O absurdo
por Larissa Prado
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Despersonalização 

Uma rua pela qual dirigi a vida inteira. Agora erro as curvas e me deparo com esquinas tortas, derretendo no sol escaldante de setembro.

Minhas mãos permanecem trêmulas no volante, então, estaciono. Estou certo de que nada está certo. A direção das ruas do bairro não me levarão para casa, pois sinto que não tenho casa e lembro da voz de Garland dizendo "não há lugar como o lar", imagino que preciso de sapatos vermelhos para encontrar meu lugar.

Não sei o que falta dentro do porta-luva, quando o abri não tinha nada, e deveria ter. Não sei mais se o carro me pertence, até o banco do motorista parace estranho.

Levo as mãos na altura dos meus olhos e encaro as palmas, todas linhas que desenham mapas diferentes de todos outros do mundo. As mãos também não parecem minhas. Nada parece o que é.

As ruas, o carro, as mãos, nada faz parte do mundo que conheço. Olho pelo espelho e fico um tempo longo procurando meus olhos no reflexo, o rosto também não parece ser meu.

Inquieto, desço e caminho pela rua, os pés pisam no ar, a Terra deve continuar girando mesmo quando não estivermos mais aqui.
Ao longe, escuto uma canção que diz "all we're is dust in the wind", ela soa baixa como um suspiro.

Olho de um lado para outro procurando onde deveria ser minha casa. Ela existe? Mal lembro meu nome, não sei sobre meu passado. Checo as informações no celular e todas mensagens estampadas na tela não me remetem a nada. Não conheço essas pessoas, e deveria pois o telefone é meu. Uma das mensagens me chama de Olavo, alguém que negocia algo comigo, devo ser importante, só pessoas importantes possuem tantos compromissos e mensagens. A hipótese me incomoda, não me sinto bem em ser importante, essa espécie de anonimato me fez respirar melhor o ar, sem preocupações.

Não paro de caminhar quando sinto as primeiras gotas de chuva. Ela começa suave, os trovões anunciam que a água vai engrossar e cair matando. Não ligo, gosto da chuva, do seu frescor e do cheiro que deixa no ar, levando embora nas enxurradas a poeira das ruas e sujeira das vielas.

Vislumbro meu carro estacionado ao longe, em frente a uma banca de revista abandonada. Penso por um momento no dono da banca, não que eu o conhecesse, mas coisas e pessoas abandonadas me despertam curiosidade sobre seus passados. Porque nos abandonamos nas mãos do passado, volta e meia retornamos a ele.

Olhe para mim caminhando em círculos, andando sem rumo na chuva atípica que escondeu entre nuvens os raios de um sol intenso. Rumo sem saber para onde porque as ruas que eram minhas já não me pertencem e a cada minuto que se passa sei menos quem fui.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 27/10/2017
Alterado em 29/10/2017
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