Textos


A Febre de Vingança
 
 
“Ah, sinto seu calor em minhas mãos, Elise, puro como o primeiro beijo da manhã em um dia frio. Eu posso ouvir sua respiração, o coração pulsando junto do meu... eu sinto o calor que vem do seu corpo, Elise, não posso conter um gemido de puro êxtase, pois, seus olhos estão me fitando da penumbra do quarto. Eles só reforçam que são meus únicos faróis nesses dias de total escuridão. Estou segurando sua cabeça no meu colo como fazíamos em dias de verão no parque... seus lábios entreabertos suplicam um beijo, mas não posso te acariciar agora, há muito o que fazer, meu amor, e seu sangue ainda está impregnando todo quarto...” (Diário de Carlo)

 
I.
 
O som que ecoa do piano faz com que a mente de Carlo volte no tempo, naquele momento derradeiro em que o projétil explodiu o olho dela “Era um olho muito verde” ele pensava enquanto girava o copo de vodca “verde e muito vivo!”. Aquela era a memória recorrente que ficara de Elise, não foram os últimos meses em Paris ou suas músicas favoritas e a forma que ela dançava elas, em sua mente apenas o olho verde eclodido ficava voltando como um ovo frito estourando. O homem atrás do balcão olhava para o cliente como um ar preocupado “Mais uma dose, Carlo?” ele oferecia, Carlo aceitava sem notar que o fazia.

A noite corria, nada acontecia que despertasse interesse, ele foi até ali para tentar esquecer, mas só fazia se lembrar mais e mais de Elise. A ideia febril crescia dentro de Carlo como uma doença. Primeiro tomou conta de seus pensamentos deixando-o dormente, ele iria atrás de Baltazar porque foi ele que lhe proporcionou a lembrança do olho estourado da mulher que amava, aquela memória que não o deixava em paz.

“Ela não tinha nada a ver com isso” Carlo virava outra dose, remoendo sentimentos que não sabia mais definir, a febre tomava conta de tudo. A última dose de vodca chegara ao fim, ele se arrastou para a rua, para os fundos do lugar a fim de aliviar a bexigar e arejar a mente.  Enquanto observava a fraca luminosidade da própria urina escorrer pela parede descascada do beco escuro, Carlo se lembrava do brilho verde nos olhos dela. Pouco a pouco a razão retornou à mente, ele sabia o que precisava ser feito, a febre tinha acalmado e se tornado um tremor frio por baixo da pele.

 
II.

As ruas serpenteavam como labirintos de concreto, a madrugada transformava sombras em monstros. Carlo dirigia seu Ford Del Rey recauchutado a 40 KM/h, o álcool turvava sua visão e ele sabia que não era apenas o efeito da vodca, nunca foi apenas o álcool. Ele procurava os blocos de apartamentos onde tantas vezes foi buscar Marco. Estava rodando há longos minutos em círculos, não conseguia se lembrar onde o grotesco e pretensioso traficante morava. Carlo estacionou em frente ao bloco B, sua memória contribuindo na lembrança do lugar, tirou um cigarro do bolso da camisa e fumou com calma. A fumaça emoldurava seu rosto cansado e cadavérico.

“Depois que se entra nesse ramo, Carlo, não tem volta. É só ladeira abaixo, você precisa aprender a perder porque se perde o tempo todo” a voz de Marco parecia ganhar vida no interior do carro, ele podia ver a silhueta do antigo parceiro ali no banco do passageiro. Ele gostava de Marco, pelo menos no início quando a adrenalina deixava tudo tão excitante que ganhos e perdas não pareciam significar muito. “Isso é um jogo perigoso, rapaz, e você ainda é deslumbrado o suficiente para sofrer...” Marco era como um irmão, Carlo aprendera tudo  com ele, mesmo quando Baltazar elogiava sua mente rápida, Marco não parecia se ofender, não havia traço de inveja ou disputa entre eles. Carlo sentia que podia confiar no amigo, afinal, tinham crescido juntos na Rua dos Lírios, em uma infância tão mágica quanto a pobreza deixava que fosse.

