Textos


A gruta
 
 
O latido solitário de um cachorro ao longe me fazia lembrar que ainda existia vida lá fora. Aqui dentro, porém, eu acordava como toda madrugada nas últimas 3 semanas tremendo não sei se de frio ou medo. Podia ouvir o ruído deles dormindo como uma respiração conjunta e desarmônica de bestas. Os chiados estavam a cada madrugada piores. Era como dormir entre lobos.
 
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A ideia começou a se formar no mesmo dia que tinha chegado ali, eu era o último perdido naquele pequeno grupo condenado. Tudo começou com uma habitual caminhada com Sunday, meu pequeno labrador de 1 ano. Ele adorava as caminhadas matinais pelo bosque que circundava nossa casa. Minhas últimas lembranças antes da queda era de Sunday agitado, mordendo e puxando a coleira e depois apenas escuridão. A escuridão eterna de cair no vácuo do espaço, despencar pela galáxia deve ser parecido. Sunday caiu comigo, a coleira enrolada em meu punho impediu que o pobre bicho fugisse, como era de sua natureza canina e honesta, ele caiu comigo. A sorte foi que ele quebrou o pescoço na queda e morreu quase de imediato, evitando maiores sofrimentos.

Eu sofri uma torção no tornozelo e me mantive vivo agarrado por muitos dias ao corpo do meu companheiro de 4 patas até que a necessidade de água e de me mover do estado letárgico pós trauma me fizesse começar a andar. Deveriam ter passado alguns dias em que permaneci parado, cochilando e acordando com a certeza do pesado corpo frio e torto de Sunday sobre meu colo. Ele era a única certeza que aquilo não era um pesadelo.

Ciente de que não iria acordar daquela situação comecei a desvenda-la. Arrastando o corpo de Sunday por uma boa distância passei a procurar uma saída. Percebi enquanto caminhava que era um labirinto formando grutas. Caímos por alguma rachadura camuflada lá em cima por gramíneas.

Percorri um longo caminho insistindo em levar o corpo pesado de Sunday comigo, deixa-lo para trás seria uma forma muito dolorosa de reconhecer a realidade louca e fria na qual estava me integrando. Estar debaixo da terra, perdido dessa forma me fazia sentir como capitão Nemo, alguma história inconcebível de Verne em que eu era o protagonista. A sensação de loucura era a única possibilidade que crescia ali enquanto caminhava.

Quando fui vencido pelo cansaço e me deitei quieto agarrado à Sunday, ele começava a exalar o odor típico das coisas mortas, ouvi o primeiro som de alguma presença viva. Eram vozes, duas ou três, difícil saber por conta das reverberações nas paredes da gruta.

“ – A primeira coisa que precisa fazer é se livrar do corpo dele...”

A voz era de uma mulher, rouca e estranha, parecia enfraquecida. Forcei os olhos na direção dos sons e não pude ver nada além dos vultos nas paredes: sombras espichadas tremulando numa vaga luminosidade de tocha.

“- Quem são vocês?”

“- Nós também caímos”

Finalmente pude vê-los, uma mulher estava andando com a tocha sobre a cabeça e um garoto esquelético seguia seus passos agarrado ao que sobrou de uma calça esfarrapada dela. Ele tinha um rosto horrível, anêmico e doentio. A mulher parecia envelhecida, as sombras a deixava com um semblante de cadáver, a boca meio aberta pendida em lábios caídos mostrando dentes amarelados, ela não se alimentava há anos pelo o que notei, feridas graves devoravam parte de suas bochechas, podia jurar que via vermes se arrastando por lá. Ela tocou meu punho com uma força não condizente a sua aparência.

“- Vamos...”

Sem resistir deixei Sunday para trás e me pus a seguir os passos dos estranhos. Minhas pernas estavam fracas e me faziam cair a cada passo dado. Queria saber o que era tudo aquilo, não restava-me forças sequer para falar. Ela me guiou por passagens subterrâneas e perigosos vãos rumo ao nada. Bichos da escuridão se moviam com rapidez ao passarmos, eu não tinha ideia onde estava sendo levado, a irrealidade me tragava de tal forma que tudo deixava de fazer qualquer tipo de sentido, inclusive lutar parecia não mais ter qualquer tipo de motivo para isso. Era uma espécie de imersão numa não-existência, em um pesadelo horrível, minha incredulidade era tamanha que aceitei toda condição sem sentir que estava me sujeitando à loucura.
 
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A mulher me levou até um grupo de pessoas, incluindo ela e o garoto haviam 6. Entre eles não parecia haver um líder ou porta voz, estavam deteriorando, sentados em volta de uma fogueira, eles me olharam com apatia e desinteresse. Um homem mascava algo parecido com fumo, os dentes que restavam estavam podres em gengivas inchadas. As mãos daquelas pessoas estavam em carne viva, repletas de manchas grotescas. A mulher me acomodou próximo ao fogo, daquela proximidade era impossível olhar direto em seu rosto porque era algo tenebroso. Todos ali pareciam ter saído de histórias sobre criaturas de outra dimensão, a indiferença deles em relação a isso tornava tudo mais assustador.

