Textos


 A coisa no poço
 
 
I
 
 
- Eu não sei onde foi que ele se meteu, já disse. – Barbara caminhava com dificuldade porque já andavam há horas atrás do filho.

- Quando encontrar esse maldito... –

- Não vai fazer nada, não vou deixar. Ele deve ter se perdido, está assustado e com fome, a última vez que o vi foi de manhã. –

O casal caminhava em volta da casa pela quinta vez, o pai mantinha o rifle de caça junto ao corpo e a mãe já desistira de gritar o nome do filho. Arthur observou a esposa empalidecer ao seu lado, foi o seu espanto que o fez olhar na direção que seus olhos miravam. À frente deles, próximo ao poço de onde recolhiam a água, o pequeno Leo estava tremendo, sujo da cabeça aos pés e nu.

- Meu filho – Barbara gritou e correu na direção dele, mas sentiu a pressão no braço exercida pela mão do marido.

- Espere, ele não é nosso filho –

- O que diabos...- ela lutava contra o aperto dele no braço, se tornou imóvel com o que os olhos presenciavam.

O pequeno Leo, de apenas cinco anos, parecia de alguma forma se alongar diante deles, as pernas estavam maiores, seu corpo todo parecia errado, os braços arrastavam no chão onde as mãos se esparramavam inertes, borrachudas.

- Filho? – Barbara sussurrou, Arthur segurou o braço dela enquanto indagava. – Leo? Você está bem? –

Não veio qualquer resposta, Leo ergueu a cabeça e encarou os pais, seus olhos pareciam apagados, olhos que  não enxergavam. Arthur soltou o braço da mulher e deu alguns passos na direção do filho. Mantinha o rifle de caça junto ao corpo, a mão termia sobre a arma, ele sentia que se precisasse usá-la contra Leonard não conseguiria se mover.

- Leo, por favor, vamos para casa. – Arthur estendeu a mão que ficou suspensa longos minutos, Leo olhou sua mão como se não compreendesse o significado do gesto. Virou o rosto, confuso, parecia um animal acuado.

- Vamos! – insistiu seu pai. Aos poucos, andando trôpego, Leo ergueu a mão presa a um braço espichado e segurou a mão de Arthur. Seu toque era repugnante, onde antes havia uma mão gorducha de criança, agora não passava de um toque morto, uma mão áspera com dedos macilentos.

Arthur guiou o filho de volta para casa, aliviado. Acreditava que tudo iria voltar ao normal, que Leo voltaria a ser como antes, o que Barbara e Arthur não sabiam ainda é que o filho não seria o mesmo nunca mais.

- Coma todo ensopado, filho. – Barbara penteava os nós dos cabelos dele – vai precisar de muita energia para se recuperar, seu pai logo vai chegar com o doutor. –

Leo olhava para o prato sem conseguir focar a atenção, as mãos descansavam sobre o colo presas a braços de borracha. A tagarelice da mãe prosseguiu, mas ele não parecia ouvir ou se importar.

Não demorou mais de meia hora para porta da casa abrir e trazer Arthur acompanhado do vizinho, Robert, um veterinário e única opção que tinham na noite que trouxe uma forte nevasca à região.

- Doutor, ele não fala uma palavra, para um garoto como Leo isso é muito estranho. – Bob, como era chamado pelos conhecidos, avaliou o garoto à distância.

- Os membros dele, o que aconteceu com eles? Braços e pernas... – ele parecia horrorizado.

Diante Leo, sentada à sua frente na mesa, estava Alissa, a irmã mais velha, pálida e trêmula, olhos arregalados.

- Eu tentei dizer isso aos meus pais, mas eles negam perceber a estranheza do corpo de Leo. – ela engoliu o choro com esforço cobrindo o rosto, Alissa completara 15 anos e lutava para parecer adulta ou menos infantilizada, porém, entregou-se ao choro desconsolado.

- Está tudo bem, ALissa, vou examiná-lo, mas assim que a nevasca diminuir devem leva-lo ao hospital, urgente. –

Bob colocou sua maleta de primeiros socorros em cima da mesa, a aproximação tirou Leo do seu estado apático, ele levantou os olhos para o veterinário e o fez congelar.

