Contos de Horror
por Larissa Prado
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O uivo do chacal
 
 
1.
 
 
- É repugnante – Camile enxugava as mãos na calça jeans – você precisa ver, Roy, as paredes estão manchadas e não falo de mofo – ela aproximou o rosto no dele aos cochichos – é bosta! –

Roy precisou conter uma risada para não cuspir o almoço – Banheiros de beira de estrada, querida, acontece – deu a última mordida no imenso hambúrguer enquanto Camile se acomodava em sua cadeira, ela remexeu os restos do seu almoço, tinha uma expressão enojada.

- Falta muito para chegarmos?-

Roy meneou a cabeça negando, mas na verdade não tinha ideia de quanto tempo ainda tinham na estrada até chegar à casa dos pais no interior. Atravessaram mais de três cidades, e ainda parecia estar longe. A morte do pai tinha obrigado o casal a deixar sua a vida suburbana para trás, mas ele não reclamava, gostava da estrada e além do mais tinha que receber parte da graúda herança do velho fazendeiro.

Terminado seu almoço, Roy avisou Camile para que esperasse no estacionamento enquanto ele iria aliviar a bexiga. Ela deixou o restaurante depois de pagar pela comida de ambos e foi espera-lo ao lado da moto tentando fazer da espera algo mais tolerável ao acender mais um cigarro.
O banheiro masculino não parecia tão diferente do feminino, pichações cobriam boa parte das paredes. A maior parte dos mictórios estava destruída, restando apenas dois imundos. Quando Roy terminou de urinar, notou uma mancha cobrir boa parte do interior do mictório, não parecia ser fezes ou qualquer outro tipo de fluído. Ele abaixou e avaliou a mancha, ela mudava de forma, era como um teste de Rorscharch.

- Putz! Isso é sangue – ele falou em voz alta, sua tontura aumentou, precisou se apoiar na parede. Roy, em seu desespero do mal estar perguntou-se se aquele sangue tinha vindo dele. A ideia quase criou forma em uma latência quente que sentiu descer pelas costas, na altura dos rins.

Camile já tinha acabado seu cigarro. Ela encarava a aridez da pradaria à sua frente. O tempo estava seco o que fazia seu sistema respiratório “funcionar mal”, como dizia sua falecida vó. Camile não admitia que os longos anos na companhia do tabaco eram os principais responsáveis. “Não, é só o tempo que muda muito e ataca minhas – ites (rinite, sinusite, bronquite...)” dizia à Roy que como ex-fumante orgulhoso de sua força de vontade adquirira o hábito de tentar levar todos para o paraíso dos “pulmões limpos”.

O ar parado a fazia sentir tontura, estava quente e Camile não sabia por quantos minutos – ou horas – estava ali em pé esperando Roy sair do restaurante. Olhou em volta, o estacionamento parecia mais vazio. A moto esportiva de Roy descansava entre um jipe e um carro popular ostentando um adesivo no vidro traseiro “Eu amo minha esposa!”, apesar do mal-estar e angústia da espera ela conseguiu rir do que lia.

Resolveu ir atrás do marido. A mulher no caixa não o viu passar, os atendentes do balcão também não tinham reparado na saída de Roy. Ela foi até a entrada dos sanitários e chamou por ele duas vezes. Tentou ligar no celular, ele tocou lá dentro, um chamado fraco, um toque assoviado e solitário no eco do banheiro vazio. Camile desligou, resolveu entrar e certificar que ele estava bem. “É só uma dor de barriga”, lembrou das fezes na cabine do sanitário feminino e conseguiu abrir um sorriso do tipo nervoso, aquele que antecede um colapso nervoso.

 
2.
 
 
O barulho incomodava, era como se uma pedra estivesse presa na borracha do pneu. Oscar Salvago parou no acostamento três vezes seguidas, desceu do carro para checar, não havia nada nas rodas, pneus ou o que quer que fosse. Então, por que aquele ruído persistente?

