Textos


Valsa dos mortos

Ao som de Lanner os convidados dançam. A valsa segue perfeita, cada um executando seu passo de forma harmoniosa. Cheguei ali um pouco perdido, não sabia que seriam tantos convidados, que estaria cheio, nunca me senti confortável em lugares cheios, mas lá estava. 

Tinha a esperança de reencontrar Isabel, depois da última noite que passamos juntos não conseguia parar de pensar nela e sobre ela. A misteriosa garota com máscara sobre os olhos azuis. Que rosto será ela teria? Não a encontrei naquela noite, algo muito estranho acabou acontecendo e tudo se desmanchou. 

Já ouviu a expressão "perder o fio da meada"? Eu me sentia assim quando entrei no salão, tinha a intenção de procurar o anfitrião da festa, meu primo em segundo grau, Matteo, mas não o encontrei em lugar nenhum. Ao invés de contnuar procurando, bem, perdi o fio da meada, não sabia mais os motivos que tinham me levado ate ali.

O casarão pareceu-me diferente do habitual. Não estava familiarizado com nada, não podia ver os rostos dos convidados que dançavam as valsas que aumentavam o ritmo de forma enlouquecedora. O salão estava tão cheio que ficou difícil caminhar. Parei, entre aquele amontoado de pessoas valsando para lá e para cá julguei ter visto o rosto de Isabel me fitando entre a massa de pessoas. Uma máscara preta cobrindo olhos azuis, um relance, fragmento de lembrança da maravilhosa noite no bordel.

- Isabel?- chamei e fui ao seu encontro, toquei o ombro dela que dançava com um senhor alto, através da sua máscara eu podia notar que cultivava um bigode. Ele usava uma máscara sobre os olhos toda feita de penas de corvo, pareciam tão reais. A mulher virou quando toquei sem ombro, não era Isabel, aqueles olhos eram verdes e a máscara de um roxo fechado. 

Continuei perambulando, retirei minha máscara para poder enxergar melhor. Eles não paravam de dançar, os passos mais rápidos, as valsas mais frenéticas. A tontura estava ali, era a única coisa familiar em meio a tudo aquilo.

Eu usava ópio com frequência nos últimos dias. Antes de ir para o casarão do meu primo, tinha fumado uma boa quantidade, apenas para relaxar, não tinha uma reação como essa há anos. Todos pararam de dançar e se viraram para mim. Milhares de rostos semi-cobertos por máscaras de todos tipos. As piores eram aquelas negras feitas de penas, muitos usavam elas. 

Gritei o nome de Isabel por tantas vezes, eles continuaram me fitando, imóveis, a valsa estava longe e parecia ecoar de outra dimensão. Em um movimento ritimado todos avançaram sobre mim. Todos convidados me atacaram. Senti o corpo cair com o impacto de mil corpos contra mim puxando as vestes, cabelos e pele. As bocas eram presas e as mãos rasgavam tudo que viam pela frente. Minha pele ficou em frangalhos. A última coisa da qual me lembro foi de ver o rosto de Isabel por trás da massa de insanos convidados, ela caminhava plena, alheia a tudo aquilo, me fitando por trás da sua máscara felina, os olhos azuis que jamais esqueci, faíscavam em delírio. 

Não podia ser efeito do ópio, pois, estou morto, largado e despedaçado no centro de um salão vazio. 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 13/04/2017
Alterado em 13/04/2017
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