- Leo, vou fazer alguns testes em você, tudo bem? –

O garoto inclinou a cabeça ao som da voz, seus olhos estavam tão vermelhos que se chorasse, Bob, temeu que vertessem lágrimas de sangue ou fogo.

- Leo, vou auscultar sua respiração e batimentos... – ele retirou um estetoscópio da maleta e iniciou o procedimento, notou que o peito do garoto não emitia qualquer ruído, nada de batimentos cardíacos ou ruídos respiratórios. Leo olhava para aquele instrumento de ausculta como se nunca o tivesse visto, sua mandíbula estralou algumas vezes com o movimento que fazia ao ranger os dentes.

Bob temia se aproximar, mas o fez para tentar encontrar algum sinal de respiração no corpo do garoto, quando tocou o braço dele para tentar compreender o estranho alongamento, o garoto gritou. Não foi um grito de dor, e sim, um berro longo e ensurdecedor de ódio mesclado à desespero. Todos cobriram os ouvidos, ele não parou de urrar por um bom tempo. Bob percebeu a falta da maior parte dos dentes  do garoto enquanto mantinha a boca aberta.

“Uma boca muito aberta...” Bob pensou ao observar a forma que a mandíbula encostava no tórax em uma abertura, humanamente, impossível, “o queixo toca no peito em um movimento deslocado”, Bob levou Arthur para cozinha, longe do surto ruidoso de Leonard.

- Todo deslocado, Arthur...seu filho está todo deslocado. É como se suas articulações tivessem se distendido. –

Arthur olhou na direção do filho e se sentiu tragado pelo tamanho da boca, por toda aquela escuridão onde deveria ter dentes e a língua que também estava ausente.

- Isso não pode ser o Leo, Bob... – Arthur segurou firme o ombro do médico para não cair. – O que aconteceu com ele? –

O ruído dos gritos cessou, todos observavam Leo, atônitos e assombrados. Sua irmã chorava tanto que convulsionava na cadeira, em choque. O garoto saiu da mesa, em silêncio, arrastou-se até seu quarto. Eles ouviram a porta bater e puderam, então, respirar aliviados.

 
II
 
 
O verão havia chegado, o inspetor de polícia Neil e seu parceiro Rudy se embrenhavam na mata local na região agrária da cidade. Ali viviam algumas famílias tradicionais da cidade que viviam de atividades rurais.

- O que foi que a voz da ligação te disse, Rudy?- Neil circulava pela mata tirando um arbusto ou outro do caminho, se sentia cansado embora não admitisse, seu uniforme estava encharcado de suor.

- É a décima vez que comento sobre a ligação, Neil, está querendo me pegar em alguma mentira? Uma versão diferente a cada 10 minutos que me pergunta? – diferente de Neil, Rudy se sentia bem no meio rural, crescera naquela região, passou boa parte da vida ajudando o pai na propriedade da família, ele caminhava à frente, mais ágil que o parceiro que estava um pouco acima do peso.

- É um pouco difícil acreditar no que ouviu. Não que esteja duvidando de você, mas duvido da pessoa que ligou, pode ser brincadeira de algum desocupado. Estamos andando por aí há mais de uma hora e até agora, nada estranho ou suspeito. –

- Ela me disse que coisas invadiram sua casa e pegaram seu bebê, se alimentaram dele. Foi isso que ela me disse, não deu tempo de identificar quem ligava, a ligação caiu. Ela teve tempo apenas de me dizer que estava nessa região. –

Eles caminharam por mais algum tempo em silêncio, Neil se tornava cada vez mais lento, conservava o fôlego se mantendo calado. Rudy guiava as trilhas. Bateram em três casas e não obtiveram respostas, era como se todos tivessem resolvido viajar ao mesmo tempo. Tudo estava abandonado, vazio. As propriedades que comportavam animais estavam em pior estado, eles pareciam famintos e largados à própria sorte.

