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Cidade subterrânea
 
O metrô corre para seu destino, Alice não sabe o motivo do seu desconforto, é uma espécie de pressentimento, o vagão vai parar, sofrer uma pane, algo ruim vai acontecer, ela tem certeza, por isso segura com discrição – quase constrangida – o colar com pingente de crucifixo.

- Meu nome é Alice, estou aqui hoje porque ... -  ela está na frente do grupo de apoio e não sabe o que precisa dizer, está bloqueada pela ideia fixa que algo vai acontecer no caminho de volta para casa.

- Sei como isso é difícil, Alice, mas precisa tentar – o homem que guia a reuniões a incentiva, ela pisca algumas vezes, pede desculpas e volta a se sentar. É seu terceiro dia no grupo e não consegue falar, por puro medo.

Após as falas do dia, eles oram de mãos dadas em um pequeno círculo. Não são muitos, naquele dia apareceram apenas 8 pessoas. Alice vai até uma mesa no canto da sala de reuniões da igreja e toma o café que alguém ficou responsável por levar.

- Alice, tem algo que queira compartilhar comigo?- Andrew toca seu ombro, ela começa a tremer.

- Não é nada, eu estou um pouco nervosa hoje –

- Com medo?- ele tem um sorriso relaxado e fácil, Alice pensa sempre que o vê que poderia, facilmente, ir para cama com Andrew se ele não fosse padre e sente mal por isso, teme também os próprios pensamentos.

- Sim, afinal, todos estamos aqui pelo medo...-

- A síndrome de pânico é um sintoma de algo maior, Alice. Estamos aqui para ajudar, mas precisa procurar apoio médico. Sozinha não vai conseguir superar, tentamos ao máximo ajudar como podemos, mas não somos Deus –

- Eu sei, padre, agradeço o cuidado que vem demonstrando ter por mim. Essa semana vou procurar um psiquiatra. –

Eles se despediram. É fim de tarde, o céu está escurecendo rápido, Alice acelera os passos na direção da estação do metrô. Quando ela desce os degraus sente as mãos frias, suor escorrendo pela testa e o coração disparado. O início de uma crise, a pressão arterial cai tanto que sente a familiar tontura e o corpo todo em trêmulos movimentos. “Está tudo bem” repete para si mesma em voz baixa, aquilo não tem efeito nenhum. A estação deserta aumenta sua sensação de que algo está errado ou que em breve vai dar errado. Alice cobre os ouvidos quando o vagão chega na plataforma. Pessoas descem apressadas sem olhar na sua direção, ela entra quando todos já desceram, se vê sozinha encarando o próprio reflexo no vidro da janela.

Estende as mãos à frente, trêmulas. Respira fundo algumas vezes e quando leva a mão ao crucifixo nota que ele não está mais em seu pescoço. Alice se levanta e começa a procurar pelo chão, é o último presente que a avó deixou em seu leito de morte, nunca tirava o cordão nem mesmo para tomar banho.

- Precisa de ajuda?- uma voz atrás dela quebra o zunir dos trilhos e interrompe a palpitação do seu coração por um momento. Ela encara o homem parado a alguns metros.

- Não, obrigada. – os olhos dele são estranhos, uma cor amarelada como folhas secas, mas o que causou má impressão em Alice foram seus lábios, ele tinha uma espécie de lábio leporino que deixava seu rosto errado.

- Está procurando o quê?-

- Nada que interesse o senhor... – não era do feitio dela ser ríspida com desconhecidos, principalmente com aqueles que tentavam ajudar, mas uma estranha irritação tomou conta dela e o intrometimento dele parecia não ter limites.

O homem aproximou e tocou os cabelos, sentindo a textura ao que parecia, pois, ele esfregou uma mecha entre os dedos asquerosos. Alice se afastou e olhou em volta, o tempo parecia ter parado ali dentro, o vagão parecia não se mover. Olhou para fora da janela e viu estranhas cadeias montanhosas manchadas por um marrom doentio puxado para o amarelo.

- O que é isso?- Alice notou que as mãos não tremiam mais, todos sintomas do surto de pânico tinham desaparecido. – O que é isso?- ela correu e fixou a atenção nas paisagens que passavam, alternando entre montanhas doentias e fios de lagos lamacentos. Ela podia ver estranhas criaturas vagando ao longe como se arrastassem os pés com dificuldade. Conhecia aquelas vielas e ruas, cada quarteirão era familiar, mas estava tudo modificado embora ela soubesse que estavam na sua cidade, parecia uma pintura de tela sobre tela.

- O que é isso?- virou para o estranho de lábio fendido, ele caminhava para longe, de costas, parecia que iria esperar para saltar na última porta do vagão. Alice correu e tocou seu ombro, sua forma era estranha, irreal, inumana. Assustada, ela deu alguns passos para trás, ele virou para ela, minutos antes das portas do vagão se abrirem.

Seu rosto era uma estranha máscara insecta, como a cabeça de uma formiga com antenas que se moviam ao som do grito dela e olhos negros gigantes e, de alguma forma, atentos, sábios. Alice gritou, não era um ruído que existe apenas em sonhos, aquilo era real. Ela estendeu as mãos à frente dos olhos, não tremiam.

O pânico alcançara um nível incomensurável, ela não sentia as pernas, estava dormente. Ele olhou-a por um tempo e desceu, Alice se viu em meio a um turbilhão de formigas-homens que entraram pelas portas, por todos lados, lotaram o vagão deixando o ar difícil. Os sons que faziam eram atordoantes, como se ela estivesse presa em um formigueiro em alguma cidade subterrânea esquecida. O que Alice mais lamentava naquela nova configuração enlouquecedora era que nunca conseguiria encontrar seu crucifixo em meio a todos aqueles seres, insuportavelmente, estranhos. 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 24/04/2017
Alterado em 24/04/2017
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