- Não é algo com o motor, querido?- Gertrude parecia cansada, a viagem se tornara mais demorada no ritmo que estavam indo com aquele barulho.
- Não, meu bem, não tem nada de errado, vamos ver se para agora...-

No banco de trás, Matheo caía de sono e era jogado para o lado pelos empurrões da irmã mais velha, Nadia estava com 15 anos e parecia cada dia mais intratável.

- O carro vai explodir! – Matheo gritou em êxtase jogando os braços para cima como se aquilo fosse motivo de festa.

- Não seja imbecil, imbecil! – Nadia revirou os olhos e encostou a testa na janela, foi ela quem viu a fumaça e alertou o pai.

- Pai! Pai! Está saindo fumaça aqui atrás!-

Os olhos dela estavam arregalados, apavorada Nadia se agarrou à poltrona do pai como se a fumaça pudesse mata-la.

Oscar não teve tempo de frear antes de perder os pneus traseiros. Um deles saiu rolando e quicando, o carro bamboleou pela pista. Nadia gritava tão alto que anulou qualquer ruído vindo dos outros passageiros.

Quando estabilizou o carro, Oscar notou a poeira densa pairar no ar e encobrir toda visão. Era como estar preso em uma nuvem. Gertrude fez um movimento brusco para abrir sua porta, mas o marido a impediu.

- Fique quieta, vamos esperar a poeira baixar...- Oscar sabia que estavam fora da pista e aquilo o tranquilizou sobre possíveis batidas.

- Pai – a voz de Matheo era menos que um sussurro – o que vamos fazer?-

- Esperar. Vamos esperar a poeira assentar e ver o que aconteceu com os pneus. Eu vou consertar o que tiver que ser consertado, tudo vai dar certo, campeão...-

Nadia lançou um olhar duvidoso para o pai.

- O que é aquilo? – ela apontou da sua janela, a poeira se dissipava e podiam observar silhuetas ao longe. Em cima de elevações da pradaria, várias sombras se aglomeravam.

- LOBOS – Matheo gritou – São lobos do deserto, pai! Eles só atacam em bandas – o garoto lembrou-se de seus livros adorados de ciências – e comem animais pequenos, eu sou pequeno, papai, eles vão me comer primeiro! – ele se tornara histérico.

Oscar tentava prestar atenção nas sombras e não deu crédito ao desespero do filho, Gertrude se virou no banco e pegou Matheo no colo. Ele estava com 6 anos de idade, mas chorava como um bebê o que irritava muito Oscar, pois sabia que a esposa tinha sua parcela de culpa naquele comportamento descontrolado do filho.

- Nadia, você está com celular? Ligue para a polícia e mande nossa localização –

- Olha! Estão chegando mais lobos! – Gertrude observou e escondeu o rosto de Matheo no ombro para livrá-lo da visão.

- Não são lobos, devem ser apenas cães selvagens assustados com o barulho que o carro fez – Oscar abriu a porta sob os protestos da filha e esposa para que não saísse. Nadia tentava fazer o celular funcionar, mas ali não parecia ter sinal. Poderia descer com o pai e caminhar até a beira da estrada, lá com certeza ele funcionaria. Olhou na direção das sombras, haviam mais de vinte delas, lobos ou cães, ela não sabia, mas o pânico se tornava crescente.

Oscar estava abaixado no pneu traseiro, os bolsos carregados das bombinhas que Matheo ganhara do avô. Era da cidade dele que voltavam, a viagem que durava 3 horas apenas se tornara infinda. Oscar sentia-se esgotado, as lamúrias do filho, a música country baixa que vinha do rádio tudo estava o deixando à flor da pele. Era melhor estar de fora com os chacais, melhor do que voltar para dentro do carro e encarar a família desamparada. Chacais? Ele se perguntou, por um momento, como sabia que eram chacais? Não sabia, apenas tinha uma certeza tão clara quanto o sol daquele meio-dia.

