Textos


Do avesso
 
A história que vou contar poucos gostariam de ouvir, poucos parariam para prestar atenção, quase ninguém acreditaria. A maioria das pessoas foge do que é feio, mas não tem como evitar nosso lado mais horrível quando ele resolve aparecer. Não há truque, maquiagem, distração, nada que possa disfarçar a feiura quando ela se manifesta. Não, claro que não tem como, todos somos feios, não importa o quanto nos digam sobre nossos potenciais, no fim das contas não passamos de coisinhas desajeitadas tentando algum acerto, almejando atenção, implorando por reconhecimento. Digo nós porque me incluo nessa dança, não tem como fugir disso, pelo menos não tinha até o dia que conheci uma outra realidade. Você não vai acreditar, mas não posso esperar muito de alguém que acredita ser especial. Se sua mente for aberta o suficiente pode ser que considere tudo o que ler como verdade, provavelmente vai até procurar atrás das portas da sua casa por algo parecido. Não importa, acredite ou não, eu tenho algo muito sério a revelar só preciso que continue comigo.

 
Eu tinha perdido meu filho naquela casa, continuei vivendo lá porque não tinha para onde ir, não queria me livrar das lembranças porque sempre compreendi que são as únicas que nos restam de quem vai embora. Então, me agarrei a elas como um homem doente se agarra aos remédios, à alguma esperança de cura. No início, tudo é dormência, você sabe que existe a dor, ela está ali presente em cada movimento seu, mas há essa dormência, fazemos tudo que devemos, mas não há qualquer tipo de ligação entre nós e nossos atos, funcionamos em modo automático. Depois da dormência a ferida estoura e saí pus e sangue para todo lado. A ausência se torna um peso impossível de carregar, mas carregamos. Sofrer é feio, é cheio de lágrimas e pensamentos ruins, não é bonito sofrer a menos que o sofrimento se torne arte.

Antes das grandes pedras da minha vida, minha esposa morreu de tuberculose, depois Evan morreu de maneira misteriosa, mas todos culparam a babá com quem costumava deixa-lo quando viajava. Ela tampouco soube dizer o que causou seu colapso, e eu acreditei em sua inocência, mas ela foi julgada e condenada por ter matado meu filho asfixiado. Precisamos de um culpado, sempre será assim, e sempre acharemos algum candidato para a culpa. O que é um tremendo alívio quando não somos nós mesmos. Como estava dizendo, antes das minhas grandes perdas costumava ser um pintor renomado. A minha carreira estava no auge quando Evan simplesmente desistiu de respirar, depois disso, passei a questionar minha arte e seu papel em minha vida.

Antes pintava por reconhecimento, fama e dinheiro, agora o que me faz levantar e manchar uma dela é apenas uma coisa: a dor, e ela é feia e produz coisas feias. Observo minhas telas espalhadas pelo ateliê e só vejo desarmonia e produções horríveis, cores soturnas e sem vida. Isso não é arte, isso é a morte impregnando tudo.

Estava no terceiro estágio do luto quando as coisas começaram a se perder de vez. O terceiro estágio da superação, do seguir em frente, cabeça erguida, tudo voltando ao seu lugar. Tinha conhecido essa cantora, uma mulher incrível, raciocínio rápido, belas curvas e uma personalidade arredia que não aceitava amparo ou opiniões. Diana mudou minha vida, mas nem sempre estamos preparados para as boas mudanças que se tornam ruins de uma forma inexplicável.

Diana passou a pernoitar em casa e minha arte saiu das trevas e passou a se referir à sua beleza de ninfa. Ela era doze anos mais jovem que eu, cheia de sonhos e energia, de alguma forma eu bebi da sua jovialidade, me sentia capaz, cheio de vida e até tinha me esquecido das grandes perdas. Afinal, não foram tão grandes assim. Eu me apaixonei de tal forma que o único lugar onde encontrava algum sentido para vida era nos braços dela, minha interprete. Quando a vi pela primeira vez no palco do bar que costumava frequentar e afogar no álcool minhas dores, eu tive uma espécie de epifania, Diana não parecia uma mulher quando cantava, ela se tornava uma musa, seu canto era celestial, forte e emotivo, me despertou as mais estranhas sensações e sentimentos.

Foi numa noite que Diana entrou no meu ateliê pela madrugada que tudo mudou. Acordei e estendi a mão procurando pelo seu corpo que não estava ali. Quando levantei notei a luz do ateliê acesa e corri até lá. Diana estava em pé na frente à última tela em que retratava ela despida, deitada em minha cama fumando seu cachimbo. Seus olhos estavam brilhantes, embevecidos e cheios de ternura.