Comi um pouco de folhas cozidas na fogueira, o gosto era nauseante mas a fome e a sede dilaceravam-me por dentro. Bebi toda água musgosa que me ofereceram com certa afobação e alívio. Encarei o rosto daqueles condenados e munido de uma energia renovada tentei buscar respostas.

“- O que aconteceu com você? Estão presos aqui há quanto tempo?”

O homem levantou as sobrancelhas na minha direção com um certo incômodo em relação à minha voz, ele tremia. Sua voz elevou-se em um grunhido oco preso na garganta.

“- Não lembramos mais. Não lembramos de mais nada e você também vai esquecer.”

Foi a vez de uma garota que parecia sofrer algum tipo de atrofia das pernas me dirigir sua atenção.

“- Esquecer tudo. Estamos doentes, não morremos, não vivemos, apenas esquecemos.”

“- Não sejam tão trágicos!” a potência da voz da velha me fez recuar para o canto e encolher mais assim como todos ali. Ela jogou uma manta fétida sobre mim, fiapos do que restara de um bonito tecido que vira alguns belos piqueniques no lado de cima.

“- Cubra, quando a noite chega é cruel... pode dormir, logo mais nos reuniremos para decidir.”

“Decidir?” apesar da manta o frio percorria-me os ossos, infiltrando cada parte de mim. Não vieram mais respostas, cai num sono pesado e nada renovador. As noções se mesclavam entre delírios de pesadelos e a certeza dos ruídos da gruta em volta. A materialidade digladiava com aquela situação impossível. Era como dormir entre bestas primais. Era como esquecer algo importante e não lembrar o que era, talvez a própria humanidade.
 
Não sei como eles sabiam quando os primeiros raios do sol chegavam. Lá embaixo estava sempre escuro, como novo membro daquele grupo permaneci quieto, aguardando. Ao abrir os olhos notei que eles retomavam seus lugares em volta das cinzas da fogueira. Antes eram 6, agora só restava 4. A velha me espreitava das sombras com seus olhos luzidios de bicho notívago.

“-Ontem à noite nós preparamos o café-da-manhã. “ escutei o suspiro do garoto, sua voz era chiada, ele me empurrou uma tigela improvisada numa peça de mármore contendo uma gosma sanguinolenta. Quando toquei naquilo se desmanchou entre meus dedos como fígado de boi cru, meu estômago rodopiou e agradeceu.

“- Que é isso?”

“-Comida” ele abocanhou um pouco do que tinha na própria tigela enquanto filetes de sangue escorriam por seu queixo curto.

Não tinha o que fazer, comi a iguaria sem pensar no que fazia. Depois da primeira mordida não parecia mais tão ruim. Durante um longo tempo estabeleceu-se um silêncio imóvel, apenas ruídos típicos do submundo da gruta ecoava ao longe. Meu tornozelo melhorava e me sentia mais forte a cada dia. Eles compartilhavam comida, água, mantas e o fogo. Conheciam aqueles labirintos secretos muito bem de uma maneira que eu jamais reconheceria. Ser inserido naquele ambiente foi algo involuntário, não resisti à minha situação, não lamentei ou questionei. Eles me acolheram e passei a fazer parte daquilo de uma maneira submissa e parasitária porque sabia que mais cedo ou mais tarde tudo teria um fim. Toda loucura tem que acabar em algum momento.
 
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Foram anos, não sei precisar quanto tempo passou desde minha queda. Convivíamos como familiares e eu já conhecia boa parte dos rituais que foram estabelecidos antes da minha inserção. Os indivíduos que tinham desaparecido com minha chegada, incluindo a garotinha atrofiada, simplesmente tinham servido como fonte de mantimentos por meses para os mais saudáveis do grupo. Essa era a principal pauta das reuniões noturnas: quem seria o próximo voluntário à mantimento.

A prática se tornou comum, algo que nunca poderia conceber antes – em meu outro estado de vida, na minha vida real e normal – porque a fome era a única força motivadora que conhecíamos. De todos do grupo a velha Eva sempre se mostrou mais apta e dura para aquele tipo de vida. Tinha autoridade em seus gestos e palavras, até o grandalhão Jones respeitava ela. Não sei se eram seus verdadeiros nomes, não conhecia aquelas pessoas apesar de viver com eles. Jamais seria um deles, simplesmente porque todos eles continuavam se deteriorando à medida que os dias passavam.