Eles se aproximaram o suficiente para que pudessem ver suas formas, olhos curiosos e focinhos farejadores à distância. Gerturde sentia gotículas de suor frio brotar na sua testa enquanto balançava Matheo, ele afundou o rosto entre os seios da mãe e sufocava a histeria. Nadia observava o pai temendo que a qualquer momento os animais saltassem sobre ele. Oscar levantou e olhou em volta, sua última preocupação eram os chacais. Os pneus tinham saltado das rodas, simplesmente, como se tivessem sido arrancados. Não havia o que fazer além de esperar por ajuda.

- Conseguiu? Falou com a polícia?- ele colocou a cabeça dentro do carro e encarou a filha.

- Pai, seus olhos... – ela se encolheu no banco – o que foi?-

Gertrude observou a vermelhidão nos olhos de Oscar, pareciam duas bolas de fogo.

- QUE DIABOS, me dá isso aqui – ele arrancou o celular da mão da filha com tamanha violência que no interior do carro ouviu-se um “crack” de osso se partindo, o punho de Nadia estava virado ao contrário. Matheo levantou o rosto e encarou a fúria do pai pela janela, seus gritos voltaram a ecoar pela pradaria, Gertrude estava em choque e a princípio não conseguiu se mover. Nadia ainda estava chocada demais para reagir e apenas encarava o braço ao contrário sem conseguir reorientar os últimos movimentos que o pai fizera.
Eles avançaram com calma, descendo as elevações, muitas patas ritimadas, Oscar olhou em volta, a mente sendo dominada por um tipo de força descomunal. Vieram os uivos, primeiro um depois outro, no fim era um conjunto desafinado de uivos eufóricos ecoando pela pradaria árida.

 
3.
 
 
Quando Camile deixou o banheiro não havia mais ninguém no restaurante. A sua memória voltava na imagem do corpo de Roy, implodido na cabine, carne e dejetos por todo lugar como personagens em desenhos animados ao engolirem uma bomba-relógio. Tentou conter os nervos, com a chave da moto pendendo numa das mãos ela seguiu para o estacionamento e pegou a estrada. Não olhou para trás, não ligou para ninguém porque não havia sinal. Simplesmente foi embora.

Camile acelerou o máximo que a moto permitia e sentiu o vento bem-vindo no rosto. Iria encontrar um lugar com telefone, alguma ajuda, não existia ninguém no restaurante quando saiu, ninguém para pedir ajuda. Para onde tinham ido todos? As perguntas se formavam na sua cabeça como ondas que se sobrepõe sem parar. Em determinado momento percebeu que as lágrimas não estavam deixando que ela enxergasse a estrada, encostou a moto para respirar fundo e ouviu os uivos próximos.

Eram arrepiantes, uivos solitários e esparsos. Camile tirou o capacete e olhou adiante, um véu de fumaça se elevava no céu onde um carro parecia abandonado. Ela ligou a moto e arriscou aproximar alguns metros, os uivos cessaram e ela mal percebeu. Caminhou para fora da estrada, um choro distante chamava sua atenção. “Choro de uma criança”, pensou com pena. A primeira coisa que passou por sua mente, a coisa mais racional, era uma cena de acidente. Camile tentou mais uma vez usar o telefone, mas sequer ligava.

- Olá – ela chamou alto enquanto aproximava do carro. O único ruído que havia era do vento, nem mesmo o choro existia mais.

- Eu devo estar louca, é isso, enlouqueci naquele restaurante, não é possível... –

Veio uma dor forte por trás como se um caminhão decepasse suas pernas, Camile caiu de joelhos quando Oscar acertou-a nas pernas com o macaco de trocar pneus. E então, os uivos recomeçaram e ela ainda no atordoamento da dor podia ver as silhuetas se aproximando à distância.

- EU FALEI e você não me escuta. – Oscar dizia ao léu enquanto investia outra vez contras as pernas de Camile que tentava se arrastar no chão, os olhos dele eram duas chamas diabólicas, como olhos de chacais à noite.

