Contos de Horror
por Larissa Prado
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Metamorfoseado
 
No começo eram apenas um ou duas. Apareciam durante a noite, voando letárgicas pelos cantos dos tetos da sala ou da cozinha, eu não dava importância, elas não faziam nada como era de costume. Só ficavam paradas. No café da manhã meus olhos procuravam-nas de maneira automática, lá estavam para me fazer companhia. Enquanto a chaleira apitava e eu folheava as páginas do jornal me permitia dar rápidas olhadelas para elas. São insetos magníficos, comecei a acreditar que eram uma espécie de companhia. As mariposas me visitavam porque sentiam-se bem ali, nem tudo estava perdido.

Quando criança descobriram que eu padecia de um raro transtorno que não me permitia sair de casa. Tive aulas com professores particulares, tentei trabalhar em casa a partir consertando eletrônicos que me traziam. Tudo o que fiz foi tentar me manter a salvo, saindo o mínimo possível. Não fui como as outras pessoas, não tive relações interpessoais, vivi meus vinte e sete anos completamente isolado desde que meus pais morreram.

Quando não se conhece o que há do lado de fora o interesse se torna mínimo, para não dizer inexistente, em relação a lugares, pessoas e ao mundo que existe da porta de casa para lá. Não me incomodava com minha situação. As poucas vezes que tentei sair fui acometido de fortes incômodos físicos e mentais como desorientação, queda de pressão, inflamações na pele e, o pior de todo quadro, uma forte dor de cabeça que me deixava fraco durante todo dia. Se eu não podia sair, e nunca compreendi bem as causas de tal enfermidade mas não me importava, deveria tentar viver da melhor maneira possível dentro da minha solidão.

Para aliviar os longos dias sozinho tive a sorte de desfrutar de boas companhias de animais. Vários cães e gatos passaram por minha vida e se tornaram a única família que me restava. É claro que eu sabia existir espalhados pela cidade alguns parentes, mas não fazia questão de ligar para eles, acho que porque eles tampouco mostravam algum interesse. Quando elas começaram a entrar pelas janelas eu não tinha mais nenhum animal como companhia, então, creio que naturalmente passei a me pegar pensando no quanto era bom tê-las por perto. Ter algo além de mim mesmo no que pensar. Sem perceber, passei a deixar algumas janelas abertas para que elas pudessem vir e ir. Pequenas atitudes que se tornam hábito por conta da necessidade de contato.

Depois de algumas semanas o número de mariposas passou a dobrar, triplicar. Numa manhã qualquer, não sabia com clareza qual da semana era, às vezes vinham lapsos temporais que me jogavam numa existência atemporal, vivia anos a fio sem ter certeza qual ano era, a não ser pela TV frequentemente ligada mostrando as notícias do que acontecia lá fora, num lugar do qual nunca pertenci. Eu levantei os olhos para os cantos da sala e notei parte da parede tomada por dezenas de asas negras, marrons e alguns pontos brancos. Já viram mariposas albinas? São belíssimas, quase estonteantes. Fiquei chocado de uma maneira maravilhada e acho que até abri um sorriso. Definitivamente, elas adoravam minha companhia.

No dia seguinte, a metade que faltava foi coberta por mais e mais delas, de todos tamanhos e formas. Não me importei, passei a conversar com elas mentalmente e à medida que sentimentos estranhos me apossavam, declinavam, notei que elas batiam as asas numa sinfonia enlouquecedora. Logo, controlava meu estado de espírito e tentava ao máximo me sentir bem para preservar os sentimentos delas e, também, para que o ruído das asas parasse.

Vivemos em harmonia por meses, uma comunidade inteira tomou conta da casa, chegando até meu quarto e cobrindo o teto, paredes, porta e parte do chão. O cheiro da casa se tornou esquisito, algo que me lembrava a um porão abandonado, mofado, podia ver poros flutuando junto à poeira. Eram os dias mais maravilhosos da minha vida, de alguma forma sabia a origem de cada uma, seus nomes, histórias, sentimentos. Tudo isso sem precisar emitir uma palavra, nossa comunicação se restringia aos pensamentos.

Vinham mais e mais, descobri que elas não precisavam se alimentar, muitas sequer possuíam cavidade bucal. Elas passavam todo dia quietinhas, um tapete de asas, as cortinas eram repositórios de ovos que eclodiam e larvas se agarravam ao tecido, casulos translúcidos. Eram mais do que companheiras ou parentes, aqueles insetos se tornaram parte de mim.

Foi uma noite antes do meu aniversário de vinte e oito que um longo uivo me fez despertar tremendo e suando frio na cama. O pesadelo que me aprisionou na cama parecia ter sido tão real, mas um bloqueio me impediu de lembrar o que era. Sai da cama com a boca seca, a garganta sedenta por água fresca. Acompanhei o estranho som até a cozinha, todas elas estavam voando num rodopio pela sala, senti o choque violento da corrente de ar poeirenta que elas levantavam. No centro do redemoinho havia uma figura contorcida, encolhida como um feto, coberta por uma camada oleoso como placenta dos bichos que assistia nascer pelos documentários da TV. Era grotesco, fétido e horrível.

Afastei alguns passos, algo muito errado se passava comigo, sabia o que estava presenciando, mas como acontece com os sonhos dos quais não nos lembramos ao acordar, eu não me lembrava o que sabia. O uivo se tornou mais alto, era um choro, uma lamúria vinda da figura no centro do redemoinho de asas, olhei um rastro do óleo que cobria aquela coisa em agonia e notei partes de pele esparramadas pelo chão. Eram uma espécie de película fina como cascas de ferida e fedia como tais. Cobri parte do meu rosto, tentando entender o que sabia, mas tinha esquecido. A dor mental foi tanta que senti o colapso aproximando como estar preso nos trilhos de uma locomotiva a dois passos de ser esmagado.

Cai sentado no canto da sala, observando o baile dos insetos. A figura humanoide se levantou com cautela, como novilhos que andam aos tropeços, o homem andou primeiro em círculos, depois, notou minha presença e veio até mim. Todas mariposas caíram, o som foi de uma tempestade, elas estavam mortas. Ele tinha olhos reluzentes na escuridão da sala, sombras de asas imensas e retorcidas se abriram de suas costas.

Não senti medo, apenas repulsa, uma sensação desconfortável e atordoante que não era pânico. Ele se abaixou, estava nu em uma pele viscosa, pálida. Seu rosto foi iluminado por um momento, não possuía maxilar, era um rosto pela metade. Naquele momento compreendi o que havia esquecido, aquele ser híbrido era eu mesmo me encarando curioso antes de se levantar e sair pela porta em direção ao mundo externo.

Tentei gritar para que ele não saísse ou aquilo o mataria, nos mataria, mas ele caminhou tranquilo, atravessou o jardim banhado pela duvidosa luz do poste da rua. Parou no portão, de onde eu permanecia caído podia ver todo jardim pela janela, ele olhou para trás, seus olhos emitiam uma luz ainda mais forte, parecia o brilho do triunfo. Ele saiu, passos firmes, asas escondidas. Os poucos transeuntes daquelas primeiras horas da manhã não pareciam nota-lo. Foi embora, pouco a pouco, à medida que a luz do sol banhava a sala e os corpos das mariposas mortas até alcançar meus pés e fazendo-os desaparecer por completo, senti dor, não muita, era uma agonia dormente.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 05/10/2017
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