O absurdo
por Larissa Prado
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A Presença

 
As ruas eram labirínticas tornando fácil sentir-se perdido, sentir que não existiam caminhos a serem seguidos. A cidade não passava de um palco onde os cenários se intercalavam para figurar enredos monótonos e repetitivos. Samuel passou a maior parte da vida nas ruas pedindo trocados nos semáforos, sentindo-se fora de si mesmo, sem espaço.

Durante sua infância a realidade que o abarcava parecia menos cinza. Apesar dos infortúnios da vida não tinha consciência do que o cercava. A ignorância era uma dádiva. Aos 18 anos as coisas pioraram, instalou-se o cansaço. Abriu os olhos para a vida na qual fora jogado. Começou a usar drogas aos 15, fazendo parte de todo tipo de esquema que envolvesse a distribuição do que usava pelos becos fétidos do submundo de uma cidade grande que engolia almas em bueiros dentados. O menino não sabia que aquele submundo abrigava níveis ainda mais baixos. Experiências ainda mais enlouquecedoras. Descobriu que todas desgraças as quais o definiam como morador de rua, pedinte, viciado, eram pequenas se comparadas ao mundo que se viu perdido numa noite fria de outubro.

- Ce deve ter enlouquecido mesmo pra engana o Zero.– disse um de seus parceiros de trambiques.

Samuel deu de ombros, incapacitado a ponto de não conseguir levantar o corpo da calçada. Zero era o novo chefe daquelas ruas.

- Não tenho nada a ver com isso. O chefe queria a entrega pra ontem e ce usou tudo? Assim... tudo duma vez ? –

Samuel olhava para ele gesticulando à sua frente. Tinha aquele olhar lunático. O comparsa se afastou, Samuel viu se erguer de suas costas uma estranha forma humana vaporizada.

Estava acostumado aos delírios entorpecidos, porém, naquele momento Samuel sentiu algo inédito. A forma enegrecida deixou o corpo do comparsa que caiu alguns metros convulsionando até a morte. Samuel a viu avançar pela calçada, deslizando como uma mancha de petróleo.

Ele não conseguia mover nenhum músculo, a única coisa que se movia em seu corpo era o coração descompassado prestes a explodir. Tentou virar o rosto, fechar os olhos, mas sentiu uma presença mais poderosa que toda fome que já sentira, mais arrebatadora que toda sua revolta.

Aquela força o mantinha preso sob mãos invisíveis no canto de uma esquina onde ruas se deslocavam como hologramas defeituosos e os transeuntes possuíam rostos de bestas enlouquecidas. Babuínos com presas à mostra. Samuel conseguiu gritar e se livrar daquela força, um ombro deslocado e um tornozelo contorcido foram as consequências da luta travada. Ele correu cambaleando por vielas e por avenidas onde estranhas formas vaporizadas deixavam os corpos das bestas-feras levando embora a vida de seus corpos em convulsões horríveis. Rastros de morte e indivíduos de fumaça o perseguiam.

O garoto corria com as mãos pressionadas contra o peito como se quisesse conter o coração. Eles continuaram a perseguição. Parou a fuga ao se deparar com um alto muro em um beco sem saída. As palavras do parceiro surgiram pichadas nos tijolos como se feitas às pressas pelas mãos invisíveis “Você usou tudo?”. O que tinha usado? Não sabia. Zero era o apelido do estranho para quem fazia uns serviços, mas ele nunca encontrou o homem pessoalmente. Conhecia sua fama de impiedades e de manter seus costumes religiosos obscuros, mas aquilo não parecia coisa de Zero ou dos entorpecentes que ele distribuía.

Samuel sentiu a presença de novo, incapacitando-o de se mover. Lembrou-se de quando era menino e tinha a mãe por perto, ela o mantinha protegido enquanto era viva. Apesar de ser uma prostituta viciada, ele se lembrava dela com mais amor em noites frias como aquela quando ela o embalava com sua voz rouca de tabaco e exaustão. Por que se lembrava dela naquele momento? Há anos não se recordava nada sobre quem fora na infância.

“Pessoas como você não tem memórias” a voz vinha de algum lugar no beco escuro. Samuel se virou para a miríade de rostos vaporizados flutuantes e suas expressões de bestas-feras zombeteiras e sarcásticas. Elas riam com suas presas de babuínos e o oprimiam cutucando os lugares mais escuros da mente fragilizada.

A presença não era uma das máscaras que o cercava em um balé escabroso, não, aquela força o mantinha paralisado, sugando cada parte de sua energia até o esgotamento, murchando sua pele, bebendo cada gota de fluído do seu corpo.

Os rostos observavam maravilhados aquela presença tomar para si a vitalidade de Samuel que com um sorriso demente se lembrava do cheiro de bolo que uma mãe loura e delicada lhe preparava. Uma mãe com um sorriso brilhante ao beijá-lo e presenteá-lo no natal. Eram lembranças projetadas, as memórias de outdoors.

Samuel deixou o beco pela manhã. A cidade acordava em seu rugido de gigante furioso: carros de som passavam aos berros, pessoas apressadas aglomeradas com suas expressões bestiais e devoradoras, lojas e suas músicas chamativas, cartazes, trabalhadores nas avenidas consertado o concreto. As ruas se sobrepunham como hologramas desfocados, a cidade cuspia monóxido de carbono manchando o céu de preto e escurecendo o sol.

Ele não passava de um velho murcho que se arrastava dentro de uma bermuda de rapaz, olhando os outdoors em sua contemplação sonhadora. Podia visualizar aquela presença atrás de si cada vez que se lembrava de quem realmente fora, uma sombra cinzenta cercada de rostos vaporizados. Por onde andava as bestas-feras continuavam caindo mortas em convulsões ritmadas sob o efeito dominó da morte que as formas enfumaçadas causavam ao se desligarem dos corpos humanos. Aquilo nada tinha a ver com os delírios entorpecidos da juventude. Samuel viveu o resto de sua vida indigente mergulhado no submundo do submundo onde o que era feio se tornava, sobrenaturalmente, ainda mais feio, o que lhe salvava da Presença eram as memórias de outdoors.

 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 26/06/2017
Alterado em 28/04/2018
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