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Conto sussurrado

- Estamos aqui agora, não estamos? Sentados à beira do abismo encarando-o. Não falta alguma peça que encaixe? Não sente a total falta de sentido? Estamos aqui agora, encarando o salto, o fim derradeiro, a escolha entre a cruz e a espada, não estamos? –

A voz vinha de algum lugar no cemitério, da frondosa árvore em que ela estava escorada, lá dos céus, das lápides? Não sabia, mas ela estava em algum lugar e não a deixava se mover. A garota não tinha nome, ou não poderíamos saber qual era, sua história de vida não importa, e sim, como ela foi chegar até aquele estado.

- Eu vou te contar uma história breve, sussurrada, você não deve compartilhá-la com ninguém, precisa guardar só para você em algum lugar da sua mente que não corra o risco de ser apagada. Você pode fazer isso? –

Ela afirma, está com os olhos fechados, o braço sobre o rosto para evitar os raios de um sol frio do meio do inverno. Deitada ali no gramado do cemitério vazio, ela sente que os únicos que podem escutá-la são os mortos, fazem parte do mesmo universo, sente-se bem ali onde não há barulho e todos, simplesmente, dormem.

- Havia uma garota e ela era muito solitária, a solidão dela podia alcançar o mundo e atingir todas pessoas do planeta fazendo-as se sentirem tristes e agarradas aos próprios joelhos em quartos cheios de coisas insignificantes. Essa garota andava com ideias obscuras sobre a própria vida que desde sempre era uma espécie de morte diária. Ninguém sabia o que acontecia na sua cabeça, porque ninguém poderá saber o que os outros pensam de verdado, não é? Ela tentou pedir ajuda de uma forma ou de outra, em suas atitudes mesquinhas e autodestrutivas, em seu jeito indiferente e apático, em suas afirmações carregadas de ódio e desprezo. Ninguém podia escutá-la, porque ela gritava para dentro. A garota sussurrava toda noite antes de dormir para o travesseiro: eu preciso fazer algo, isso está me consumindo, me matando. O travesseiro não podia responder de volta, o que havia era apenas uma voz sussurrante vinda de algum lugar.

A minha voz, clara e musical, melodiosa e encantadoramente atordoante. –

Ela abriu os olhos tinha na mão uma arma, não importa onde conseguiu aquilo, a história não é sobre seus atos em vida, mas como tudo foi desaguar naquele mar de desespero.

- Você se sente como um naufrago sem esperança de ver terra firme. Um bandido fugindo de algum ato hediondo, mas o seu crime é ser você mesma, não tem como fugir disso, você sabe que não. Então, dia após dia, ano após ano, estamos juntas, percebe? Desde que nasceu eu estava lá sussurrando, te mesmerizando para o momento de agora. Toda sua vida foi uma linha reta indo de um objetivo a outro, acreditando que essa regularidade lhe traria algum tipo de sentido satisfatório. Não trouxe, você descobriu depois de muito tempo que tudo o que planejou foi em vão.

Só há o abismo e estamos olhando diretamente no seu centro. Ele te puxa, há uma certa força gravitacional que te arrasta para o centro negro dele. É como estar nas alturas e olhar para baixo, algo vai sempre te impelir a saltar, não é? Algo ou alguma voz sussurrante vivendo dentro dos seus miolos –
Há uma lápide diante de seus pés, está um distante, mas ela consegue ler a data de morte do cadáver descansado embaixo da terra. Não faz nem vinte dias que foi sepultado. Ela pensa nisso e algo acontece: a vontade de saltar acentua, sente inveja daquele monte de carne apodrecida sendo decomposta diariamente pelos vermes da terra.

- Seu momento chegou, não há saída, há? Nunca houve, todo seu jogo bem ensaiado de metas e conquistas foi por água abaixo, percebe? Nada valeu a pena, no fim das contas serão apenas lápides e epitáfios. –

A arma está dentro da boca, mas o dedo treme no gatilho. Ela chora, sente o gosto amargo do metal contra a língua, fecha os olhos e tenta pensar em algo, algo brilhante, agradável. O gosto de um chocolate quente, o cheiro do café no fim da tarde, a cama onde passou seus últimos anos se entregando ao sussurro constante por trás de todos pensamentos, ela pensa no único homem que amou e nunca mais a procurou. Nas viagens que não fez, nos amigos que não conheceu, nas festas que deixou de ir, nas oportunidades que jogou no lixo, nas dores, pequenas gotas de alegria que conquistava no dia-a-dia. Nos seus calçados bagunçados no armário, nas roupas jogadas pelo chão. Os cadernos preenchidos pela metade, tudo que nunca fez e sempre sonhou. Nas suas músicas preferidas que nunca mais tocarão, no cheiro de terra molhada em dias chuvosos. Ela treme mais ainda o dedo no gatilho, o sussurro se calou.

Silêncio.
Paz.

A arma descansa ao lado do corpo recém tornado cadáver, fumegando o cano depois do disparo. Ela continua lembrando, mesmo de olhos fechados, de todas essas coisas.

O sussurro se torna um redemoinho de sons que não podem ser alcançados.
O que é a eternidade? Se não o conjunto de todos pensamentos acumulados durante a brevidade de uma vida.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 19/04/2017
Alterado em 19/04/2017
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