- Ali. – Rudy apontou para uma construção que tinha a porta da frente aberta e luzes acesas. – A casa do Arthur Roriz deve ter alguém, finalmente. –

Eles caminharam até lá e ao chegarem na entrada da casa, Neil se curvou com a mão sobre o estômago, a náusea que o atingiu quase o fez vomitar. Rudy sentiu o incômodo no ar, um odor forte e indefinível, agridoce e podre ao mesmo tempo.

- Eles parecem ter abandonado a casa também, deve ser o lixo acumulado esse cheiro horrível. – Rudy colocou a mão sobre o coldre na cintura.
- Pior do que os lugares com animais, prefiro o aroma de bosta de vaca a isso. Não consigo entrar aí, Rudy. –

Sem esperar pelo parceiro, Rudy adentrou a casa com cautela, ele empunhava a arma em posição de alerta como fora treinado anos e anos a fazer em situações como aquela. Podia sentir a tensão no ambiente, parecia que algo estavas prestas a acontecer, tinha aquele tipo de intuição forte de que iria precisar atirar em algum momento. Rudy parou de caminhar depois de escutar o ruído de passos nos fundos da casa. Neil estava protegendo sua retaguarda, também empunhava seu revolver, diferente de Rudy, Neil tinha um semblante tranquilo, faltava-lhe a intuição necessária, ele estava apenas fatigado.

Rudy fez um gesto com a cabeça em direção aos fundos da casa. Neil compreendeu o sinal e avançou com ele. Ao chegarem do lado de fora, Rudy notou o movimento da porta dupla do galpão onde Arthur costumava consertar os automóveis de quase todos moradores da cidade, alguém tinha acabado de se esgueirar por ali. Ele fez mais sinais para Neil que tinha adquirido uma palidez incomum, ele percebera que as coisas estavam ficando sérias.

Rudy caminhou à frente, antes que pudesse tocar na porta e entrar no galpão foi surpreendido por uma escuridão enlouquecedora, ruídos insuportáveis dilaceravam seus tímpanos. “Eu fui atingido na cabeça...” foi o último pensamento racional que teve antes de deslocar no poço do esquecimento. A voz de Neil ecoou por alguns minutos naquele redemoinho da queda livre, a voz estava espantada e histérica, ele tentou articular um grito, mas o corpo não parecia mais pertencer à sua vontade.

 
 
III
 
 
No bar da beira da estrada um homem bebe sua cerveja alheio a tudo em volta. As pessoas entram e saem e ele fica ali até o lugar fechar, bebendo. Não parece mais ébrio, o álcool parou de fazer efeito por ter se tornado um hábito. Quando a madrugada vem, ele se acomoda em sua caminhonete e dorme um sono inquieto, com os primeiros raios de sol entrando pelos vidros ele desperta assustado e precisa sufocar o grito. Toda manhã é assim, aquilo dura dois anos desde a última nevasca que caiu na região, desde a noite em que foi chamado por Arthur para ajudar seu filho mais novo.

Bob, olhou de canto para um viajante que está tentando puxar assunto. O forasteiro parece jovial e animado, entrou ali com a namorada, também jovem e eufórica, a tiracolo, mas Bob foi incapaz de perceber a existência de qualquer um até que ele começou a falar pelos cotovelos, como é costume de quase todos turistas.

- Pousada Dente de leão, é o que há de melhor no ecoturismo da região. Ah, isso é o paraíso, a gente vê as montanhas de longe na estrada... é um sonho estar aqui depois de anos trancafiado num escritório asfixiante. – Ele levou a cerveja até os lábios, Bob observou seu rosto bem barbeado e os cabelos cortados baixos, quase raspados.

- Filho, se eu fosse você pegava meu carro e minha garota e sairia correndo daqui o quanto antes...enquanto ainda dá tempo de fazer isso. – Bob não parecia em nada com o veterinário bem-sucedido que um dia fora, estava magro, o rosto coberto por uma barba cheia e um dos olhos sem visão estava coberto por uma grossa camada branca que o deixava com um aspecto assustador. Os cabelos caíam pelos ombros, brancos na maior parte, e Bob não tinha alcançado ainda os 35 anos.
- Do que está falando, senhor?-

- A pousada não existe mais, você deveria saber disso, o site deles não é atualizado há dois anos e não tem ninguém lá para atender sua ligação caso tente fazer uma reserva. –

- Mas...- o rapaz pareceu atordoado, atingido por um raio ou por algo que dissipou totalmente sua vivacidade, ele, literalmente, murchou na cadeira do balcão – Liguei lá semana passado e fechei o pacote de 4 dias, como podem não estar ativos? Será que é um golpe?-

Nesse momento, sua namorada tinha se aproximado e o agarrado pelo pescoço, ela observou Bob, curiosa, mas nada disse além de um “Olá” acanhado.

