Contos de Horror
por Larissa Prado
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 Quem é o anfitrião?
 
Para voltarmos à mocidade,
basta-nos repetir as nossas loucuras.
(Oscar Wilde in "O retrato de Dorian Gray")
 
O homem que serve a última taça de vinho observa sua convidada com olhos cheios de volúpia. No amplo apartamento – que fica na cobertura do bairro mais luxuoso da cidade – a voz de Billie Holiday embala os olhares que o casal trocam, “I’m a fool to want you... to want a love that can’t be true”. A mulher está com o rosto ruborizado, efeito que a bebida lhe causa. Ela sorri e sente-se flutuar para longe como se a cabeça estivesse desprendendo do pescoço e pairando pelo lugar dançando ao som da música, o olhar dele é tão poderoso que faz aquilo.

A noite parece perfeita de tal forma que a convidada reza para que nunca termine, que se estenda enquanto durar a eternidade daquele voo rasante que sua mente está dando no apartamento. Nenhum vinho lhe trouxera aquela leveza antes, nenhuma companhia lhe deixara tão ausente de si mesma e entregue. E ela tinha uma longa experiência em fornecer companhia para homens solitários.

O anfitrião observa os lábios dela se abrirem para o último gole da noite. O vinho desce suave, a mulher mal respira até secar a taça, quer impressioná-lo e ele bem sabe:

- Você gosta mesmo de vinho, querida – seu sorriso é atordoante, não é bonito, apenas excêntrico.

- Ah, gosto e muito, mas só das melhores safras, você tem tudo de bom aqui – ela está excitada, quer que ele se levante e a tome em seus braços, nunca desejou tanto alguém como aquele homem. Se existisse algo perfeito no mundo, ela sabia sem sombra de dúvida, estava representado no conjunto do rosto daquele homem:

- Você quer outra garrafa? –

- Não. Eu quero você...-

Ele sorriu satisfeito com a respota, orgulhoso como apenas professores se sentem dos melhores alunos:

-Tenha paciência, aprecie a dança antes do ato –

- Dança? – ela cruzou longas pernas que se revelaram através da fenda do vestido que mostrava mais do que deveria, era seu trabalho seduzir, mas naquele momento, era ela quem estava sendo embalada, levada e seduzida.

- Sim, a dança da conquista, o jogo, as táticas implícitas que levam ao saboroso ato final. Aprecie, nunca sabemos quando vamos ter uma dança tão maravilhosa como essa de novo –

Ele se ergueu do seu lugar, um homem extremamente alto, esguio, se locomovendo com o silêncio de uma serpente ao rastejar. Os cabelos lustrosos e penteados davam a ele um ar de Clark Gable, um galã saído dos melhores filmes em preto e branco, para ela parecia mais um deus, tinha luz própria emanando da sua pele pálida na penumbra à luz de velas da sala.

- Nunca fui contratada por alguém como você – seus olhinhos de corça deslumbrada observavam seus mínimos movimentos, ele foi até ela e estendeu a mão. A convidada sentiu tudo girar ao se levantar apoiando-se nele que depositava um beijo nas costas de sua delicada mão:

- Eu nunca estive com uma mulher como você. Não sei se tem noção da própria beleza, é algo estonteante, deixa qualquer pessoa em completo deslumbramento, Esther. – ela sentiu o rosto ruborizar e riu envergonhada, parecia uma garotinha trajando as roupas da mãe.

A voz de Holiday foi substituída por de Nina Simone que enchia o lugar com seu timbre potente “You don’t Know what love is ‘til you’ve learned the meaning of the blues...”

Estavam no quarto, a cama ocupava o centro, maior do que tudo que ela já vira em sua vida como acompanhante de luxo. A mulher foi guiada até a cama com calma e leveza.

- Você se incomoda se eu buscar minha câmera, tenho hábitos um pouco peculiares. – ela deu de ombros concordando.

Antes de sair, ele tocou o queixo dela e se aproximou do pescoço para sentir o cheiro que ela exalava: perfume caro, mas de gosto duvidoso, ele abriu o sorriso encantador de novo mesmo que tivesse detestado o aroma, sabia esconder suas impressões, o rosto exprimia apenas luxúria. Ela cruzou novamente as pernas, revelando suas coxas bronzeadas, aquele truque era velho e gasto, mas ele não se importava, gostava de vê-las se esforçando em parecerem sedutoras, interessantes, donas de si.

Deixou o quarto e Esther ali fitando o espelho em frente à cama, ela ajeitava alguns fios do longuíssimo cabelo dourado antinatural. Ele demorou o suficiente para ela se levantar e percorrer o quarto, xeretando aqui e ali. Encontrou na cabeceira um par de olhos de resina, era bizarros por serem tão realistas. Pegou aquele enfeito nas mãos, eram perfeitos, um par de olhos azuis, sentiu-se incomodada e depositou eles novamente ali, mas virados de costas para a cama. Era realmente um homem excêntrico e isso a deixava mais animada.
 