Marco elevou as habilidades dele ao máximo, orientou como receptar encomendas importantes, tratar fornecedores problemáticos, comprar autoridades, disfarçar, blefar, matar, Marco tinha recriado uma versão mais forte e esperta de Carlo e ele gostava do que havia se tornado, devia isso a Marco porque ele sempre foi o caça-talentos, Marco tinha faro para pessoas, ele sabia avalia-las, manipulá-las e recriá-las como quisesse. Por isso, Marco se tornara o homem de confiança de Baltazar, de certa forma se Marco era bom tinha aprendido com Baltazar, e Carlo acreditava que traição estava entre as últimas habilidades desenvolvidas por Marco, ele o tinha traído descaradamente.

Ele terminou o cigarro e ficou observando o bloco B. Tudo estava quieto, alguns jovens estavam reunidos por ali consumindo drogas que provavelmente tinham sido distribuídas por sua antiga teia de negócios. Um carro estacionou ao lado do bloco, do outro lado da rua, Carlo reconheceu de imediato a silhueta que desceu dele, era o inconfundível andar de pinguem de Marco. Ele está acompanhado de uma bela loura elegante – Marco sempre gostou delas – o peso de revolver traz a febre de volta à mente de Carlo, ele guarda a arma no porta-luvas, não é desse jeito que quer acertar as coisas. Sua mente precisa de algo mais...íntimo, atirar em alguém torna a coisa impessoal, fria... Carlo diz para si mesmo que torna tudo sem graça.

Carlo desce do carro e abre o porta malas, de lá retira uma mala de couro lustrosa, dentro há uma sequência de lâminas bem polidas e afiadas. Em seus tempos áureos Carlo era conhecido como “o açougueiro”, as marcas daqueles que conheciam suas habilidades com lâminas fizeram sua fama. O peso da mala lhe traz segurança nas mãos trêmulas, a febre voltou a esfriar, o rosto é uma máscara de cera em uma noite muito escura. Carlo atravessou o bloco B, seguindo os passos de Marco se mesclando com a sombra espichada do ex-parceiro.

Antes de entrar pelos corredores dos blocos, Carlo se vira e vê o olho verde de Elise espreitando de um canto entre duas lixeiras, ela o fita com tamanho ódio que Carlo por um momento quase grita de pavor, por trás de seu rosto explodido há um sorriso fino, o sorriso febril de quem sabe muito.
 
III.

O ar nos corredores do bloco de apartamentos parecia tóxico, Carlo sentiu uma fisgada no peito quando subiu o último lance de escadas atrás de Marco, o grande porco não reparou que estava sendo seguido. Carlo esperou ele e a loura entrarem no número 16, trancaram a porta, ele podia ouvir as risadas enfraquecidas por trás da porta. O som daquela euforia desencadeou a febre mais extrema que Carlo já experimentara na vida. Seus ouvidos se fecharam tornando qualquer ruído um mero som indistinguível, as imagens não seguiam ordem, se sobrepunham como se ele sofresse de uma miopia severa, talvez sofresse, Carlo apoiou a mão na testa, tudo girava, quente, o suor brotava e descia em cascata por suas costas.

“Eu estou surtando” ele murmurou, era tarde, logo as primeiras horas do dia iriam afastar a madrugada, e ele só poderia fazer aquilo com a escuridão da noite. Carlo bateu na porta por duas vezes, suas mãos tremiam.

- CARLO!!- ali estava Marco o saudando com um sorriso generoso como nos velhos tempos.

Ele abraçou Carlo e o colocou para dentro, sem nenhum traço de remorso ou vergonha. Carlo se preguntava como alguém conseguia ser tão dissimulado?

- Meu amigo, não te vejo há meses! Fiquei sabendo de Elise, ah Carlo... aqueles filhos da puta – Marco sempre fora espalhafatoso, seus amplos movimentos deixavam Carlo mais nervoso, ele não se moveu, ficou encarando o ex-parceiro até que ele acalmasse sua euforia.

- Acho melhor ela sair – Carlo olhou a acompanhante seminua de Marco. Então, foi dispensada por Marco que se sentou no sofá segurando um copo de Scoth e fitando Carlo com curiosidade. Ele não iria conversar, não estava ali para isso, sabia que Marco o havia traído, fora ele que falou para Baltazar sobre seus planos de sair dos negócios, ir viver com Elise longe de tudo aquilo, foi Marco que a matou e ele sabia as motivações do amigo. Claro, Marco nunca se ofendera por Carlo ser melhor em quase tudo, mas não engoliu o fato de ter o amor de Elise, de tudo que Carlo tinha conquistado, era Elise que Marco cobiçava, ela era o espinho na relação dos dois.

