Contos de Horror
por Larissa Prado
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Fantasia

Suplico, inerte, pisoteado como a asa da barata que se escondeu do seu pé atrás da porta da cozinha. Preciso que você retorne e gire a maçaneta, não estou muito certo sobre o sentimento que me controla no momento, mas estou certo que é um flerte com a loucura, ficar sem Estela, quem diria, eu não diria, e você? 

Sei muito bem que ela não vai dar meia volta, subir as escadas fazendo ruído com seus saltos e entrar pela sala, espaçosa, mariposa alvoroçada em busca da luz. Eu sou Gregor Samsa de patas para cima, esperneando, esgotado, quaisquer traços de homem sucubiram e deram lugar ao inseto que me tornei ao seu lado.

Seu nome é Estela, mas eu a chamava de “borboletinha”, piegas como são todos gestos de uma criatura entregue a insanidade da paixão. Sei que irei morrer porque sem ela nada parece possível, então, começo a dar lugar à fantasia de tê-la novamente, não nos meus braços, mas na minha alma.

Não fui um homem de muitos casos amorosos, ela talvez tenha sido a única que levou parte de mim enquanto as outras não passaram de breves sabores que não deixam lembranças. Um bolo muito doce, um aperitivo muito amargo, gostos que não agradavam, mas davam para encher a boca e passar o tempo.

Estela foi uma estrela, na falta do “r” eu a chamava também de “pequena estrela dourada” por conta dos seus cabelos que reluziam a luz de mil e um sóis, eram dourados como ouro, imagine tamanha beleza. Não poderia mantê-la presa por muito tempo, por Deus, eu sabia disso e mesmo assim fantasiava.

Estela e eu viajando, caminhando de mãos dadas, envelhecidos e ainda amantes. Estela era meu sonho dourado, noite de verão. Eis que vê-la saindo de casa arrastando suas malas foi como ter levado um golpe de machado no meio do peito. Ele está despedaçado, meu peito e tudo que havia por dentro. Bebo, fumo, danço e vomito tudo em seguida, mas a angústia não é eliminado, o bolo de vômito não consegue me livrar desse chumbo que é a ausência de Estela.

Mais um dia transcorre, uma noite fria chega, a cidade movimentada me lembra que o mundo ainda gira, mesmo sem Sol ele continuaria a girar? Pois, estou sem o meu astro-rei, ele foi embora em saltos altos quebradiços e com um hálito de conhaque. Estela, encontrei-a na zona, mas era minha pequena estrela dourada e levou consigo parte do que tornava homem. Abro a janela do último andar do prédio sofisticado em que vivo. Preciso respirar um pouco, o ar dentro da casa está cada vez mais pesado, a fumaça dos meus cigarros não dissipam, me sufocam. Vejo uma pequena luz cintilar no céu negro sem estrelas, a luz cresce e cresce aproximando de meu rosto, lá dentro dessa pequenina bola reluzante posso ver Estela, miudinha como sempre foi, sorrindo para mim.

Ela estende sua mãozinha delicada, cheia de penduricalhos, me chamando com seus lábios estreitos de flor. Ergo os braços, estou tão entorpecido por uma feclidade débil que não percebo o salto, os pés flutuando no ar, os braços tão esticados para a pequena luzinha que rodopia diante meus olhos. Caio no infinito da queda, a cabeça deve ter rachado no asfalto da calçada, como poderei saber se tudo o que me resta é o reflexo dos olhinhos apertados de Estela na pequena luz piscante?
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 22/08/2017
Alterado em 22/08/2017
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