prantos, pediu o perdão do padre e de Deus, assombrado, o clérigo lhe concedeu o perdão, mas quando ela fechou os olhos, exausta e deteriorada pela tuberculose, ele confessou ao marido que o que esposa fizera era muito sério. Onde teria conseguido orientação para buscar o mal a fim de recuperar o filho perdido?

- Nos sonhos – disse sr. Miller – depois que nosso filho morreu, Carmen vivia tendo esses sonhos com coisas estranhas. Às vezes, eu acordava e não a via na cama, tinha que sair procurando, ela estava lá fora, debaixo da árvore onde o cavalo o derrubou e pisoteou seu rosto, ou, nua caminhando entre os animais. Nunca sabia o que iria acontecer, eu tinha medo de vê-la naquele estado, padre, não medo dela se ferir ou algo do tipo, mas medo dela mesmo, parecia ser outra pessoa. –

O padre benzeu a casa e deu todas orientações para o sr. Miller. Quando Carmen morreu, não foi enterrada ao lado do filho que estava sepultado atrás do celeiro, foi sim, queimada como recomendou o padre. Andy não pensou mais sobre a esposa durante os próximos anos ou nas tormentas que vieram após a perda de Yago. Aos poucos, a existência da filha e seu abandono também deixaram suas lembranças. Ele morreu aos 75 anos, o coração simplesmente parou de bater enquanto cavalgava, em paz.
 
VII.
 
- Então? – Pietra levantou do colo do namorado – O que aconteceu com a menina? Qual era sua deformidade? Acaba assim? –

- Bem, isso tudo que contei foi só para explicar sobre a origem da assombração que dizem assolar esse lugar há décadas. Todo fim de ano, a menina retorna para se vingar, ela se alimenta dos sentimentos negativos das pessoas através dos sonhos. Diz a lenda que os selvagens a criaram e a idolatraram como uma menina-deusa, porque diferente dos brancos, eles acreditavam em coisas diferentes, louvavam coisas estranhas. Ela ganhou muita força entre eles, que a viam como filha de algum deus antigo.-

- Isso é a mais pura besteira! – Yasmin levantou e espreguiçou, a chuva tinha acalmado, mas a energia não tinha retornado – Acho que vou deitar, me deu sono essa história ruim –

Kaleb sorriu, e levantou com Pietra que parecia desconfortável e pensativa.
Os dois foram para o quarto e Yasmin ainda ficou na sala tentando fazer o celular funcionar. Enquanto se preparava para deitar, Pietra sentiu calafrios percorrerem seu corpo, esperou o namorado e agarrou-se a ele.

- Kaleb, o que tinha de errado com a menina que nasceu? –

Ele deu uma risada.

- Você ficou com medo? –

- Não, claro que não, fiquei curiosa. –

- Yasmin tem razão, querida, isso é tudo bobagem que meu avô inventou para me assustar. Ele nunca me disse o que tinha de errado com ela, isso fica a critério da imaginação de cada um. – Kaleb deu um beijo na namorada e fechou os olhos, estava cansado das horas na estrada, a viagem fora longa.

Pietra tentou dormir, apesar do cansaço, não conseguiu. Por alguns minutos caiu em um sono leve e inquieto. Sua mente ia e voltava nas cenas que o namorado tinha contado da história, sua imaginação corria solta tentando decifrar o mistério que cercava a deformidade da criança.

Quando finalmente caiu no sono pesado eram 3 horas da manhã, eles haviam deitado às 19 horas, Pietra despertou com um choro de criança ao longe, como se viesse dos vizinhos, mas ali a próxima fazenda estava muito distante. Ela sentou na cama, olhou para o lado, Kaleb não estava ali. Com um pavor crescente, Pietra saiu da cama, checou o interruptor do quarto, nada de energia ainda. Saiu caminhando guiada pela luz do celular, a bateria denunciava estar no fim. Antes de chamar pelo namorado pelo corredor do chalé, ela ouviu ruídos vindos da sala, o choro de bebê tinha cessado.

Pietra ficou parada entre a cozinha e a sala, chocada, incrédula, Kaleb e Yasmin tentavam conter os ruídos do que faziam, mas ela deixava escapar um gemido ou um suspiro forte. Ele estava sobre ela como um animal ao copular a fêmea, era grotesco e quase desumano, não parecia um sexo normal, parecia mais um ataque. Ela buscou na memória todos os momentos que Yasmin comentara sobre Kaleb “Você tem sorte, ele é um partido e tanto”; “Kaleb além de ser bonito e rico é muito esperto, inteligente. Todas mulheres do mundo queriam estar no seu lugar”. Pietra não sentiu nada além de um imenso vazio dentro de si, sua cabeça girava potencializando os gemidos de Yasmin.

“O que eu estou vendo?” aquela pergunta apareceu de forma súbita em sua cabeça enquanto ela caminhava na direção dos dois, os olhos vidrados e a boca entreaberta de puro choque.

- Pietra? – a voz de Kaleb veio de um lugar muito longe – O que foi? – ele saiu do sofá, Yasmin observou a amiga, estava sentada mexendo no celular, devidamente vestida, conversando com Kaleb, mas a mente de Pietra continuava produzindo aquela imagem escabrosa da traição, alimentando o ciúme, a insegurança o ódio.

Ela passou por ele sem dizer nada, cobriu os ouvidos para deixar os gemidos de Pietra para trás, olhou em frente na direção da varanda, saiu por lá. Kaleb chamava por ela de algum lugar distante da sua mente, a voz de Yasmin se juntou à dele, mas Pietra ignorava isso porque só conseguia ouvir os sons animalescos da traição. Continuou andando, os pés tocaram a grama molhada, entre as árvores que cercavam toda propriedade, ela viu olhos amarelos espreitando, dezenas deles. Um uivo rompeu o silêncio da noite, o uivo cresceu forte até atingir Pietra em cheio, ela caiu de joelhos, não conseguia mais se manter de pé, do meio dos olhos amarelos entre as árvores uma figura meio-humana saiu, trazendo um enorme coiote ao seu lado.

A mulher tinha pernas de cão que a fazia caminhar de quatro na maior parte do tempo, mas naquele momento ela se manteve imponente em suas duas patas de coiote. O rosto assemelhava-se a um fuço de canino, olhos pequeninos e muito amarelos. Ela sorriu para Pietra, das presas enormes e da boca rasgada um odor de carniça emanava, abraçou a garota ajoelhada e fixou os olhos nas figuras paradas em pé na varanda. Kaleb estava sem ar, Yasmin, pálida, levou as mãos até o coração.

- Que diabos é aquilo? – Yasmin murmurou para Kaleb – Precisamos tirar Pietra de lá.

- Acho que é tarde demais – Kaleb correu para dentro do chalé para buscar o rifle que o avô mantinha pendurado sobre o móvel da sala, mas o barulho que seguiu o horrível grito de Yasmin confirmou sua suspeita: era tarde demais.
 
 
 
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 17/11/2017
Alterado em 17/11/2017
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