Contos de Horror
por Larissa Prado
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Marcada
 
Samantha se encolheu quando a mãe abriu a cortina. Os raios de sol não eram bem-vindos. Ela gemeu e se contorceu como se uma dor incomodasse.

- Filha, o que você tem?  -

Samantha espiou a mãe sobre a manta que cobria parte de seu rosto, tentou dizer algo e nada saiu. A mulher não demorou, encarou aquilo como mais uma das manhas da filha. Quando deixou o quarto, Samantha descobriu os braços e observou com atenção o furúnculo que crescia na palma da mão, estourado produzia uma secreção fétida e purulenta.

A ferida pulsou algumas vezes obrigando-a a escondê-la novamente embaixo da manta, queria esconder de si mesma que aquilo fazia parte de si. Samantha se ajeitou para dormir mais um pouco, esquecer aquela dor. Ela se virou e fechou os olhos na tentativa do esquecimento, mas tudo o que sua mente fez foi trazer lembranças, porque os sonhos podem durar para sempre se mantivermos os olhos fechados.
 


 
O horário chegou ao fim e Samantha deixou seu trabalho naquela quarta-feira nublada, era mês de Julho, a cidade parecia morta. A maioria das pessoas tinha ido viajar para aproveitar o mês de férias, menos ela.  Ao entrar em casa encontrou o vazio retumbando por todos cômodos, os pais e a irmã tinha ido para casa do tio Ernest que morava nas montanhas. Após tomar banho e colocar a comida para os gatos siameses que miavam e se esfregavam em seus calcanhares ela deitou para assistir TV. Passeou pelos canais sem encontrar nada que lhe interessasse até parar em um canal de filmes. Na tela, a protagonista era perseguida por alguma criatura da noite em uma antiga mansão vitoriana em preto e branco. Samantha sabia que o sono logo viria, filmes antigos sempre o traziam.

Não demorou para que ela fechasse os olhos e mergulhasse no universo dos sonhos. Samantha despertou depois de 30 minutos, sentia o suor frio cobrindo o rosto e as mãos estavam como duas pedras de gelo. Sentada no sofá da sala ela olhou em volta tentando reconhecer sua casa, mas o que havia ali era apenas a representação da mansão gótica do filme, assustada, ela chamou por Mozart e Doris, os dois gatos, o vazio estava ali e agora seu silêncio ecoava, nada de miados, nada de gatos.

- Estou sonhando – ela se tranquilizou e relaxou o corpo no sofá, como acontece nos sonhos apenas esperou para que as coisas acontecessem até que pudesse voltar a si.

A porta da cozinha entreabriu em um rangido sôfrego, Samantha tentou levantar e o corpo não obedecia seus comandos.

- Mozart? Doris ? –

Chamou por duas vezes, apenas o silêncio continuava ali quase como uma presença material, Samantha sentia que alguém estava aproximando, podia notar uma aproximação embora não pudesse ver nada. Ela sentia a companhia de alguém como somos surpreendidos pelas costas com a chegada de uma pessoa, era aquele tipo de sensação que a dominava, não sabia dizer o que ou quem era porque não via absolutamente nada. A luz da tv iluminava boa parte da sala, mas tudo parecia preto e branco como no filme.

- É um sonho, Samantha – ela falava em voz baixa tentando tranquilizar a mente e voltar a relaxar o corpo, mas os olhos arregalados buscavam a presença na sala, sua materialidade. Não haviam ruídos, nada, apenas a certeza de que não estava sozinha ali que algo havia entrado pela porta da cozinha quando ela rangeu.
 
Samantha acordou no sofá da sala, Mozart estava observando-a da poltrona ao lado, os olhos felinos quase faiscavam no escuro do ambiente. Doris permanecia dormindo aos seus pés. Ela olhou em volta, a TV passava um programa sobre vida selvagem, já passava da meia-noite. Ela foi até a cozinha, a porta permanecia trancada, mas a certeza da presença tinha sido trazida do sonho, ela podia sentir algo à espreita e não eram os olhos do seu gato.

