Textos


O sopro da besta
 
 
Porque era verão e estávamos animados com as perspectivas dos dias longe da agitação da cidade, dias desfrutando a natureza. Enquanto Marcus dirigia pela autoestrada em direção à fazenda da sua família, eu observava as belas paisagens que se intercalavam pela janela. O dia estava quente, o sol reluzindo num céu azul e limpinho só denunciava que nada poderia dar errado. Nada poderia dar errado em dias ensolarados como aquele.

Paramos pela segunda vez em um posto, aproveitamos para lanchar e usarmos o banheiro. Conhecia Marcus há mais de 10 anos, não estávamos juntos como um casal, ele era um dos meus melhores amigos e enfrentava a desgastante experiência de um divórcio. Seu casamento vinha respirando com dificuldade nos últimos três anos e eu acompanhei cada queixa, cada rusga que ele e Bianca vivenciavam. Tentei da melhor maneira fazê-lo prosseguir na relação porque sabia que não era a falta de amor que azedara a relação, era a falta de outras coisas que os dois nunca chegaram a descobrir o que era.

Eu estava fumando um cigarro do lado de fora do simpático restaurante quando vi um carro parar e dele descer um homenzarrão. Ele devia ter uns 2 metros de altura e o corpo era pesado, não digo que fosse gordo, e sim, musculoso, as mãos eram gigantes. Segurei um riso, a cena dele deixando o automóvel para trás era cômica, o carro parecia pequeno demais para comportar aquela massa de carne toda. Marcus saiu do restaurante e se juntou a mim acendendo seu cigarro. Comentei com ele sobre o recém-chegado, sua estatura chamava a atenção de qualquer um. Marcus deu um sorriso relaxado e nada comentou do estranho sujeito que logo desapareceu no interior do restaurante.

- Ela me ligou umas duas vezes, mas estava dirigindo. Então, enviou mensagens desaforadas, tudo tem que ser do seu jeito... – era Bianca novamente, como sempre foi nos últimos três anos.

Balancei a cabeça recriminando a atitude dela – Ah Marcus, relaxa, logo vai se ver livre dessa situação. –

Uma agitação me fez olhar para dentro do restaurante, notei vozes falando alto ali, as pessoas atrás do balcão corriam assustadas na direção dos banheiros. Observei por pura curiosidade e troquei um olhar desconfiado com Marcus.

- Que diabos tá acontecendo? – ele perguntou jogando o que restou do cigarro no chão.

Antes que pudéssemos entender o que estava acontecendo uma das atendentes saiu correndo pela porta e gritando “Socorro!”. Marcus e eu trocamos um olhar de puro assombro, ele correu na direção do restaurante, mas eu o segurei antes que pudesse entrar.

- Vamos embora! Você enlouqueceu? Vamos embora e chamamos a polícia!-

Marcus puxou o braço e ignorou minha súplica, entrou correndo no restaurante. De onde estava pude ver a imensa figura do homenzarrão se locomovendo com uma calma surpreendente enquanto erguia algo acima da cabeça.

Forcei os olhos para tentar identificar o que ele fazia, mas não consegui dizer, parecia esmagar algo no chão, as prateleiras da lojinha que ficava próxima aos caixas bloqueavam minha visão. Algumas pessoas conseguiram sair correndo, em uma delas – um homem franzino – notei respingos de sangue em sua roupa.

Perdi Marcus de vista, alguns funcionários do posto também correram para dentro do restaurante. Eu não sabia o que fazer, de repente tudo se tornou uma sequência bizarra de eventos inexplicáveis. Minha cabeça girava como se tivesse acabado de sair de um brinquedo giratório. Corri na direção do carro, o estacionamento estava quase vazio não fosse por uma van ali parada e um carro popular ao lado do nosso. Haviam poucas pessoas no restaurante naquele horário, mas ainda assim eu pude escutar uma série de gritos desesperados. Não ousei aproximar do restaurante, Marcus estava com a chave do carro o que me fazia esperar do lado de fora circulando o veículo como uma lunática. Não percebi quando foi que as lágrimas começaram a correr por meu rosto, o pânico tomava conta de cada músculo do meu corpo e tinha se alastrado por todos meus pensamentos racionais.