- É triste, Carlo, eu sei que você veio me matar –

Carlo depositou a maleta sobre uma mesa de centro bagunçada, não levantou os olhos para Marco, por um momento achou que se o fizesse não conseguiria mata-lo.

- Você se lembra da Rua dos Lírios, Carlo? – Marco bebia seu Scoth, conformado.

- Isso não vai adiantar agora, não vai adiantar apelar para memórias, Marco.

– Carlo estava colocando luvas de látex, o cheiro do suor de Marco começava a enoja-lo e ele viu algo que nunca vira no rosto do amigo, uma expressão torturante de pânico. Carlo selecionava as lâminas com a seriedade de um profissional, seu rosto não demonstrava a tensão que dominava sua alma. Marco fitou as facas, depositou o copo ao lado do sofá e cruzou as pernas, havia um tremor em sua voz e uma palidez no seu rosto que reafirmavam que ele jamais conseguiria enfrentar Carlo, jamais ousaria.

- Tinha aquela garota de olhos grande e amendoados, Gioconda, era esse o nome! Lembro que você falava sobre os olhos dela o tempo inteiro, quando jogávamos bola com ela eram suas pernas grandes que me enlouqueciam, mas você só sabia falar dos olhos... Eu sempre achei isso muito poético, Carlo, você sempre foi muito sensível, e eu sinto muito por isso –

Carlo segurava uma faca de lâmina cerrada, observava a forma que os olhos de Marco se arregalaram diante o inevitável.

- Depois que me matar vai fazer o que? –

- Vou poder viver...-

Marco deu um risinho detestável, o tipo de sorriso de quem sabe muito.-

- Meu amigo, você só vai terminar de se matar. Não quero aumentar sua tormenta, mas não tive nada a ver com a morte de Elise, isso é o que Baltazar quer que você pense, ele está te reconstruindo e conseguirá isso quando você derramar meu sangue nessa sala –

Carlo olhou por um tempo os tremores em seus dedos, as palavras de Marco não fazia efeito algum, ele estava surdo para elas. A única coisa que existia era a febre, o calor que fazia o corpo todo tremer por dentro. Vibrar.

O primeiro golpe foi na garganta, Marco não resistiu, permaneceu com aquele sorriso astuto na boca enquanto engasgava com o ar que entrava pelo corte. O cheiro de sangue infestou todo apartamento enquanto os primeiros raios do sol entravam pela sala, parecia o trabalho de um amador, Carlo estava sob forte emoção e não se preocupou com a precisão do que fazia, o corpo de Marco estava extirpado e desmembrado ao redor de seus pés e a única sensação que o dominava era uma fraqueza atípica e nauseante.

Carlo se debruçou sobre o sofá e vomitou toda vodca da noite, jogado no meio da carnificina que se tornara sua vida e sentimentos, ele viu o olho castanho opaco e aberto de Marco numa cabeça alheia ao corpo, por uma fração de minuto podia ver a boca se movendo de falando “ E eu sempre achei que você fosse o homem mais esperto do mundo, Carlo.”
 
IV.

Os homens de Baltazar almoçam no centro da cidade, Carlo está sentado entre eles, degustando espaguete e bom vinho. Eles tagarelam sobre as trivialidades dos negócios, Carlo está calado, desde a morte de Elise não há muito o que se falar. Baltazar entra no restaurante, mas não chama atenção alguma, é um senhor baixo de cabelos muito brancos e olhos amarelados como folhas mortas de outono.

“Ele vai comprar sua alma se você deixar” a cabeça decepada de Marco continua assombrando Carlo em cada pensamento do dia como naquele momento que ele vê o chefe chegar e se acomodar na mesa como um deus, “ele vai saber explorar suas emoções, vai te escravizar sem que você perceba, mas eu sei que você é esperto demais para deixar isso acontecer...” Carlo dá um sorriso para Baltazar, o tipo de sorriso de quem sabe muito.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 30/07/2017
Alterado em 30/07/2017
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