Contos de Horror
por Larissa Prado
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“Bestiário”
Júlio Cortázar
 
Um dos maiores nomes do Realismo Fantástico latino-americano, Júlio Cortázar é um contista exímio (um dos meus autores favoritos do gênero ao lado de Murilo Rubião). Cortázar nasceu em 1914 na Embaixada da Argentina. Não teve uma infância boa passou a maior parte dela enfermo na cama lendo livros selecionados pela mãe. Seu estado de saúde debilitado durante a infância refletiu em histórias como a que conta em “Bestiário” conto que dá nome ao livro que irei analisar. Não irei analisar todos contos que compõe o livro, selecionei os meus preferidos. A seleção não se deu apenas a partir do meu gosto, mas nas histórias que reúnam todas características do gênero.

“Bestiário” foi publicado em 1951 e conta com sete contos de puro mistério e estranheza, principais características do Realismo Fantástico.  Entre o misterioso e o estranho, o gênero conta ainda com outros elementos como o insólito sendo incorporado no cotidiano dos personagens; a noção temporal convencional é alterada não seguindo, na maioria das vezes, a linearidade habitual das narrativas; obrigatoriamente há introdução dos elementos sobrenaturais inexplicáveis; informações ambíguas. Pra melhor definir o gênero faço uso das palavras de Tzevtan Todorov em seu livro “Introdução à Literatura Fantástica”:

 
“O fantástico implica pois uma integração do leitor no mundo das personagens; define-se pela percepção ambígua que tem o próprio leitor dos acontecimentos narrados. (...) A hesitação do leitor é pois a primeira condição do fantástico.”  (p.37)

O conto que abre o livro é “Casa Tomada”, um dos meus favoritos de todos contos escritos por Cortázar. A história envolve um casal de irmãos, o narrador e Irene. Sem que nenhum relacionamento tenha dado certo eles passam a envelhecer apenas na companhia um do outro. Tudo segue normal na rotina que o irmão nos relata, ele descreve os afazeres dele e da irmã e se prolonga na descrição visual da casa, podemos ter uma ideia vívida de como é o lugar em que moram.

Assim como acontece nas histórias dentro do realismo fantástico, acontecerá um fato que quebrará bruscamente a rotina que se desenvolve dentro da normalidade do cotidiano. Os elementos utilizados não fazem sentido num mundo real, isso nos desperta o sentimento de estranheza próprio do gênero.
No conto em questão, a rotina é alterada a partir do momento que o narrador ao ir até a cozinha escuta um barulho nos fundos da casa e se dá conta de que estão invadindo-a, tomando-a a partir dos cômodos dos fundos:

 
“Fui pelo corredor até me deparar com a porta de carvalho entreaberta, e já estava na virada que leva à cozinha quando ouvi alguma coisa na sala de jantar ou na biblioteca. O som chegava impreciso e surdo, como uma cadeira caindo sobre o tapete ou um sussurro abafado de conversa. Também o ouvi, ao mesmo tempo ou um segundo depois, no fundo do corredor que vinha daqueles aposentos até a porta. Então me joguei contra a porte antes que fosse tarde demais, fechei-a bruscamente com o peso do corpo; felizmente a chave estava do nosso lado e também puxei o grande ferrolho para dar mais segurança. (...)
- Tive que fechar a porta do corredor. Tomara a parte do fundo.
Ela deixou cair o tricô e me olhou com seus graves olhos cansados.
- Tem certeza?
Confirmei.” (p.12/13)
 
Assim segue parte a parte da casa sendo tomada e os isolando em cômodos até então livres. Eles vão se isolando e isolando até não restar mais cômodos livres. O que causa estranheza é o fato de termos noção em momento algum de quem está tomando a casa e suas motivações. O conformismo dos personagens afetados torna tudo mais incomodo. Cortázar sabe muito bem como criar atmosferas de tensão que nos dão a impressão que algo vai acontecer e nos explicar os motivos dos fatos insólitos, mas não há explicação.

Seguimos aflitos e desorientados junto com os personagens, tentando compreender o incompreensível, ávidos pelo desfecho que possa nos dizer algo racional diante o sobrenatural que desvirtua a normalidade e é aceito como algo natural.

Em “Carta a uma senhorita em Paris”, o narrador escreve para uma tal de senhorita Andrée. Não podemos saber ao certo qual tipo de ligação eles mantém, se são bons amigos ou um casal recém-separado. Cortázar nos apresenta o elemento sobrenatural nas primeiras frases do conto de forma casual:

 
“Andrée, eu não queria vir morar no seu apartamento da rua Suipacha. Nem tanto por causa dos coelhinhos, mas porque é doloroso para mim ingressar numa ordem fechada, já construída até nas mais finas malhas do ar, dessas que na sua casa são preservadas pela música da lavanda, o adejar de um cisne com cosméticos, o jogo do violino e da viola no quarteto de Rará. É amargo entrar num ambiente onde alguém vive belamente (...)” (p.17)

Os coelhinhos são o motivo da história ser contada à dona da casa. Quando nos deparamos com esta primeira informação a suposição natural e se tratar de coelhos que o narrador cria e precisa se deslocar com eles. Seria o racional a ser aceito e interpretado. Ao nos deixar esta informação no início do conto, Cortázar foi hábil em preparar nossa mente para o corriqueiro. A princípio não damos atenção aos coelhinhos, por se tratar de um conto fantástico esperamos pelo sobrenatural sem nos darmos conta que ele está justamente nos coelhos.
Nosso comodismo racional é arrebatado quando, abruptamente, o narrador escreve de maneira casual:

 
“Exatamente entre o primeiro e o segundo andar sentir que ia vomitar um coelhinho. Eu nunca tinha lhe contado isto, não pense que por deslealdade, mas naturalmente a gente não fica contando ás pessoas que de vez em quando vomita um coelhinho. Como isso sempre me aconteceu estando a sós, eu guardava o fato como se guardam tantos detalhes do que ocorre (ou a gente faz ocorrer) na privacidade total.” (p.19)

É preciso reler tal passagem para nos certificar de que lemos corretamente. Sim, ele vomita coelhinhos e o que causa isso não nos é explicado. Os coelhinhos parecem formar uma rebelião quando já são tantos que formaria um exército e destroem o belo lar da senhorita Andrée. Não há explicação racional para o fato sobrenatural.

Um dos contos mais importantes do livro é “Cefaleia”, nessa história Cortázar criou o que o tornou um dos mais inventivos autores do realismo fantástico: as tais mancuspias. São animais criados pelo autor nessa estranha história. Pessoas cuidam de mancuspias (seria uma espécie de coelho misturado a canguru) numa espécie de fazenda afastada da cidade. Suponhamos que o local seja uma fazenda porque o autor nos apresenta a descrição do cuidado com elas em currais e em determinado momento escreve sobre “ir ao povoado”.

Toda história é narrada em 1ª pessoa do plural (Nós), e não sabemos nada sobre a identidade dessas pessoas. Eles podem ser quaisquer pessoas: jovens ou velhas, pobres ou ricas. Só sabemos que estão, constantemente, adoentados, cansados, insones e que vivem apenas para cuidar das mancuspias. Seus horários e rotina são ditados pelos hábitos dos animais. Em determinado momento descrevem a extrema agonia que os sintomas de fortes cefaleias. O que nos resta ao final da história é supor que tudo é real ou apenas delírios, as mancuspias gritando e morrendo de fome eram reais? Essas pessoas eram? O conto todo é envolto numa estranheza e apatia, tudo se torna bastante indefinido à medida que passam a deixar de alimentar os animais.

Os outros contos, não menos importantes, são tão magníficos e estranhos quanto os que foram aqui analisados. É importante ressaltar que toda obra cortazariana permite múltiplas interpretações, o que fiz aqui foi algo superficial a fim de apresentar o escritor àqueles que ainda não conhecem seu trabalho. A interpretação de suas histórias é pessoal, cada um vai ser tocado de alguma forma – e talvez nem sejam tocados de forma alguma – como acontece na maioria das leituras. Cada leitor tem sua visão única de uma história, mas no caso do Realismo Fantástico isso se torna ainda mais forte por se tratar de obras que não oferecem explicações lógicas e dependam, fortemente, da percepção do leitor.
Outros contos que fazem parte de “Bestiário”:

“Longíqua”;

“Ônibus”, relata uma estranha experiência de uma garota que ao entrar em um ônibus passa a ser observada por todos passageiros, motorista e cobrador como se tivesse feito algo errado. Cortázar consegue transmitir todo incomodo da garota observada por rostos hostis desconhecidos, como é de se esperar não sabemos os motivos de tais olhares. A cada página acreditamos que irá surgir alguma explicação do comportamento dos passageiros, não há, ficamos presos na atmosfera de tensão criada pela situação.

“Circe”;
“As portas do céu”;

“Bestiário”; temos a narração do ponto de vista de uma criança, Isabel, que é enviada para a casa da família Funes. Isabel não parece animada com essa partida, mas se conforma por ter a companhia do filho do casal Funes, Nino, com quem passa boa parte do tempo brincando.
Todo conto se passa através do olhar infantil de Isabel sobre as relações dos Funes entre si e a forma peculiar que a casa funciona por conta da presença de um tigre criado pela família. Sempre que precisam fazer as refeições ou andar pela casa o animal é preso, em nenhum momento é apresentada sua figura, o tigre é apenas mencionado por Isabel em uma completa nuvem de incerteza sobre como e o porquê de sua presença em casa. Repleto de sutis observações da narradora que podem nos levar a diversas abstrações, “Bestiário” é um dos mais longos contos do livro e dá nome ao mesmo, é misterioso e merece ser lido e relido mais de duas vezes.

“Bestiário” não é seu livro mais famoso, o autor ficou reconhecido por “O jogo da Amarelinha” uma obra revolucionária dentro do romance de língua espanhola, um livro aberto a diversas possibilidades interpretativas. Outras obras do autor: Histórias de cronópios e de famas; Octaedro; Papéis inesperados (póstumo/não-ficcional); Divertimento; Todos os fogos; As armas secretas; Valise de Cronópio (não-ficcional). Estes não são todos seus livros publicados, apenas os que li e recomendo, muitos dos textos do autor ainda não foram traduzidos para o português.
 
Outros escritores(as) relacionados ao Realismo Fantástico que merecem atenção: Gabriel Garcia Marquez, Jorge Luís Borges, Carlos Fuentes, José J. Veiga, Isabel Allende, Horácio Quiroga, Murilo Rubião, Lygia Fagundes Telles.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 08/09/2017