Voltei para a frente do restaurante, um silêncio baixou no lugar. Escutei apenas um rádio ligado ao longe, não sabia ao certo de onde vinha a voz do locutor, parecia vir de dentro da minha cabeça. Tudo estava quieto, nada de Marcus ou qualquer outra pessoa. O restaurante estava vazio, os ventiladores de teto giravam preguiçosos em sua solidão. Minhas pernas tremiam a ponto de me fazer abaixar algumas vezes para tentar controla-las, os nervos à flor da pele dificultavam meu raciocínio.

- MARCUS – tomei fôlego e gritei na direção do restaurante, não iria entrar ali, nunca, jamais. Respingos de sangue decoravam parte das estufas com salgados como numa tela abstrata.

Tateei meus bolsos procurando o celular, àquela altura não sabia onde tinha deixado a minha bolsa. “Dentro do carro...” lembrei e olhei para o automóvel, fui até ele de novo. Espiei pela janela do passageiro, minha bolsa descansava no meu banco, aberta. Com a testa encostada no vidro do carro senti minhas forças se esvaindo junto com as lágrimas.

- Perdeu algo? – a voz veio de trás de mim.

Pelo reflexo do vidro vi que era Marcus, ele estava de pé atrás de mim, o rosto salpicado do que parecia ser sangue.

- Marcus!! – segurei seus ombros – Você está bem? – ele tinha uma expressão ausente, seus olhos me olhavam, mas pareciam mortos.

- Claro, vamos! –

Ele pegou a chave do bolso da calça e tirou o alarme do carro. Olhei na direção do restaurante, o homenzarrão não tinha saído, era como se ele nunca tivesse estado ali. Sem questionar e desesperada para sair dali entrei no carro, todo meu corpo tremia.

- O que foi isso?  O que aconteceu lá? – Marcus dava ré no carro sem me dar ouvidos.

Ele voltou para autoestrada em total silêncio. Observei seu rosto inexpressivo e notei que não era sangue salpicado em seu rosto, era algo quase translúcido, esbranquiçado.

- Marcus, o que aconteceu? – gritei e o sacudi, mas ele permaneceu impassível.

Uma observação mais meticulosa me fez perceber que do seu ouvido escorria um líquido tão amarelado e viscoso quanto as gotículas que pintavam seu rosto na região do nariz e boca, sua barba malfeita estava coberta daquele tipo de coisa. Senti calafrios percorrerem meu corpo, ele estava indo a toda velocidade, o carro rangia quase não suportando.

- Marcus, pelo amor de Deus... – segurei no painel do carro, mesmo com cinto de segurança a velocidade era tanta que jogava meu corpo para todo lado a cada curva que ele fazia. Havia um brilho nos olhos apagados de Marcus, algo insano e desumano, algo divertido.

- Elisa, eu nunca me senti tão... cheio de energia na vida! – seguiu-se uma risada ensandecida.

Olhei pela janela, as paisagens alternavam sem a beleza de outrora, as árvores e campos pareciam retorcidos, de alguma forma desfocados, fora da realidade. Cobri o rosto para abafar o choro que voltou a explodir, chorava e chorava, Marcus voava com o carro e de vez em quando soltava sua risada de cachorro louco. Olhei para ele algumas vezes, entre as lágrimas não conseguia mais definir seu rosto, ele se tornara tortuoso, julguei que era meu choro, mas à medida que me acalmei notei que seu rosto derretia como se a pele fosse sugada por uma aspirador.

Gritei o mais alto que pude, no pequeno espaço do carro o grito retumbou e vibrou as janelas me fazendo engolir a minha própria voz desesperada pelos ouvidos. Um zunido tomou conta da minha mente como se ela fosse um rádio fora da estação. O rosto de Marcus continuava derretendo, lá fora o sol a pino iluminava a massa de pele murcha que se formava ao redor do pescoço. A barba volumosa formava um bolo grotesco com a pele do rosto, aquele homem era o que descera no posto, aquele era o rosto do homenzarrão.

Encolhida sobre a porta eu tentei abrir, se caísse do carro provavelmente morreria na velocidade que ele dirigia, mas isso era melhor do que estar ao lado daquela figura diabólica. Comecei a rezar em sussurros que se tornaram gritos desesperados. Ele apenas ria e ria, seu riso de cachorro raivoso.

