Textos


 
Carona infernal

 
Caminhando pela autoestrada por tempo indeterminado, o viajante sente as bolhas arrebentarem no interior do tênis. Ninguém para quando ele estende a mão e levanta o polegar, gesto que desistiu de fazer horas atrás. Ele caminha com as mãos nos bolsos e a mochila nas costas. Não sabe ao certo em que ponto da estrada atrás de si sua moto está jogada, toda quebrada e inutilizável. Não foi um acidente, ela simplesmente engasgou e parou de funcionar deixando ao léu numa rodovia quase deserta à noite. Passou a caminhar na certeza que logo encontraria alguém para ajuda-lo a chegar no posto mais próximo. Os poucos que passavam não paravam, alguns jogavam farol alto direto nos seus olhos, talvez só pelo prazer de atordoa-lo ainda mais.

O caminhante tinha desistido de uma carona e foi então que ela surgiu, quando não se esforçava mais em consegui-la. Um carro diminuiu a velocidade e encostou ao lado dele, era um antigo modelo de Opala Comorodo preto, as janelas eram escuras, parecia uma dessa relíquias sobre quatro rodas. O caminhante parou e encarou o vidro escuro do motorista, ele começou a descer com lentidão.

- Precisando de carona?- disse um par de olhos através de uma fresta na janela.

- Sim... –

O motorista subiu a janela e lá de dentro a voz ecoou.

- Entra atrás. –

O carro tinha 4 portas, detalhe que o caminhante não tinha notado, estava embasbacado com a beleza do reluzir da tintura do carro e seu bom estado de conservação. Ele entrou no banco de trás, colocou a mochila no colo e respirou fundo. O cansaço enfim podia tomar conta de todo seu corpo.

- Obrigado por ter parado, estou andando há mais de 2 horas, minha moto quebrou lá atrás... achei que tinha passado por um posto apenas alguns minutos antes disso acontecer, mas nunca mais cheguei a esse posto... –

O motorista olhou pelo espelho retrovisor, os olhos deles se encontraram. O caminhante notou que eram olhos negros e desconfiados.

- Para onde quer ir?- perguntou o motorista ignorando a história dele sobre a moto e tudo mais.

- Pode me deixar no primeiro posto, preciso fazer uma ligação e não tenho mais bateria no celular. Lá encontro ajuda. –

O carro deslizava pela autoestrada em uma velocidade constante, não corria, estava lento o que aumentou o estado de nervos do passageiro.
- Cara, não quero te atrapalhar nem nada, mas você poderia aumentar a velocidade? Estamos numa rodovia. –

- Calma, logo a velocidade vai aumentar. Você vai até sentir falta dessa lentidão –

O rapaz fitou os olhos pelo retrovisor de novo, mas agora ele tinha óculos escuros, era noite e ele temeu acontecer algo porque o motorista simplesmente usava óculos escuros em uma estrada escura.

- Para onde você está indo? – tentou emplacar uma conversa com o motorista a fim de disfarçar seu incômodo.

- Eu? – o motorista deu uma risada chiada que fez o passageiro acreditar que era um fumante, sua voz era áspera.  – Para qualquer lugar, sabe... eu só estou rodando por aí, em busca de pessoas que precisam de carona. –

Sem entender o que o homem atrás do volante queria dizer com suas mensagens sem sentido, o rapaz deu um tapinha no ombro dele.

- Pode me deixar por aqui, cara, acho que consigo me virar daqui para frente. –
A verdade é que começou a se sentir muito desconfortável ali atrás onde não podia ter uma visão completa do rosto do homem. Ele deslocou para o lado na intenção de sair quando ele parasse o carro. Não foi isso que aconteceu. O carro não estacionou no acostamento, o motorista aumentou a velocidade de maneira súbita levando o ponteiro do Comodoro quase saltar da velocímetro.

- Segura no banco, cowboy! – ele urrou em alegria  insana.

O rapaz se espremeu no canto do carro, daquele ângulo podia ver o perfil do motorista: seu maxilar não passava de uma caveira sem pele, a boca que ria descontroladamente parecia descolada, a arcada dentária fazia movimentos chacoalhantes ao rir daquela forma.

- Pelo amor... de Deus. -  o rapaz gritou e tentou abrir a porta, estava trancada por fora. Ele continuou gritando, a velocidade era tanto que podia sentir os ouvidos zumbidos como se estivesse em um avião que levantasse voo.

O carro voo pela estrada, literalmente. Por uma fração de segundos as rodas saíram do chão e ele saltou sobre algo que o rapaz não conseguiu ver o que era. Lá fora tudo estava muito escuro. Ele fechou os olhos na expectativa de uma pancada, na expectativa da morte. Quando abriu-os o carro estava parado, a porta do motorista estava aberta e o seu banco vazio. O rapaz saiu e se deparou com um lugar onde os urros ecoavam em um céu avermelhado do fim de tarde.

- Que diabos é isso... – ele encostou no carro, sentia-se zonzo e perdido. O cansaço era insuportável.

- Bem-vindo ao inferno, cowboy! A diversão está apenas começando. – a voz veio da frente do carro que estava com o capô levantado, quando ele caiu fazendo o ruído ecoar e se misturar aos lamentos sussurrantes, o motorista sorria com seus dentes de caveira, olhos pequenos e pretos de suíno estavam fixos no rapaz.

 
- Acho que chegamos no seu posto de parada, hã?- ele soltou seu uivo em forma de riso ensandecido.
 

A manhã chega e o sol ilumina a autoestrada. Jogado à beira da estrada uma moto retorcida e um corpo desconjuntado, está caído numa posição tão impossível que parece feito de borracha. Os urubus sobrevoam o céu em sua dança da morte, ávidos pelo desjejum. O motoqueiro caminha, afastando-se da sua moto, decide pedir carona até o próximo posto.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 13/04/2017
Alterado em 13/04/2017
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