- Há um sol que nunca apaga – ele a puxou pelos cabelos, o rosto dela se voltou para uma claridade insuportável no céu – há um céu que nunca fica escuro, eu não posso com choro. –

Camile sentia as lágrimas escorrendo pelo rosto, suas mãos em um ato involuntário tentavam afastar os puxões que ele dava com força. Oscar arrastou-a pela pradaria, seus joelhos latejavam, ela tinha certeza que as pernas estavam ao contrário, esfareladas, a dor era tanta que só conseguia pensar nela e em – Roy no banheiro – algo tinha saído do seu marido, algo tinha simplesmente saído de dentro dele. “Não seja estúpida” Camile ainda tentava pensar enquanto era arrastada pelo solo quente e áspero da pradaria “não é um filme de horror, coisas não saem de pessoas, você está sonhando...” ela gritou o mais alto que conseguiu, e eles voltaram a uivar.
 
 

 
4.
 
 
Era noite quando Camile abriu os olhos, o corpo todo doía, não sabia localizar onde era pior. Os braços estavam amarrados atrás das costas, sua garganta estava sufocada com uma bola de meia suja e fétida. Ele cantarolava sentado atrás de uma fogueira que tinha chamas tão altas que se misturavam ao céu. Oscar encarava a mulher com os mesmos olhos insanos, completamente negros. Ao seu lado o corpo de Gertrude servia de banquete para alguns chacais que disputavam as entranhas estouradas. O pequeno Matheo estava em choque do outro lado da fogueira, Camile observou o menino e notou que ele poderia estar morto não fosse o tímido movimento do seu diafragma em respirar, estava em choque.

- Eu não queria fazer isso, sabe?  - Oscar levantou, os chacais rosnavam se deliciando com a carne da esposa. – Toda essa bagunça. Tudo é uma bagunça o tempo todo – ele gesticulava enquanto se colocava de pé em pernas compridas e fortes.

Camile observou o rosto dele enquanto dizia aquela frase, era algo que Roy sempre estava dizendo “Tudo é uma bagunça o tempo todo”, como aquele lunático sabia disso? Ela desistira de tentar achar algum sentido em tudo, tentou mover os punhos e se livrar das amarras, mas era fita adesiva das fortes, o máximo que conseguiu foi ferir a pele.

- Vocês vêm e vão pela estrada e nunca sabem onde querem chegar, apenas estão de passagem, certo? – ele estava próximo dela, ela podia sentir seu fedor de suor e sangue. – Todos que passam precisam pagar um pedágio, entende?  - ele tocou seu queixo, Camile estremeceu de pânico, o corpo parecia tremer de dentro pra fora e o frio que fazia ali congelava até o pensamento.

- O que aconteceu com Roy? – ele sussurrou para ela – Estou aqui, amor, tudo é uma bagunça o tempo todo. – ele sorriu, Camile percebeu que ele retirava do bolso da calça uma falange mastigada, ainda tinha a marca de um anel no dedo. Ela gritou, a meia sufocando sua garganta, o ar difícil, asfixiante. Era o dedo de Nadia que ele sugava como um animal deliciando-se da sua presa. Os uivos recomeçaram, mas Oscar permaneceu parado olhando para Camile, um olhar ausente, como se ele tivesse se tornado uma estátua à meia-noite.

Enquanto os uivos se prolongaram o homem permaneceu estático, Camile investiu nas amarras das mãos em puro desespero para se livrar daquilo. Tentou chamar Matheo, o menino não conseguia se mover. Oscar permaneceu parado de olhos vazios enquanto ela conseguia se livrar das fitas dos punhos. Camile se arrastou até Matheo, não conseguia se manter de pé com os joelhos em frangalhos.

- Preciso que você volte a si, rapaz! – ela murmurou para Matheo, ele apenas a fitou, empalidecido e mudo – Por favor, precisamos sair daqui, por favor me ajude a andar. A minha moto, ela...- o menino a fitou, a mesma ausência que havia nos olhos de Oscar estava ali em seu rosto. Camile escutou um baque atrás de si, o corpo de Oscar tinha sido reduzido a nada menos que uma massa de entranhas e fezes. Matheo tocou o ombro da garota, os uivos voltavam a ecoar pela pradaria.

- Tudo vai ficar bem, moça. – ele abriu um sorriso estranho, era como o sorriso de um cão.  
 
 
 
 
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 14/07/2017
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