O rádio ligou por vontade própria, ecoava uma voz potente de mulher, misturada às minhas preces ela gritava
“But I'm just a soul whose intentions are good! Oh, Lord, please, don't let me be misunderstood...”. Perdi os sentidos em um desmaio, minha cabeça parecia pressionada por todas lados, o estômago rodopiava diante a pestilência que vinha daquele homem gigante, seu corpo não era o de Marcus, mas trajava suas roupas que ficaram apertadas para seu tamanho. Não vi nada depois que o rádio ligou e insistiu em ecoar estrondosamente a música que se repetia.

Quando abri os olhos foi para um sol no centro de um céu azul, seus raios me cegaram por alguns minutos. Sentei-me no meio de um campo, o mato pinicava meu corpo, minha cabeça latejava. Levei a mão até meu rosto temendo que ele estivesse derretido, as últimas lembranças de Marcus se liquefazendo na figura do homenzarrão do posto voltavam a dominar meus pensamentos. Olhei em volta, o coração saltitando em pânico, não havia ninguém ali, nada do carro, nada da figura estranha. Meu corpo fora abandonado, mas não parecia ter sofrido nada. Chequei minha cabeça onde a latência era insuportável, acima da nuca, nada de ferimentos. Ouvi ao longe o ruído de cachorros selvagens uivando, um frio subiu por minha espinha. Precisava sair dali o mais rápido possível.

Levantei com muito esforço, minhas pernas pareciam atrofiadas, arrastei os pés pelo descampada. Escutava o som dos carros passando na autoestrada, mas não conseguia ver em que direção deveria encontra-la. Tudo era apenas um grande campo deserto ao meu redor, árvores retorcidas e vegetação estorricada dos longos períodos de seca. Caminhei alguns metros e cai de joelhos, minha cabeça rodopiava me tirando qualquer orientação.

Era como cair em espaços espiralados, senti meu corpo despencando, mas ele permanecia apenas ajoelhado. Os uivos dos cães se tornaram mais próximos e frequentes, pouco a pouco notei estar cercada por vários deles que me encaravam a uma distância curta. Temerosa apanhei algumas pedrinhas e joguei na direção dos bichos a fim de espantá-los, eles permaneceram imóveis, andando em círculos à minha volta. Entre elas notei uma figura se aproximar como se não passasse de uma projeção, um holograma desfocado. O homenzarrão ficou parado entre os cães selvagens que foram brindá-lo como seu dono.

A música que tocava no rádio quando desmaiei ecoou de algum lugar ao longe, virei o rosto na direção do som e vi a silhueta do carro abandonado. Reuni a força que me restava e corri desajeitada na sua direção, era tarde demais. Uma brisa atípica soprou no ar estagnado, gotículas de suor frio cobriram todo meu rosto, a brisa trazia um sussurro, um sopro que não passava de uma risada: o grunhido de cachorro louco. Voltei a cair sobre os joelhos esfolados, a cabeça tão pesada que fazia o queixo encostar no tórax.

Recordei-me da vez que quase morri afogada na infância, a água da piscina entrara por minhas narinas, boca, ouvidos, quando papai conseguiu me reanimar ela escorreu quente por todos orifícios faciais, era essa sensação que sentia: um líquido escorria por meus ouvidos, nariz e boca como água de piscina aquecida, eu me senti afogando mesmo estando ajoelhada em um campo seco, afogando dentro de mim mesma, perdendo-me na massa amorfa que o corpo gigante e “moluscoso” daquele estranho.

Alcancei o carro andando em pernas fortes, todo meu corpo tremulava tomando forma, crescendo, espichando. Senti toda extensão de pele repuxar para todos lados, ainda era eu mesma, Elisa, mas me sentia cada vez mais afogada no líquido translúcido que bloqueava todos meus pensamentos e respiração. Era um embate contra o homenzarrão que prosseguia rindo e rindo em minha mente.

Entrei no carro, a música retumbava doce, podia escutar com clareza e era gostosa de se ouvir
“Baby, do you understand me now sometimes I feel a little mad. Well don't you know that no-one alive can always be an angel…” entrei na autoestrada e pisei fundo. Uma brisa soprava no interior estagnado do carro, ela trazia a risada do cachorro louco misturando-a à bela melodia emitida pelo rádio assim como sentia mais e mais minha alma mesclada ao corpanzil do diabólico desconhecido.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 28/06/2017
Alterado em 28/06/2017
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