Textos

Da série "contos de zumbis"


I
 
- Ela está morta, Stuart, por favor deixe-a – a mãe tentava fazer ele soltar o corpo de Anabel. Ele se agarrava à ela com força e determinação, sentia a pele fria tocando seu rosto, nem aquilo o fazia querer acreditar. O grande problema era deixa-la ir, soltar para que fosse embora para sempre. O grande problema era acreditar naquilo, acordar para a realidade dos fatos, ela estava morta e não podia fazer nada em relação a isso.

- Mãe, como isso foi acontecer? –

Nora não sabia embora sempre desconfiasse que Anabel parecia um tanto instável emocionalmente. Stuart cansou de chorar sobre o cadáver da esposa ao fim do dia. Nora guiou o filho até a sala onde alguns parentes estavam reunidos para dar apoio.

- No próximo sábado faríamos 10 anos de casados... – Stuart comentou para si mesmo, mas todos na sala trocaram olhares preocupados e permaneceram no silêncio respeitoso que a ocasião pedia.

- Dez anos, mãe... não estou falando de dez dias... – ele afastou a mãe como se ela estivesse o machucando ou fosse culpada pela dor que sentia. Stuart pegou um copo com duas pedras de gelo e despejou três doses de uísque, retomando assim seu ininterrupto regime de alcoolismo.  Ele tinha a sensação que sua vida tinha se esvaído junto com o último suspiro de Anabel.
 
II
 
- Quando você tenta dormir e não consegue, Stuart, é em Anabel que está pensando? –

Após dois meses do suicídio da esposa, Stuart sentia-se adoentado e dormente.

- Quase sempre estou pensando nela, Jonathan. Não são lembranças, é mais uma pergunta que não me deixa em paz “Por que ela foi fazer aquilo?”. Não está me analisando, certo? Vamos só tomar essas cervejas em paz... –

Stuart não gostava quando o irmão o tratava como um de seus pacientes, Jonathan acabara de abrir seu próprio consultório de psicologia, era bom no que fazia embora Stuart não confiasse em psicólogos, de fato, detestava-os.
- Irmão, não estou te analisando. Estou apenas tentando ajuda-lo, Stuart. O luto é um processo de etapas vagarosas e dolorosas que exigem sua atenção e paciência. Não precisa enfrentar isso sozinho, sabe disso. –

- E você vai passar por isso comigo? Tem como, Jonathan? Você consegue ter ideia da dor que alguém sente, não a dor física que sempre temos que saber mais ou menos a intensidade, mas essa dor psicológica? Essa que toma conta do cérebro e o invalida? Não, irmão, nem toda sua empatia aplicada nesse caso poderia te fazer ter a mínima ideia da dor que sinto. Não me venha com discursos de autoajuda e superação. Só me deixa sentir a falta dela. – Stuart tinha a voz embargada pelo choro que se negava a deixar sair. Respirou fundo e tomou o último gole da  cerveja a fim de acalmar sua revolta.

Jonathan cultivou o silêncio e compartilhou as cervejas com o irmão mais velho. Ficaram na área externa da casa de Stuart até o sol se pôr.

- Você já voltou ao túmulo dela... depois do enterro?-

Stuart olhou para ele, tinha os olhos vagos e cansados típicos dos semi alcoolizados, apenas sorriu em resposta.

- Eu me preocupo com suas reações. Há alguns meses recebi um paciente, um senhor de 60 anos, que se negava em admitir que a esposa estava morta. Ele criou uma fantasia em torno dela, chegou a cogitar a hipótese de desenterra-la acreditando que a tinham enterrado viva. –

Stuart olhou para o irmão de forma inexpressiva.

- Você não acha que eu esteja em estado de negação, né Jonathan? Porque eu sei perfeitamente que Anabel está morta e enterrada, que preferiu isso, escolheu isso, negou a continuar aqui... eu sei disso, irmão, e torna tudo pior porque eu sei que ela não vai mais voltar. –

As cervejas acabaram e eles se despediram. Jonathan voltara para sua cidadezinha pacata. Stuart continuaria perdido em pensamentos.
 
