Textos


A Presença
 
As ruas pareciam labirintos. Era fácil sentir-se perdido, muito fácil sentir que não existiam caminhos para serem seguidos. A cidade não passava de um palco onde os cenários se intercalavam para sustentar enredos monótonos e repetitivos.

Samuel passou a maior parte da vida nas ruas, arrastando os pés por concreto, pedindo trocados nos semáforos, sentindo-se perdido a cada virada de esquina. Durante a infância a realidade que o abarcava parecia menos cinza, sentia os infortúnios da vida que levava sem ter a consciência da sua intensidade, aos 18 anos as coisas pareciam piores, havia o cansaço. Começou a usar drogas aos 10 anos, fazendo parte de todo tipo de esquema que envolvesse a distribuição do que usava pelos becos fétidos do submundo de uma cidade grande que engolia almas em bueiros dentados.

Samuel não sabia ainda que aquele submundo familiar, a sua realidade, poderia abrigar níveis ainda mais baixos, experiências ainda mais enlouquecedoras. O garoto descobriu que todas desgraças que o definiam enquanto morador de rua, pedinte, inválido socialmente, viciado, escória da escória humana, dejeto existencial foram muito pequenas comparadas ao mundo que se viu perdido numa noite fria de outubro.

- Você deve ter enlouquecido de vez – dizia um de seus parceiros de trambiques. – Enganar o Zero assim...-

Samuel deu de ombros, incapacitado o suficiente para não conseguir levantar o corpo da calçada. Zero era o novo patrão que comandava aquelas ruas.

- Não quero ter nada a ver com isso, ele queria a entrega para ontem e você usou tudo?Assim... tudo duma vez ? –

Samuel olhava para ele que gesticulava à sua frente, os olhos estavam perdidos como um olhar de lunático. O homem se afastou, Samuel viu se erguer de suas costas uma estranha forma humana vaporizada.

Não era seu primeiro delírio entorpecido, estava acostumado, porém, naquele momento Samuel sentiu algo inédito, nunca antes vivenciara algo parecido. A forma enegrecida deixou o corpo do homem que caiu alguns metros convulsionando até a morte. Samuel viu ela avançar pela calçada, deslizando como uma mancha de petróleo. Ele não conseguiu mover nenhum músculo, a única coisa que se movia em seu corpo era o coração descompassado prestes a explodir. Samuel tentou virar o rosto, fechar os olhos, mas sentiu uma presença mais poderosa que toda fome que já sentira, mais arrebatadora que toda sua revolta.

Aquela força o mantinha preso à mãos invisíveis no canto de uma esquina onde ruas se deslocavam como hologramas defeituosos e os transeuntes possuíam rostos de bestas enlouquecidas, babuínos com presas à mostra. Samuel conseguiu gritar e se livrar daquela força, um ombro deslocado e um tornozelo contorcido foram as consequências da luta travada. Ele correu cambaleando por vielas e por avenidas onde estranhas formas vaporizadas deixavam os corpos das bestas-feras levando embora a vida de seus corpos em convulsões horríveis. Rastros de morte e indivíduos de fumaça o perseguiam.

O garoto corria com as mãos pressionadas contra o peito como se quisesse conter o coração. Eles continuavam a perseguição. Samuel parou sua fuga desejaitada ao se deparar com um alto muro de um beco sem saída. As palavras do parceiro surgiram pichadas nos tijolos como se feitas às pressas pelas mãos invisíveis “Você usou tudo?”, o que tinha usado? Não sabia. Zero era o apelido do estranho para quem fazia uns serviços, mas ele nunca encontrou o homem pessoalmente. Conhecia sua fama de impiedades e de manter seus costumes religiosos obscuros, mas aquilo não parecia coisa de Zero ou dos entorpecentes que ele distribuía.

Samuel sentiu a presença de novo, incapacitando-o de se mover. Lembrou-se de quando era menino e tinha a mãe por perto, ela o mantinha protegido enquanto era viva, não passava de uma prostituta viciada, mas ele sentia que a amava mais ainda em noites frias como aquela quando ela o embalava com sua voz rouca de tabaco e exaustão. Por que se lembrava dela naquele momento? Sua memória tinha se apagado há anos.

“Pessoas como você não tem memórias” a voz vinha de algum lugar no beco escuro. Samuel se virou para a miríade de rostos vaporizados flutuantes e suas expressões de bestas-feras zombeteiras e sarcásticas, elas riam com suas presas de babuínos e o oprimiam cutucando os lugares mais escuros da mente fragilizada. A presença não era uma das máscaras que o cercava em um balé escabroso, não, aquela força o mantinha paralisado, sugando cada parte de sua energia até o esgotamento, murchado sua pele, bebendo cada gota de fluído do seu corpo. Os rostos observavam maravilhados aquela presença tomar para si a vitalidade de Samuel que com um sorriso demente se lembrava do cheiro de bolo que uma mãe loura e delicada lhe preparava, uma mãe com um sorriso de margarina que o beijava e lhe dava presentes de natal. Lembranças projetas, memórias de outdoors.

Samuel deixou o beco pela manhã. A cidade acordava em seu rugido de gigante furioso: carros de som passavam aos berros, pessoas apressadas aglomeradas com suas expressões bestiais e devoradoras, lojas e suas músicas chamativas, cartazes, trabalhadores nas avenidas consertado o concreto, as ruas se sobrepondo como hologramas desfocados, a cidade cuspia monóxido de carbono manchando o céu de preto e escurecendo o sol.

Ele não passava de um velho murcho que se arrastava dentro de uma bermuda de rapaz, olhando os outdoors em uma contemplação débil e sonhadora, Samuel podia visualizar aquela presença atrás de si cada vez que se lembrava de quem realmente fora, uma sombra cinzenta cercada de rostos vaporizados.

Por onde andava as bestas-feras continuavam caindo mortas em convulsões ritmadas sob o efeito dominó da morte que as formas enfumaçadas causavam ao se desligarem dos corpos humanos. Aquilo nada tinha a ver com os delírios entorpecidos, Samuel viveu o resto de sua vida indigente mergulhado no submundo do submundo onde o que era feio se tornava, sobrenaturalmente, ainda mais feio, o que lhe salvava da presença eram as memórias de outdoors.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 26/06/2017
Alterado em 26/06/2017
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