Textos


Últimos dias
 

“...pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo fervilhante – pop! – pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos “aaaaaaah!”. Como é mesmo que eles chamavam esses garotos na Alemanha de Goethe?” (Jack Kerouack)


 
Então, S. e eu estávamos na estrada rumo a destino algum, revezávamos o volante quando o cansaço e o sono dominavam o motorista da vez e seguíamos, seguíamos adiante abraçando a liberdade da estrada, sem rédeas, compromissos, sem lares para voltar. Estávamos seguindo e era apenas isso que nos importava, e estrada, a mudança das paisagens no acostamento, o sol que nascia e morria. Noites e dias revezando no céu e nós dormindo de qualquer jeito no banco de trás da van. S. trabalhava de pegar e entregar crianças nas suas escolas, ele era seu próprio patrão e fazia suas rotinas, mas ainda assim era dominado pelo cotidiano escolar dos pestinhas que transportava e cobrado pelos pais ausentes, ocupados e preocupados com a segurança dos filhos e, claro, suas pontualidades. Como fomos parar no meio do nada? Um dia S. bateu na minha porta e simplesmente disse “M. cansei, quero sair por aí, rodar a cidade essa noite sem ter hora para voltar”. Nós saímos perambulando pela cidade e acabamos atravessando boa parte do continente.

O plano era ir até onde o dinheiro em nossas contas permitissem que fossemos, até descobrirmos que poderíamos ir além, que toda intenção de planejar o dia seguinte sempre caía por terra. S. estava disposto a satisfazer todos seus impulsos, no meio do caminho comprou uma Harley Davidson usada e caindo aos pedaços a um bom preço só para matar a vontade de dirigi-la pela estrada. Na cidade seguinte trocou ela por menos do que tinha pago e seguimos adiante. S. parecia até mesmo mais novo, algo nele me fazia lembrar o garoto que conheci quando tinha 15 anos no colégio. Quando me olhava no retrovisor da van também me sentia eu mesmo, eu gostava do que via o que era raro, pois, sempre que me olhava no espelho pelas manhãs, antes de encarar o trabalho burocrático em um cargo administrativo da prefeitura, eu me sentia cada vez mais distante de mim mesmo, mais velho e derrotado.

O ar livre faz um bem enorme à nossa pele, acreditem, é incrível poder abrir os olhos e encarar o céu assim livre de arranha-céus e fumaça acumulada. As nuvens parecem reais e palpáveis, tudo parece verdadeiro na estrada ou nas cidadezinhas em que passávamos alguns dias apenas perambulando e conhecendo a forma como as pessoas viviam. Foram meses indescritíveis, no som rodava desde Neil Young a Bad Religion, rodava de tudo e era incrível poder compartilhar isso com uma pessoa como S. que um dia bateu na minha porta e me convidou para viver. Viver de verdade, sentir que cada minuto da vida valia a pena e era maravilhoso.
Certa noite, nós estávamos bebendo cerveja sentados nos bancos de trás da van e olhando um céu estrelado. No estacionamento do hotel de beira de estrada o mundo parecia mais escuro do que nunca, porém, de alguma forma parecia mais claro. Não sei se eram todas aqueles pontos luminosos no céu que estavam tão próximos de nós. S. perguntou o que eu faria se soubesse o dia exato da minha morte.

Eu dei de ombros, pensei por alguns minutos e disse “Exatamente isso que estamos fazendo”. S. deu um sorriso cansado, mas satisfeito, ele parecia o velho S. de sempre, envelhecido e meio amarelado, julguei que fosse o ângulo que o olhava, ele estava sentado ao meu lado e eu apenas olhava-o de soslaio, fitei minha cerveja por longos minutos, ela também tinha um sabor diferente, ela tocava a língua e goela de uma maneira prazerosa. S. disse com uma voz rouca que iria morrer no mês que vem, era o tempo que o médico tinha lhe garantido, havia um câncer em alguns órgãos vitais do seu corpo se desenvolvendo tão ávido pela vida dele quanto nós estávamos pela estrada à frente.

Eu não sei dizer o que me senti, olhei para ele e me virei no banco para isso. Conhecia S. desde os 15 e apenas naquele momento eu me virei e o olhei de verdade, por um longo tempo, notando cada ruga que o tempo tinha feito eu seu rosto e mãos. Notando o quanto o amava independente da vida que levávamos e nos havia distanciado, independente da morte que estava prestes a chegar. Eu sorri e disse sem saber ao certo o porquê, mas no fundo sabendo “Forever Young I wanna be...” e ele completou “Forever Young”! Brindamos com o que restava em nossas garrafas e naquela noite dormimos profundamente depois de relembrarmos os anos de colégio.

Depois de mais um longo e desgastante dia no trabalho me pego olhando para a lápide onde descansa o corpo do meu amigo e relembrando nossos últimos meses na estrada. A forma que as coisas simplesmente aconteciam sem planejamentos e nos deixavam plenos, serenos e intensos por estarmos vivos e respirarmos o ar livre de civilização.

Foram os melhores meses da nossas vidas, não tenho dúvida, e cada vez que venho até o cemitério, me sento em sua sepultura e faço-lhe o resumo do meu mês parece que posso ouvir no vento um sussurro que diz “Forever young I wanna be...” mesmo nos dias em que o ar está estagnado, ainda posso ouvir, não é a voz de S. ou a minha. Um dia ainda descobrirei de onde vem o chamado, ele sempre acaba acontecendo, e estamos surdos demais para discerni-lo dentro de nossa mente ruidosa e alma embotada.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 16/06/2017
Alterado em 16/06/2017