Textos


A cabeça do artista


- Tome mais uma xícara de café. Coma mais um pedaço desse bolo, sirva-se, tudo isso preparei apenas para você. Em um mundo onde muitos morrem de fome desperdiçar comida não te parece um pecado? – 

Olhei em volta, ele continuava falando comigo. Provei do café e do bolo e não conseguia digerir mais nada. Tudo naquele lugar estava podre, tomado pelas pequenas larvas que se acumulam nos lixos. Ele lambia os dedos em um gesto repulsivo, sua língua parecia afiada, pontiaguda e bifurcada. 

- Não. Eu gostaria de ir para casa, por favor?– 

Eu sabia que deveria aguentar mais um pouco daquela tortura. Não que estivesse sendo ferido, não.  A tortura vinha do fato de parecer que estava enlouquecendo. Era um tipo de tortura mental, não abre feridas no corpo, mas faz a mente sangrar. Não queira saber que tipo de dor é essa. Os machucados que não podemos ver parecem ser piores. 

- Sua casa é aqui, sua função é colaborar comigo, campeão. –

Ele me fitou com olhos plúmbeos e um sorriso afiado. Tinha um rosto humano que se assemelhava a um bode no formato.

-Eu morri? Você é  um tipo de demônio, certo?– 

- Você acredita em demônios?– 

Ele soou divertido, colocou os pés sobre a mesa. Cascos fendidos. Se aquele não fosse um dos funcionários do inferno e se eu não estivesse morto, não sabia o que significava tudo aquilo. Talvez um sonho, o mesmo sonho que estava vivenciando há dias, uma vida toda.

- Bem…eu nunca acreditei até agora. – 

- Suponhamos que eu seja um, porque acha que só pode estar comigo aqui se estivesse morto?– 

- Porque… Assim que são as coisas, quando morremos vamos para o paraíso ou para o andar debaixo ou, pior, vagamos enternamente entre os dois. –

Ele inclinou um pouco a cabeça para o lado e pude ver parte da orelha pontiaguda. 

- Interessante, como pode saber o que há depois que se morre? –

-Não sei. É o que dizem, a bíblia e as religiões. Não dá para viver acreditando que depois disso não existe nada. Precisa existir... algo. –

- E se não existir? E se tudo que inventaram não passar de ilusões como são todas histórias contadas para crianças antes de dormirem?–

O café parecia estar esfriando à medida que a fumaça entre nós deixava de encobrir seu rosto lânguido, de certa forma bonito, lábios finos e esbranquiçados. Era como olhar para o rosto de um réptil, olhos protuberantes e atentos em algo além do foco que pareicam estar.

- Não sei, se tudo for mentira, o que é isso? Por quanto tempo estamos aqui conversando sobre coisas que não lembro mais no mesmo minuto que se passam... É um sonho, certo? Estou preso dentro de um pesadelo. - 

- Pode ser, ou não, é tudo uma questão de perspectivas. - 

Com um breve movimento ele abriu cortinas de veludo atrás de si, ali havia uma ampla janela de onde via passar inúmeras possibilidades existenciais em que eu era o centro de todas, o único portagonista. 

- Por que você me vê da forma que vê? - ele tinha uma expressão reflexiva para mim, algo mudou em seu rosto, algo familiar como o maxilar que era próprio de minha estirpe. Um parente ou algo do tipo, talvez meu próprio reflexo.

- Não sei, eu vejo o que vejo...-

- Dentro do seu limitado campo de experiências você projeta em mim o que traz em suas lembranças. Primeiro, o ideario acerca da figura dos demônios biblícos, depois, suas ideias infantis sobre homens com cabeça de repétil que comiam crianças à noite, e agora, o que vê?- 

Seus olhos entraram nos meus, atrás de si a janela parecia se tornar cada vez mais enfumaçada, fora de foco, míope. Eu o via, mas não conseguia definir seus traços, dentro daquela semblante só havia um abismo e o vácuo de um reconhecimento súbito: eu. Era eu mesmo, sim, em carne e osso e palavras, o reflexo dentro do espelho a janela das mil e uma perspectivas inalcançadas. O café esfriando na xícara e a certeza de que depois de 150 dias estaria eu relutante, inquiento e enlouquecido em busca de mim mesmo. 

Estou louco, padeço, enclausurado entre todos sons de violinos e pianos, músicas mortas, latim morto, traças e demonologias. Morto entre tradições e mitologias, entre o poder criativo e destrtutivo da escrita.

Morto em minha obra póstuma, aqui jaz a cabeça do artista. 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 14/05/2017
Alterado em 14/05/2017
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