Dirigiu-se para o quarto, incomodada, se preparou para deitar na cama quando viu uma silhueta delineada ao lado da cama, uma sombra. Era como ver o reflexo de galhos de árvore na parede, acontece que no quarto de Samantha não havia claridade suficiente para reflexos e a janela estava escondida sob cortinas pesadas, mesmo que houvesse alguma réstia de luz da lua, não havia árvore do lado de fora para projetar aquilo. Ela permaneceu imóvel, o medo exercia sua paralisia. Samantha tentou falar algo, mas saiu um gemido. A silhueta se moveu com delicadeza até seus pés, deslizante como uma serpente, ela apenas observava aquela aproximação em total impotência.

- Isso é um sonho. Outro sonho dentro do sonho...- pensou consigo tentando resgatar algum resquício de racionalidade. A silhueta desapareceu, mas Samantha podia sentir sua presença pairando no quarto, em torno dela e dentro de si. Ela conseguiu se mover para fora do quarto e naquele resto de noite dormiu na sala, agarrada às almofadas, assustada demais para manter o sono e exausta para permanecer em claro. Foi uma madrugada de cochilos e despertares, de muito medo e estranheza.
 
 
Quando o sol invadiu a casa, Samantha estava dormindo profundamente, não haviam sonhos, apenas a escuridão do cansaço. Ela acordou e espreguiçou, toda madrugada tinha ficado envolta na névoa do pesadelo, como se não tivesse acontecido. Ela preparou o café, se arrumou e foi para o trabalho. Aquele dia foi um estranho, Samantha podia sentir a presença contínua de alguém em seus calcanhares, respirando em sua nuca. No trabalho cometeu vários erros por distração e justificou ao seu gerente que fora a noite em claro. Ela trabalhava em uma agência de turismo e naquele dia todo contato com clientes e colegas de trabalho lhe parecia intolerável. Pediu para ir para casa mais cedo e ao chegar descobriu que tinha medo de ficar sozinha, começou a pensar na chegada da noite e na estranha madrugada que passara.

Samantha tentou distrair ligando para amigos, saindo com eles e voltando para casa quase ao nascer do dia. O problema na mão tinha atingido um nível que não dava mais para ignorar, ela coçava sua palma com tanta força e continuidade que abrira ali uma imensa ferida. Notou aquela coceira ao levantar, mas não percebera seu contínuo ato de coçar durante o resto do dia.

Antes de dormir, Samantha observou sua mão por um longo tempo, a ferida expelia um líquido purulento, não sabia dizer se era pus, só sabia que o odor era insuportável. Ela lavou e tomou as precauções necessárias, enfaixou a mão, mas quando os próximos dias vieram as coisas tomaram um rumo sombrio.
 
Sua família havia retornado de viagem e encontrado uma Samantha abatida, não saía da cama para quase nada além de ir ao banheiro trocar o curativo na mão. A mãe não tinha visto o ferimento, ela escondia de todos e de si mesma. A lembrança da madrugada em que a estranha forma deslizou até seus pés e desapareceu em seu corpo não a deixava, povoava seus sonhos e pensamentos racionais. Samantha não conseguia parar de ferir a mão, quando coçava e sentia a dor da ferida aberta aquela sensação desaparecia, aquela certeza de uma presença.

A mãe acreditava ser uma indisposição passageira, alguma gripe, o pai acreditava no que a mãe dizia, mas foi a irmã de Samantha, Livia, que encontrou o corpo da irmã em uma manhã de segunda-feira. Livia foi chama-la a pedido da mãe, àquela altura a preocupação da família começara a se intensificar, quando a irmã mais nova abriu a porta de Samantha o que encontrou a fez perder os sentidos: ao lado da cama de Samantha havia uma silhueta espichada, uma forma disforme, mas humanoide, pois podiam ser definidos membros como braços e pernas longilíneos, a irmã havia sido devorada por escaras, por pústulas da cabeça aos pés, marcada por feridas, seu rosto não passava de um oco, como um furúnculo estourado.

- Samantha!!!!- a voz de Livia ecoou pela casa com tamanha potência que os cachorros de todo quarteirão responderam ao grito latindo.

- Irmã? – A voz era de Samantha, mas vinha da silhueta ao lado da cama que agora se transfigurava na forma física da mulher deteriorada sobre a cama.

- Por que grita, Livia? – o tom era zombeteiro, quase sagaz.

Quando os pais irromperam pela porta do quarto, Livia jazia desfalecida e Samantha estava em pé ao lado da cama, na mão esquerda uma marca pequenina se destacava na pele branca como a picada de algum inseto hematófago.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 24/06/2017
Alterado em 26/06/2017
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