Esther ouviu a porta do closet fechar e ele retornou, arrumou o equipamento posicionado ao lado da cama, demorou para encontrar o ângulo perfeito solicitando para que ela trocasse de lugar na cama várias vezes. A convidada obedecia cada coordenada com visível euforia. Não sabia se era o efeito ainda da bebida ou se era a presença dele, a voz, a forma que pedia as coisas com tamanha gentileza que as ordens pareciam súplicas, pedidos gentis.

O homem se aproximou da cama, ainda trajava sua roupa social, a camisa parecia amarrotada do esforço em preparar o equipamento de filmagem.
- Pode se despir – ele permaneceu ao lado da cama, em pé e com as mãos dentro dos bolsos da calça.

Esther lançou seu melhor olhar de felino predador ao deixar o vestido longo deslizar pelo corpo esbelto, impecavelmente perfeito em todas suas medidas, ele não podia negar que era uma das melhores acompanhantes que arranjara. Deu um sorriso satisfeito enquanto ela por conta própria engatinhava pela cama em sua direção, os fartos seios – também antinaturais – quase roçando nos lençóis brancos e as nádegas para cima ainda cobertas por um fio-dental negro como a meia-calça. Ela tomou sua mão, tirou-a do bolso e começou a beijá-la, havia afeição naquele toque, ele quase sentiu piedade dela, seus olhos faiscavam, mas ele podia ver por trás daquele olhar um véu de desespero, de angústia e carência extremos. Tocou o queixo dela, o pescoço e envolveu a nuca:

- Esther – ela gemeu de olhos fechados, o corpo contorcendo em prazer extático – eu nunca fui um bom dançarino, sabe... –

Ela abriu os olhos o suficiente para ver o rosto dele e a expressão que encontrou ali a fez tentar afastar do toque, ele a segurou com força pelos cabelos. O rosto antes imaculado em gentileza e sorrisos fáceis era apenas uma máscara fria, os olhos dele eram dois ocos cruéis.

- O que é isso?- Esther sentia que algo estava errado na noite que parecia perfeita, algo estava absurdamente errado, seu coração descompassado a deixou sem fôlego por alguns minutos.

Do interior do closet ela escutou passos apressados, não conseguiu virar o rosto por conta da pressão que ele fazia em seus cabelos, mas através do reflexo do espelho ela viu uma estranha figura se aproximar em pé sobre cascos, o corpo musculoso parecia de um equino e a cabeça... Esther abafou o grito, os dois pareciam trocar algumas palavras em um idioma ininteligível para ela.

- O que é isso?Pelo amor de Deus, me solta – o rímel escorreu pelo rosto deixando um rastro de choro negro.

A criatura bufou, e falava em uma voz máscula, mas não parecia saber o idioma que os seres humanos falavam, parecia um disco ao contrário ou furado. Ela se debatia nas mãos do seu anfitrião.

- Você tem os olhos mais doces que já vi – ele sussurrou em seu ouvido antes de depositar um beijo em seu rosto molhado.

O homem a entregou ao domínio da criatura que aguardava no closet, a filmadora ainda piscava sua luz vermelha avisando que era testemunha ocular do que acontecia ali e que grava tudo sem deixar passar nenhum take. O homem tirou o terno e o jogou sobre uma poltrona ao lado da cama, os gritos de Esther ecoaram pelo quarto enquanto a criatura em pernas de bode montava e a violentava com tamanho vigor que os lençóis brancos recebiam respingos avermelhados do sangue que escorria entre suas coxas, os gritos dela foram abafados pelo relinchar da besta.

O anfitrião sentou-se, aguardando com paciência, assistindo sem qualquer expressão em seu rosto bonito e impecável, da sala vinha  som da voz suave de Sinatra: “Fairy tales can come true it can happen to you if you're young at heart for it's hard you will find to be narrow of mind if you're young at heart...”

Pouco a pouco, ela se entregou e os gritos cessaram, a criatura ainda fazia seus movimentos orgásticos sobre o corpo desfalecido da mulher, isso duraria muito tempo ainda, o homem tinha se servido de uma dose de uísque enquanto alternava sua atenção entre a criatura sobre a convidada e seu reflexo no espelho em frente à cama. A imagem de um velho decrépito, horripilante e cego, os olhos leitosos e sem vida e a boca murcha sugada para dentro da cavidade pela falta de dentes, aquilo logo acabaria, aquela figura decadente iria se recompor porque o que importava era que ele ainda conservava a juventude no coração e suas boas relações com o inferno.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 02/07/2017
Alterado em 02/07/2017
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