O absurdo
por Larissa Prado
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Auspício
 

Para onde voam todos esses pássaros no fim de Janeiro? Para algum recôndito onírico?

Durante minha infância os observei por tantas vezes até me encantar ao ponto de me tornar um experiente observador de aves. Anotei em um caderno todas espécies e seus hábitos. Nada me escapava.

Havia, porém, a curiosidade que nunca foi saciada. Os livros não podiam me dizer sobre os locais para onde aquelas aves migravam. Encontrei-me enfermo, certa manhã, primeiro dia após a desbandada das minhas aves especiais. A febre corroía meu corpo e declinava meu espírito de pesquisa numa melancolia nauseante. Era a minha grande incerteza a doença que me acometia. Sabia, absolutamente, tudo sobre pássaros, perguntassem o que fosse, estava na ponta da língua, mas faltava isto, somente isto, para tornar meu conhecimento satisfatório: para qual lugar os pássaros iam em suas rotas migratórias anuais?

Certa vez, indaguei um companheiro observador e ele me alegou o que já sabia “buscam por melhores condições de procriação e alimento, você sabe”. Claro que eu sabia, todas motivações que implicavam na busca de lugares melhores, mas quem poderia me dizer para onde iam aquelas aves que me visitavam?

“Para qualquer lugar”, respondia, então, meu companheiro “quem se importa?”. Deveria se preocupar, tolo, com os pássaros que me visitam. São atípicos, espécies que jamais encontrei, não catalogados por nenhum estudioso antes. Deveria estar radiante com tal descoberta, mas sinto apenas medo trêmulo. Ao cair da noite, seus cantos se tornam vocalizações quase articuladas de algum idioma morto, parecem pessoas sussurrando. Quando levantam voo para partir ao lugar desconhecido, ano após ano, o céu se abre em nuvens vermelhas formando um redemoinho espiral que os suga de volta ao lugar de origem.

Suas vozes se tornam gritos histéricos, ao lembrar disso sinto calafrios percorrer cada parte do meu corpo. Através das lentes do meu binóculo, há tempos me faço a mesma pergunta: para onde vão esses pássaros? Descobrir isso seria conhecer o lugar de onde vieram, estas belas aves escuras de olhares tristonhos. Porém, o mau pressentimento que acompanha seus voos migratórios há mais de 10 anos só aumenta e me paralisa e me domina a cada abertura espiralada de um céu infernal.

Valerá a pena a danação do conhecimento?
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 28/10/2017
Alterado em 29/10/2017
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