III
 
O que estava acontecendo? Stuart se perguntava a cada manhã que acordava com o incômodo sentimento que estava enlouquecendo. Os meses tinham passado e a dor permanecia inalterada e ele pouco a pouco perdia a memória. Jonathan e Nora não o visitavam mais. “Esse cheiro, Stuart, está insuportável, deveria chamar alguém logo para arrumar o esgoto”, foi a última coisa que sua mãe disse na última visita.

Stuart chamara, mas o homem não soube resolver o problema do esgoto porque não tinha problema nenhum e o odor só piorava. Agora, também tinham os insetos, moscas gordas e baratas enormes dominando a casa. Stuart telefonara para o irmão no meio de uma madrugada que fazia muito calor e as baratas caminhavam sobre seus pés.

- Jonathan, eu acho que estou enlouquecendo –

- Por que diz isso, Stuart? – a voz estava distante e sonolenta.

- Não me lembro de nada que faço no dia anterior ou há 5 meses... Estou com uma terrível falha na memória. Acordei agora tentando lembrar do rosto de Anabel e só consegui fazer isso olhando uma foto. –

O silêncio perdurou transmitiu à Stuart a sensação que falava sozinho, que tinha ligado para si mesmo, até que Jonathan falou.

- Stuart, eu gostaria de ajuda-lo, mas isso foge da minha alçada como terapeuta no momento. Posso acompanha-los a um psiquiatra e juntos podemos cuidar disso. A perda de Anabel associada ao seu alcoolismo, irmão...- ele parou de falar abruptamente para escutar os estranhos ruídos do outro lado da linha.

Jonathan assistia quase todos programas sobre vida selvagem quando era criança, queria ser biólogo e sair pelo mundo estudando os grandes felinos antes de descobrir sua vocação para reorientar a mente humana. Aqueles sons o fazia se lembrar dos grandes leopardos africanos se alimentando, eram selvagens, famintos.

- Stuart? O que é isso? Você está bem?  - ele gritava e recebia como resposta apenas os ruídos selvagens, o som indistinto de tecido sendo rasgado e respirações ofegantes entrecortadas. Jonathan saiu da cama e pegou a estrada para a casa do irmão sem se preocupar em trocar o pijama.
 
IV
 
Eram 3:30 quando Jonathan tocou o interfone. Tentou por três vezes e não recebeu retorno, ele notou que a porta estava encostada e entrou. A sala de entrada estava caótica, restos de comida podre atraía uma nuvem de moscas e larvas se aglomeravam afoitas em embalagens de comida congelada intocada. Jonathan cobriu o rosto com a camisa do pijama e avançou pelo corredor dos quartos.

O odor de podridão ali era tão intenso que ele se curvou sobre o próprio estômago e vomitou no chão à entrada da porta do quarto de Stuart. Quando se recompôs sentiu-se melhor mesmo com o suor frio escorrendo pela testa, pôde escutar os ruídos de leopardo vindos do quarto. Abriu a porta, vislumbrou o celular do irmão caído no meio da cama que estava coberta de sangue.

Os ruídos agora eram altos e molhados, ele lembrou de leões devorando as entranhas pastosas de antílopes, dentes contra dentes triturando carne. Jonathan permaneceu estagnado por um tempo até que vislumbrou do outro lado da cama o topo de uma cabeça loira. “É o cabelo de Anabel” pensou na hora, sabia que era os mesmos fios que os dela, os pés do irmão estavam inertes embaixo da mulher e o pior que ele podia supor: os ruídos vinham de dentro dela.

- Anabel? – Jonathan chamou baixo, queria acordar ou correr e nenhuma das duas coisas parecia possível no momento.

Ela girou a cabeça na direção da voz do cunhado, Anabel mastigava parte do rosto de Stuart, ele ainda gemia no chão, seus pés chutavam o ar, discretamente. O rosto dela era uma máscara decomposta de ossos e músculos soltos onde larvas rastejavam como as que ele vira minutos antes nas embalagens abandonadas na sala, ela não passava de comida estragada.

Antes de correr para longe dali, desesperado e atordoado, o único pensamento que cruzava sua mente deixando-a em frangalhos e traumatizada, despertando sua náusea e desorientação era a de que Stuart ainda gemia e respirava no chão do quarto. Aquela seria a única lembrança que lhe restaria nos próximos dias.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 30/04/2017
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