- Provavelmente... um golpe ou algo pior, apenas siga o alerta de alguém que conhece essa região mais do que você: vá embora daqui, não se aproxima da pousada ou daqueles lados. –

- O que ele está falando, querido?- a garota cochichou com o namorado, mas Bob podia ouvi-la daquela distância e se intrometeu, impaciente.
- Estou falando para vocês darem o fora e salvarem a porcaria das suas vidas! Principalmente o poço, fiquem longe do poço!–

O atendente aproximou de Bob por trás no balcão e pediu para que ele saísse, tocando seu braço para auxiliá-lo a se levantar. Robert assim o fez e deixou o bar não sem antes murmurar para o forasteiro “O poço na propriedade de Arthur Roriz, não se aproxime de lá!”, o rapaz e sua namorada permaneceram observando Bob deixar o bar, eles pareciam assustados demais para dizerem qualquer coisa um para o outro.

 
 
IV
 
 
Bob entrou na caminhonete, pela terceira vez naquela semana retirou o revolver do porta-luvas e sentiu o gosto metálico do cano na boca. As lágrimas vieram, mas não exerciam mais o efeito confortador de alívio, pelo contrário, o seu choro era silencioso e embotado. Não chorava mais como um homem desesperado, fizera isso com frequência no primeiro ano após o acontecido, agora, chorava como um morto, seus sentimentos não tinham mais força ou significado, sua mente não parecia funcionar mais, Bob se sentia, por completo, sem vida, mesmo assim, não conseguia puxar o gatilho, algo maior não deixava que o fizesse, não era Deus ou alguma ideia do tipo. Era uma força de verdade, como uma garra segurando seu pulso, uma garra mental.

Ele deixou a arma no banco do passageiro, ligou a caminhonete e seguiu na direção da antiga propriedade de Arthur Roriz, aquele processo também era involuntário. Bob dirigia sem sentir que o fazia, como fazem as pessoas hipnotizadas nas feiras locais que ele costumava ir com a esposa. Onde estava Sara? Onde ele deixara sua esposa? A memória estava fraca, falhava como uma lâmpada mal colocada, ele não sabia responder onde Sara estava e pouco se lembrava dele. Aquilo também parecia, de alguma forma, ser a influência de alguma força inominável.

Bob desceu na frente da casa de Arthur e percebeu a movimentação, queria virar e correr, mas suas pernas não obedeciam. Ele seguiu adiante, entrou na casa e foi direto para os fundos onde os ruídos se tornavam mais nítidos. Eles se banqueteavam com o corpo fresco de Rudy parcialmente devorado. Bob conhecia Rudy a vida toda, o policial e ele estudaram juntos na infância e fizeram o colegial juntos até Rudy ir embora perseguir seu sonho em ser policial como o avô fora. Ele ficou parado, observando, os sentimentos não eram dele, ou tinham apenas sido sugados de si.

Neil estava inconsciente no chão, desmaiada, pelo menos Bob acreditaria nisso não fosse os seus braços e pernas se alongando em movimentos ondulatórios. Eles devoravam o que sobrou de Rudy com calma, as mãos escamosas dilaceravam lascas de tecido muscular com habilidade. Os olhos de Leo se voltaram para ele, olhos completamente negros como olhos de uma mosca ou algum artrópode. Bob sentiu vontade de gritar, mas logo, a vontade foi sanada.

