Contos de Horror
por Larissa Prado
CapaCapa
TextosTextos
ÁudiosÁudios
E-booksE-books
PerfilPerfil
Livros à VendaLivros à Venda
ContatoContato
LinksLinks
Textos


Obscuro
 
O calor é opressivo. Sufocante. Nenhuma corrente de ar circula pelo interior da casa que está mergulhada em sombras o dia inteiro. Uma figura se confunde com as mantas sobre uma cama de casal. Ao olharmos de longe não conseguimos definir o que é. Não passa de um amontoado. O dia transcorre parado, nada se move. As partículas de sujeira são as únicas coisas com vida dentro da casa.

Quando a noite cai o quarto está tão pesado que a escuridão parece ter presença, ser um ser vivo que espreita. A figura sob as mantas está sentada, o queixo encostado no peito, respirando devagar emite um ruído constipado. Na cabeceira ao lado da cama o porta retrato emoldura um casal sorridente, o homem na foto parece com aquele na cama, possuem uma vaga familiaridade. Ele estende a mão e tateia em busca de algo, a escuridão é tão grande que a mão do homem desaparece enquanto ele procura algo no móvel de cabeceira.

A ilusão das sombras nos faz acreditar por um momento que aquela figura não existe, tudo é tão negro e sem formas que o homem desaparece ao sair da cama. Um som metálico ecoa a cada passo que ele dá, o típico som de chaves. Ele caminha pela casa, atravessa o corredor e entra no último quarto ao destrancar a porta.

- Aquela dor de cabeça de novo –

A voz dele é baixa, ele fala com alguém que não responde, a pessoa respira com dificuldade.

- Eu não consigo controlar essa dor –

Ele lamenta antes de ouvir o uivo do cão do vizinho.

- Minha cabeça está espichando, espichando, crescendo...-

O homem sussurra em lamúria, seu tom não passa de um suspiro. Ecoa um som abafado, algo batendo contra a parede com força. De onde estamos observando não podemos dizer ao certo o que ele está fazendo, está se movimentando com violência, espancando algo inanimado.

Os ruídos duraram cerca de uma hora, o homem saiu do quarto e trancou a porta. Ficou parado, as costas contra a porta, apenas estagnado no mesmo lugar. Ele sente o calor tomando conta de cada parte de seu corpo, os músculos latejam pelos esforços exaustivos. A náusea incomoda assim como os uivos do cão do lado de fora. O homem atravessa o corredor e volta a se esconder debaixo das mantas quentes. Ele treme e exala um odor insuportável de carne decomposta. Continua dizendo a si mesmo o quanto sua cabeça está pesando.

Através da janela entreaberta do último quarto do corredor podemos ver a silhueta de uma pessoa se erguendo do chão. Foi de lá que o homem acabou de sair. A silhueta se move com dificuldade e parece deixar um rastro de algo pelo chão. Ela investe contra porta, mas não consegue abrir. Um choro baixo sai dos seus lábios cobertos pelas mãos trêmulas, dá para sentir sua desolação daqui, mas antes que possamos tentar compreender o que de fato aquela silhueta representa, o homem nos chama a atenção ao olhar pela janela do seu quarto direto para nós.

Seus olhos são de um amarelo incandescente e sua cabeça está pendida em um ângulo tão incomum que preferimos afastar os olhos de tal assombro. Ele parece uma estátua meio-cão-meio-homem, aquele rosto que não parece certo está cada vez mais perto de nós. 

 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 11/10/2017
Copyright © 2017. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.