Minha força interna, aquela que me mantinha são, se concentrava na única determinação que alimentava desde que me perdi naqueles labirintos subterrâneos: eu iria sair, em algum momento, iria embora.
 
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Não seria fácil, sabia disso. Quanto mais o tempo passava era mais difícil, eu me esquecia até mesmo como era os movimentos necessários para levantar o corpo quando queria acordar, a mente foi se tornando um quadro branco que nada podia preencher, não havia lembranças de passados ou perspectivas de futuros. Certa noite tentei me lembrar o que fazia antes da gruta e nada veio, não sabia meu nome de batismo, o que fazia, o que gostava e como era o mundo lá em cima. O esquecimento às vezes era tão forte que se passava horas a fio encarando o nada das cinzas da fogueira, encarando a escuridão.

Deveria encontrar uma saída, não me esquecer disso. Não podia continuar resignado como aqueles condenados degenerados e decrépitos. Sabia que não podia contar com o bom senso de nenhum deles, mal sabiam comunicar-se, as palavras se perdiam em suas falas esquecidas e moles. Precisava ser discreto e encontrar as passagens que eles utilizavam cada vez que traziam água.

Foi durante o raiar de mais um dia que eu não sabia definir que vi a oportunidade surgir. O pequeno Gillian levantou e se preparou para encher baldes de água, sozinho. Nunca me candidatei a qualquer atividade, não fazia questão de me incorporar. Naquela manhã, portanto, todo plano estava traçado em minha mente.

“-Gillian, vou com você hoje” informei a ele ajudando com seus baldes pesados. O garoto me olhou abobado, seus olhos tinham sido corroídos por pequenas larvas que pareciam se contorcer em pústulas no lugar das orbes. Ele continuava caminhando como se enxergasse, tudo pelo costume de caminhar no escuro. Aquelas imagens grotescas se tornaram corriqueiras a ponto de não me causar nada.

O menino não emitiu resposta alguma, saiu gingando à frente e eu segui seus passos. Uma espécie de alívio me invadiu a alma me enchendo de força. Seguimos por estreitas passagens, o lugar era bem maior do que eu imaginava sempre. Prestei atenção a tudo em volta, cada rachadura, cada paredão, tentando encontrar alguma saída. Não havia nada além de morcegos voando aqui e ali. Por um momento me vi perdido. Gritei pelo menino e só recebi meu próprio eco de volta, a voz batendo pelas grutas, uma voz que não era mais minha.

Meu coração disparou, uma onda de fraqueza tomou conta de todos meus músculos. Até então nunca me sentira tão doente.

“-Você acha que pode ir embora? Acha que já não tentamos isso?”

A voz de Eva parecia se fundir com sua sombra nas longas paredes da gruta, Gillian se agarrava à sua mão, amedrontado por algo que vinha de mim.

“Você nos toma por tolos? Bob, você nos toma por bestas irracionais?”

“- Bob?” gritei na direção da velha que parecia mais encarquilhada ainda como uma árvore-humana.

“-Meu nome não é Bob! Saíam de perto de mim, me deixem em paz... eu quero ir embora! DEUS EU QUERO VER A LUZ DO DIA!”
 
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Correr. Correr e cair. Tropeçar e levantar. Assim me lancei na escuridão. Fugi de Eva e Gillian e dos outros decrépitos. Correndo sem parar até as pernas latejarem e esmorecerem ainda podia ouvir os ruídos de suas falas atrás de mim, murmúrios. Eles falavam e falavam e eu não conseguia captar nada de seus dialetos. Cai incontáveis vezes, rasguei mãos e joelhos na busca desenfreada por um pouco de ar, de luminosidade do dia, pela saída tão bem delimitada em minha mente.

Por fim eu me entreguei a última queda, respirando com imensa dificuldade a morte parecia a única forma de luz que existiria depois daquele cansaço. A mão da velha tocou meu rosto empapado de um suor frio e membranoso.

“-Bob, Bob... o que você fez consigo de novo? Por que continua tentando? Não percebe? Você é como nós. E nós apenas esquecemos”

Eva ergueu um espelho diante meu rosto, apenas o fragmento do que restara de um espelho pequeno de bolsa, algo que eles deviam manter ali dos tempos em que viviam lá em cima. Meu rosto no reflexo era uma máscara de escaras e pústulas, meus olhos pareciam duas bolas de fogo incandescente.

“- Por que? Por que aconteceu isso conosco?”

A velha me olhou sem qualquer traço de sentimento, eles olhavam sem olhar, como animais se entreolham, mesmo animais ainda refletem algum tipo de sentimento ao observar, aqueles seres não, eram despidos de qualquer tipo de emoção animal. Ela me olhou por um longo tempo deixando-se cair naquela contemplação vazia do silêncio e esquecimento.

“- Porque nós esquecemos.”
 
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 18/05/2017
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