Alissa, Arthur e Barbara acompanhavam o filho ou que ele tinha se tornado naquele banquete hediondo. Bob arrastou o corpo de Neil até eles e ficou ao lado de Leo, aguardando. A criatura se levantou nas longas pernas, sua mutação estava completa, assim como a dos outros membros da família que não passavam agora de espichadas formas esguias e silenciosas. Leo balançava a cabeça de forma discreta, quase imperceptível, enquanto deslizava sobre pés macilentos e silenciosos. Ele levou Bob como sempre fazia nos últimos meses até o poço onde foi encontrado pelo pai dois anos atrás. Ali, Bob jogou Neil com um esforço extenuante, o policial era grande.

Ficou observando o som da massa corporal avantajada chegar ao fundo, um impacto molhado, em seguida, o som de algo rasgando, talvez o tecido do uniforme ou a própria pele. Por um momento, Bob conseguiu perguntar a si mesmo, dono da sua própria mente, “ o que diabos crescia ali dentro? De coisa que coisa sairia aquele ruído grotesco de respiração chiada e o odor pestífero que subia em vapores esporádicos?”

- Meu amor. – a voz de Sara ecoou logo atrás dele, Bob virou com urgência, os olhos à procura, aflito, zonzo como o homem que saí, momentaneamente, de um transe.

– Meu amor, você sente minha falta? – mas não havia ninguém ali, Sara não estava lá, apenas Leo o encarando com seus olhos opacos. Sua boca se limitara à uma fenda, mas a voz parecia vir dele, ecoar de alguma parte dele ou só existia dentro da mente de Bob?

Ele cobriu os ouvidos, queria se livrar das lembranças e do esquecimento, queria se livrar do peso em não saber o fim que levara sua esposa, não queria saber ou voltar a se perguntar sobre ela, queria esquecer, ao mesmo tempo, lembrar. Ele gemeu de dor, mas não uma dor física, o desconforto vinha de uma espécie de câimbra mental.

- Meu amor, sou eu. –

Leo tocou seus cabelos sujos e por um momento Bob sentiu a mão da esposa como ela fazia toda manhã para acordá-lo.

- Não seja tão cabeça dura, você tem se saído bem e eles não são maus, Robert, eles nunca foram maus, você que os vê assim tornando tudo tão difícil... –

Bob ergueu o rosto para Leo, não tinha perceido que estava de joelhos, pior que isso, que tinha as mãos juntas como se fizesse uma prece à criatura que um assimilou o corpo do pequeno Leonard transmutando-o naquela aberração incompreensível.

“Eles podem imitar as vozes humanas, como certas aves fazem, mas ele não está imitando o que ouviu ela falar. Ele está apenas reproduzindo o que trago na minha memória” Bob lembrou-se de uma discussão que acontecera há alguns anos quando estava resistente a ir passar férias na casa dos pais de Sara e ela lhe dizia no café da manhã “ Eles não são maus Robert, eles nunca foram maus, você que os vê assim.”

Foi um choque, tudo o que lembrava tinha se dissipado como uma névoa e a falta completa de significado voltou a se instalar, um completo nada em sua mente, Bob observou a criatura abaixar-se com lentidão, movimentos exatos e graciosos e levantá-lo do chão.

- Ora meu garoto, não precisa rezar tanto, você não vai conseguir nada com preces, só o trabalho pode dignificar o homem. –

Era seu pai falando, a mesma voz, o mesmo tom, mas Bob não alcançava mais aquele nível da memória, ele reconhecia tais palavras, elas viviam dentro de alguma parte sua, mas não podia reconhece-las. Ele sentia aquele tipo de angústia se manifestar dentro de si, mas logo ela esvanecia dando lugar ao embotamento, à necessidade da bebida.

Um carro esportivo parou ali perto, Bob dirigiu o olhar para o som de portas batendo. Podia ouvir a voz do forasteiro que encontrara no bar entrecortada na distância “Deve...aqui, vamos...” Leo inclinou a cabeça arredondada e livre dos cabelos na direção do ruído, eles se locomoviam de acordo com certas vibrações que escapavam à cognição humana, mesmo aos conhecimentos de um veterinário bem-sucedido como ele fora, “Não são animais, não são insetos ou humanos... não são nada que possa existir no campo do conhecimento humano.” Era tudo o que Bob pensava antes de dormir com a mente dispersa nos efeitos do álcool.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 04/06/2017
Alterado em 04/06/2017
Copyright © 2017. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.