Contos de Horror
por Larissa Prado
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Vênus cansada

Farta.

Farta da existência. Farta dos maneirismos. Compro girassóis porque morrem, eu preciso morrer um pouco com eles todos os dias mesmo sob o sol de setembro. Estou doente, se algum deus ainda estiver vivo e possa ler meus pensamentos, porque todo deus deveria acessar nossa mente e nos salvar de nós mesmos, vai saber que já tentei de tudo. O inferno então não será minha morada. 

Queria renascer em uma cidade subterrânea com monumentos de mármore e jardins com flores de todas cores, centenárias, não feitas em fábricas e coloridas artificialmente. Flores que vivem por séculos escondidas, que nada tem a ver com girassóis murchos. 

Lá, seria eu mesma e teria asas para poder alcançar todos céus noturnos, minha alma não seria motivo de chacota ou uma prisão de grades de chumbo, meu corpo não seria um instrumento décrepito e frágil ao toque projetado, exclusivamente, para as dores e ação do tempo. Eu seria a guerreira de aço e meus cavalos-marinhos voariam comigo, não teriam centímetros, mas sim, metros e metros, seriam maiores que bestas marinhas saídas de alguma história lovecraftiana.

Fadigada dos padrões pré-estabelecidos há 3 décadas, mudam os tempos, as pessoas continuam pessoas, nada poderá ser feito em relação a isso. Ontem tentei conversar  com aquele homem e não obtive êxito. Ele é surdo e tem a boca fechada por ataduras como os outros. Os seres humanos não são humanos, apenas simulacros de algo entre a besta e o macaco.

Lá, na cidade branca haveria um idioma que ligasse todas raças, inclusive a natureza e os bípedes que por ela fossem mantidos vivos. A natureza poderia continuar sendo natural, porque os homens não seriam homens, talvez eles fossem deuses.

Fecho os olhos, minha mente está apodrecendo e sobrevoa meus pensamentos mortos como um abutre faminto. Procuro algo para me manter sã, nada cura um buraco tão grande, nada pode cobri-lo. Estou farta da sociedade a qual (não) pertenço, seus jogos, guerras de crianças e soldados de plásticos derretendo ao sol, crianças mimadas e seus brinquedos eletrônicos em piqueniques onde se servem dos corações recém-nascidos. Tudo é o embuste exibicionista de Febos consagrados em seus mitos. Cefiso é uma das portas pela qual todos caminham em direção a morte.

Minhas palavras não têm sentido, nunca tiveram. Elas não soam como arte, não há arte nisso, apenas súplica. A imagem é tudo, perca a noção de si mesmo e morrerá, você está tão perdido quanto todos outros. Farta, enfadada, enforcada, eles vem e vão pisoteando as flores, destruindo o mármore, se consideram deuses no seu interior podre. Ainda continuo escrevendo enquanto resta-me dedos roídos, resta em mim (in)sanidade suficiente para me manter escrevendo e escrevendo...até que o último pulsar faça ondas elétricas saltaram de uma partícula a outra. Estarei escrevendo para ninguém em um tempo morto onde permanecerei escrevendo ao renascer em outro sistema, a estrela-morta mais brilhante que essa constelação já possuiu. 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 07/09/2017
Alterado em 07/09/2017
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