O absurdo
por Larissa Prado
CapaCapa
TextosTextos
ÁudiosÁudios
E-booksE-books
PerfilPerfil
Livros à VendaLivros à Venda
ContatoContato
LinksLinks
Textos


Tarântulas

Ainda me pego pensando nos olhos de abril. Eram duas bolas de caramelo em um rosto de porcelana. Podiam dizer o que fosse sobre Anabela, mas não poderiam insultar seus belos olhos grandes que engoliam tudo que olhassem. Eu me apaixonei por eles em abril, na casa de campo dos meus pais. Depois que Anabela e abril foram embora não restou nada além da lembrança das aranhas, os rastros de pernas que deixaram na grama na qual nos deitávamos.

Nós dois passávamos as tardes caminhando de mãos dadas. Não sei o que ela pensava, não dava para saber se seu coração estava tão empolgado quanto o meu porque seu rosto não deixava transparecer nenhuma emoção. Anabela sofria de uma apatia imensa, isso foi o que me atraiu para ela. Seus olhos de caramelo derretido me estimulavam o desejo de devorá-la. Alimentar-me de cada pedaço da sua carne e alma, porque assim ela pertenceria para sempre a mim. Jamais aos outros. Gaviões matreiros.

Gastávamos o tempo do verão olhando os cavalos nas baias ou as aves nos viveiros. Nossos pais eram amigos, tínhamos convivido juntos quando crianças de colo, nos reencontrando só depois dos dezoito. Ela estava entrando nos dezenove e meus vinte já viravam vinte e um. Não trocávamos palavras porque não eram necessárias, apenas trocávamos olhares, e nos entendíamos.

Trêmula, ela estava deitada no meu colo mirando o céu, eu observava seus olhos tentando captar algum indício de amor, Anabela permanecia vazia, oca e aquela urgência começou a me devorar. Puxei seus cabelos entre as carícias e lhe perguntei

- Me ama? –

- Não sei –

- Quer casar comigo? –

- Não sei–

Apertei mais o puxão, seu rosto branco se virou para mim, não parecia contrariada. Estava esverdeada, azulada, roxa, eu continuava pressionando seus imensos cabelos sedosos de moça bem cuidada. Éramos jovens, mas Anabela trazia na face uma velhice decrépita digna daqueles que já estão se decompondo.

- Eu preciso ouvir você dizer que me ama, só eu digo isso... –

- Não vou dizer. Não posso. –

Dito isso, Anabela abriu a boca em um bocejo. Julguei o gesto como descaso, desprezo, senti-me abandonado e tolo, por isso, cobri-lhe a boca impedindo que respirasse. Queria vê-la desesperada, sentindo pânico, medo, qualquer coisa. Ela me olhou sem surpresa, os olhos de caramelo derretido não esboçavam nada.

Cócegas se espalharam pela palma da mão que comprimia sua boca. Afastei-a enojado, era um roçar de pernas, várias tarântulas escapavam por entre seus lábios, loucas e elétricas desceram pelo seu pescoço e subiram por meu braço. Saltei e deixei Anabela com a boca semiaberta a vomitar suas hóspedes grotescas. Antes de desabar na inércia da morte, Anabela me olhou e pude ver o sorriso malicioso em seu rosto vívido. Sua carinha arteira parecia mesmo a cabeça de uma tarântula.

Passados 20 anos, até hoje não pude compreender o que aconteceu ali, mas as tarântulas ainda me perseguem por onde ando. Sobem pelas paredes do quarto à noite, saem dos bueiros das ruas pelas quais passo, me surpreendem no banho, na cama, enquanto como, saem da privada, envolvem minha vida e no ruído estranho de suas patas posso ouvir a cadência dos “não sei” que Anabela emitia diante meu amor.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 21/10/2017
Copyright © 2017. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.