“Isso é a coisa mais maravilhosa que já vi”. Não gostava que mexessem em minhas obras, que entrassem ali sem minha permissão, estava disposto a lhe dar uma lição, gritar, ofender, mas diante seu rosto angelical, os olhos muito grandes e negros e aquela voz melodiosa eu me rendi e apenas a abracei. “Gostou da tela?” lhe perguntei, respirando fundo o aroma de gerânios daqueles fios negros “Não. Digo, eu sou a coisa mais maravilhosa de todo quadro, não gosto da sua arte, e sabe disso, mas nessa tela você se superou por estar me retratando!”.

Por um momento, senti meus pés perderam o chão, as pernas se tornaram fracas e quase cai. Uma onda de fúria me entorpeceu. “Sei que fica zangado quando alguém fala assim da sua pintura, mas preciso te mostrar algo que vai fazê-lo se tornar melhor, vai fazê-lo abrir a mente...” ela me pegou pela mão e me levou de volta ao quarto. Lá, ela se virou, eu pude notar suas mãos se movendo sobre o rosto como se estivesse retirando a maquiagem. Quando Diana se virou, que assombro!!

Seu rosto era uma máscara horrível de escaras, olhos ocos e carcomidos. Ela simplesmente era a criatura mais nojenta e asquerosa que já pude conhecer. Não era apenas isso, algo mudou na configuração do quarto, como se tivesse bebido mais do que deveria e estivesse dentro de um delírio tremulo. As paredes se afastaram nos deixando a sós em meio a uma vastidão de quarto. A cama estava tão longe, quilômetros de distância. Diana foi caminhando devagar em minha direção, eu sai correndo, assustado em puro desespero. Tentei alcançar a porta do quarto, mas ela fugia de mim como acontece nos sonhos, mas não estava sonhando eu sabia disso porque Diana tocou meu ombro e abriu sua boca murcha, desprovida de dentes, a língua cheia de feridas saiu procurando por minha boca. Gritei e a empurrei. Queria mata-la, espanca-la até a morte, uma coisa tão medonha não merecia sequer estar viva.

Voltei a correr, a porta se tornava mais distante e eu preso em um universo onde tudo era apenas feiura. A cama, as paredes, o tapete, tudo tão gasto, feio, de mau gosto, tudo me incitava ao ódio, ao desconcerto e frustração. Era como estar preso no mais feio dos quadros já criados. Diana parecia chorar, suas lágrimas desciam como ácido sulfúrico pelo rosto abrindo vincos sanguinolentos. Senti compaixão, mas o asco era maior, implorei para que ela ficasse longe e me deixasse em paz.

“Isso é a realidade, você esteve vivendo tempo demais preso a um mundo ideal, onírico” a voz dela fazia chiados horríveis por causa da falta de dentes “isso é o que é real, você vivia na mais pura ilusão dos sentidos”. Diana balançava a cabeça e lamentava, eu sentia todos meus ossos doerem, o corpo queria cair e morrer. “Quem matou Evan?” algo naquilo tudo me dizia que a morte do meu filho tinha algo a ver com a louca experiência pela qual passava. “Quem matou Evan? “ Diana olhou em volta, seu couro cabeludo não passava de uma catástrofe de feridas abertas e poucos fios de cabelos espalhados. “Isso o matou, assim como vai te matar se continuar negando o que vê.”

Asfixia, Evan tinha morrido por uma falta de ar. Meu coração estava batendo tão lento, tudo girava e girava, não podia respirar sem aquele peso nos pulmões. “Eu aceito o que vejo, mesmo que não faça diferença agora, viver ou morrer”. Diana expandiu os lábios fendidos em um sorriso inconcebível e me agarrou em abraço asqueroso, ela fedia a coisas decompostas, estragadas, matéria em decomposição, eu também aceitei isso.

O quarto pareceu voltar ao normal, mas a porta estava tão longe ainda quando consegui alcança-la e sair com Diana agarra a mim: o mundo era apenas coisas tortas, disformes e meio-cambaleantes. “Você passou a vida toda enxergando as coisas do avesso” murmurou Diana ao me levar para o ateliê, todas minhas produções, as melhores delas, vencedoras de prêmios, as mais queridas dos críticos, as mais caras não passavam de um punhado de lixo, horríveis composições de mau gosto. “Eu achei que era um dos melhores pintores desse século... todos me diziam isso”, Diana voltou a sorrir de forma horrível e incômoda “Você passou a vida toda enxergando e acreditando nas coisas do avesso”.
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 15/04/2017
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