Textos

 
 
Jogo de sombras
 
A lua cheia reflete na parede da sala, sua luminosidade pode ser maior ainda do que a do sol, pois, tudo está no completo escuro quando ela chega. Sentado em frente a garrafas vazias e da televisão desligada, eu posso ver o movimento dos galhos das árvores lá fora através das suas projeções na parede. As sombras produzem um efeito louco, os galhos das árvores parecem braços, um emaranhado deles tentando me agarrar. É tudo ilusão de ótica, quando me viro e olho pela janela continuam sendo apenas árvores, nada mais.

Eu me levanto, não há nada mais para fazer, o sono não vem e preciso lutar contra a insônia que me arrasta para esse cansaço insuportável durante os dias. Vou para meu quarto, abro a gaveta do criado-mudo ao lado da cama, bebo dois dos meus soníferos e me preparo para dormir esse tipo de sono forçado. Ao me deitar, uma sensação ruim me assalta, tenho certeza que a porta da cozinha ficou aberta, posso visualizá-la escancarada convidando alguém indesejado a entrar. Alguém indesejado que não tem qualquer ligação com assaltantes ou algo do tipo, a minha inquietação vem de um medo irracional. Temo que algo obscuro entre pela porta escancarada, trazido pela luminosidade da lua cheia refletida nas paredes da sala. Algo que se alimenta do escuro, algo diabólico que não é humano, embora saiba imitar bem, se tornando uma caricatura humanoide de essência maligna.

Estou delirando, rememoro todos meus passos durante a noite, todos me levam à certeza que tranquei a porta, como faço todas as noites, mas a força do hábito não me deixa recordar com detalhes o momento que girei a chave. A automaticidade do ato não me permite ter a certeza necessária de que ele existiu. Zonzo pelo efeito dos soníferos eu vou até a cozinha checar minha suspeita. Quando chego na sala de estar observo os galhos das árvores nas paredes da sala, eles continuam parecendo braços longos e malignos, mas há algo mais que não se definir o que é, arrepios sobem por minha nuca. Alguém está ali comigo, mas continuo sozinho no centro da sala. Uma sensação perturbadora me atinge em cheio: alguém está me olhando.
Quando era criança gostava de brincar de jogo das sombras com meus irmãos mais velhos. O jogo consistia em cada um imitar um animal com as mãos projetando sombras na parede, precisávamos adivinhar que bicho era, outras vezes apenas passávamos as noites criando situações com nossas projeções nas paredes, como um teatro. Eram tempos bons, divertidos, que minha memória evocava agora por causa do estranho acontecimento que se desenrolou à minha frente.

Não consegui me deslocar até a cozinha para checar a porta, mas sabia que ela estava aberta, podia sentir a corrente de ar que vinha do lado de fora através dela, mais do que isso ainda sentia que estava sendo observado. Os galhos projetados na parede da sala não pareciam mais galhos, e sim, imagens intercaladas de estranhas formas diabólicas com bocas escancaradas e deformadas, além de chifres gigantes. Pareciam muito reais a ponto de fazer mal. Não estava disposta a permanecer ali, consegui sair do meu estado de paralisia e me virei para voltar para o quarto, caminhei incerto, sem olhar para trás ao mesmo tempo que uma necessidade urgente me fazia querer encarar as sombras nas paredes da sala para me certificar que aquilo tinha sido uma ilusão, um delírio.

Quando entrei no meu quarto notei que algo estava diferente. A princípio não sabia ao certo o que era, a configuração do cômodo parecia modificada de alguma forma e não sabia o porquê, onde estava a estranheza. Olhei em volta, a sensação de estar sendo observado intensificou ali. Sentei-me na cama e respirei fundo por três vez de olhos fechados, quando voltei a abri-los pude perceber o que estava diferente no quarto, eram as sombras nas paredes. Ali não entrava a luminosidade da lunar por conta das pesadas cortinas, e de onde aquelas sombras vinham? Como se projetavam ali? Intrigado, olhei em volta, elas formavam quase um balé, de vez em quando se moviam. Galhos de árvores, pensei, são apenas os galhos das árvores. Voltei a me deitar no meio da cama e me cobrir, senti o suor frio brotar na testa e aquela atordoante sensação só me fazia remexer na cama, meus tetos estavam grudados no teto onde se acumulava um grande número de sombras mescladas, parecia uma pintura sombria de formas negras.

Fechei os olhos, ignorando o compasso do meu coração acelerado e as mãos suando. Tentei pensar em algo corriqueiro, que me fizesse tirar aquela peso, aquele pavor infundado. Nada conseguia me acalmar, fechava e abria os olhos e toda vez que olhava para as paredes ou para o teto, aquelas formas tinham se deslocado se tornando representações medonhos como um teste de Rorschach bizarro.

- O que está acontecendo com minha cabeça? Devo estar sonhando... – sussurrei para mim mesmo ao me sentar na cama de novo, a inquietação tinha levado meu sono embora e a preocupação com a porta da cozinha tinha retornado.

 Levantei da cama, mas ao estender a mão para afastar a porta que estava entreaberta, ela fechou com violência. Olhei para trás, na certeza que encontraria alguém ali de pé, me olhando, mas só haviam sombras, uma dezena delas projetadas para fora do teto e das paredes, deslocando-se na minha direção. Garras horríveis de unhas afiadas me envolveram os calcanhares, pescoço e abdômen e fui aprisionado nesse abraço constritor, não podia gritar ou me mover, era como ser asfixiado por uma cobra gigante, mas eram apenas sombras, apenas delírio da minha mente, pelo menos era no que eu tentava me agarrar para não sucumbir. Não foi o suficiente, o pesadelo se tornou real, pouco a pouco as sombras deixaram o quarto negro e notei que entre elas havia uma bem delineada e estagnada no pandemônio de formas difusas, aquela sombra no centro do caos era minha projeção, minha sombra, antes de apagar completamente eu tive a impressão de ouvir ela gargalhando, mas o som parecia vir da minha garganta.
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 22/04/2017
Alterado em 22/04/2017
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