Textos

 
O Quadro

Quando se é um fugitivo todos olhos parecem ser perscrutadores. F. sentia-se observado e analisado ao entrar no hall do King Edgar Hotel, ele não passava de um trambiqueiro vulgar dado a todo tipo de calhordices como aquela: furtar uma obra de arte valiosa do museu onde trabalhava como vigia. Seus passos o guiaram até o hotel por puro instinto de desespero. Atribulado, após realizado o furto se enfiou ali. Em seus planos não tinha definido o local para se esconder até a hora que seu voo para Europa fosse sair dali a dois dias. Tudo o que ele precisava fazer era se manter fora de vista, bem quieto em algum dos quartos do Edgar Hotel.

Ele segurava o quadro debaixo do braço enquanto o recepcionista lhe mostrava as chaves dos quartos vagos no painel. Tudo girava, F. não conseguia escutar o que o funcionário dizia, sua cabeça estava zonza e ele suava em bicas.

- Qualquer um serve. – F. exclamou impaciente.

O recepcionista tinha um olhar desconfiado e astuto sobre F. que ele ignorou, estava olhando em volta, inseguro e aflito.

- Aqui está – o funcionário lhe entregou o chaveiro do quarto 175, e para lá F. se dirigiu apressando os passos até o elevador.

O trajeto até o 17º andar pareceu durar uma eternidade. Houve apenas uma parada no 11º andar onde uma mulher trajando vestes sociais negras e dona de cabelos dourados cintilantes entrou, F. observou ela por um momento, seu perfume era inebriante e por um átimo ele sentiu-se atraído pela jovem, mas manteve o olhar focado nos números que alternavam, lentamente. Ela olhou para o recém-chegado e deu um belo sorriso amistoso, F. julgou ter visto algo malicioso naquela expressão e resolveu dar o crédito a sua mente conturbada. Ele a cumprimentou com um discreto aceno de cabeça, as gotas de suor escorriam por sua testa e sua palidez era doentia.

- Está se sentindo bem, querido?- ela perguntou em um tom suave.

- Sim... sim. – ele tinha os olhos cravados nos números do elevador que pararam no seu andar. F. saltou não sem antes olhar sobre o ombro para a bela figura feminina que desaparecia atrás das portas do elevador, ela mantinha ainda o sorriso amistoso de quem sabe algo. “É só sua cabeça lhe pregando peças, idiota...” murmurou para si mesmo.

Ao entrar no quarto se sentiu aliviado, conseguiu normalizar a respiração. Encostou o quadro furtado no canto da antessala e foi tomar banho. F. demorou a fazer o chuveiro funcionar, os ruídos do encanamento atrás da parede do banheiro eram tantos que por um momento ele cogitou ligar na recepção e solicitar mudança de quarto, mas o chuveiro cuspiu a princípio uma água lamacenta e fétida que fez ele saltar para fora do box.

– Que merda é essa.. – F. observou a água negra escorrer pelo ralo, isso durou apenas alguns segundos, logo ele estava terminando de tomar um banho frio.

Os ruídos dos canos prosseguiram mais altos, mas ele ignorou aquilo e não se incomodou com o fato do seu quarto parecer defeituoso, estava escondido e isso era o suficiente.

A tensão da fuga dera lugar ao relaxamento, depois do banho frio, F. saiu e encheu um copo de whisky sobre o frigobar, olhou em volta, seu coração por um momento quase saltou pela boca, o quadro não estava mais onde havia encostado e sim pendurado na parede, trocado com o outro que havia na decoração. Seus olhos avaliaram aquilo e sua mente tentou captar o sentido daquela troca.

Ele olhou para a porta do quarto, estava trancada como tinha deixado. Quem teria feito aquilo? Era tudo que F. se perguntava ao aproximar os passos da antessala e encarar a imagem borrada típica das pinturas de Hansen. No quadro três formas humanas se mesclavam em cores sóbrias, o rosto da pessoa que se encontrava na parte inferior da tela, como se estivesse deitada, parecia encará-lo com sua face sem expressão. “A Família” nome da obra gravado na moldura embaralhou-se nas vistas de F. que forçou a visão para ler e só conseguia enxergar estranhos caracteres orientais. Aquilo não fazia sentido, julgou ser efeito da tensão pela qual passara associada aos goles de whisky mesmo sendo um alcoólatrra inveterado  era a única explicação racional para o que estava vivenciando.

Definitivamente F. não gostava daquele quarto. Afastou da antessala e se colocou de pé diante o telefone ao lado da cama de casal. O papel de parede tinha uma tonalidade amarelada doentia, pequenas flores cobriam-no combinando com a manta que forrava a cama, também de um amarelo pastel que o deixava nauseado, lembrava-lhe a cor do seu próprio vômito nas madrugadas em que bebia demais. No momento que tocou no telefone para ligar na recepção escutou duas batidas na porta do quarto.

- Não quero serviço nenhum! – gritou impaciente. Seus nervos voltaram a ficar tensos, o suor frio escorria pela testa.

Ficou assim por alguns minutos, paralisado, segurando o telefone na mão, esperando que insistissem nas batidas, mas nada aconteceu além do silêncio no lugar. Nem mesmo podia ouvir os carros passando do lado de fora na movimentada avenida. Seus olhos voltaram a cair sobre o quadro no centro da antessala. F. soltou o gancho do telefone, sentiu o coração bater mais rápido, quase explodindo: as formas no quadro tinham se alterado, ele tinha absoluta certeza.

Correu até lá e avaliou o quadro passando os dedos sobre as três pessoas representadas ali numa dança simbiótica em que se fundiam, seus rostos manchados pareciam derreter, mas eles riam. Ele podia ver claramente bocas naqueles rostos que até então eram disformes, não haviam sorrisos ali antes. “Estou enlouquecendo, é isso. Eu preciso só dormir” foi o que F. pensou ao afastar novamente e sentar na beira da cama, o copo de whisky tremia em sua mão, evitou olhar pro quadro, mas certo magnetismo o puxava de volta e ele estava dali da cama observando as formas, tentando captar o momento exato que se moviam.

Transcorridas algumas horas, F. não notou quando tinha caído num sono pesado e inquieto. Imagens de pessoas disformes se alternavam em seu sonho, ele estava entre elas, sendo prensado, elas o envolviam eu seus abraços pastosos de tinta óleo e o sufocavam com suas vozes. Ele afundava os pés num lamaçal pegajoso enquanto aquelas estranhas figuras sem rosto se aglomeravam à sua volta como num ritual, rodas de ciranda que se multiplicavam para fazê-lo ser soterrado por aquela lama. Ele abriu lenta e dolorosamente os olhos, a cabeça latejava em todos os lugares, um rosto difuso se formou diante seus olhos, acima dele, observando com olhos curiosos. Um rosto de mulher, a do elevador, sua memória o assaltou de chofre. F. em um salto se colocou sentado a observá-la sem saber se aquilo fazia parte do pesadelo ou se era real. Realidade e delírios se confundiam agora, ele levantou e encostou na parede. Ela permanecia ali parada em seus trajes sociais negros que davam a ela um ar respeitável e sensual ao mesmo tempo. Os longos cabelos loiros caíam em cascata pelos ombros.

- Eu vim conferir se estava bem, Felix. – ela sussurrou.

- Como sabe meu nome? Quem é você? – ele comprimia mais as costas na parede, como se pudesse entrar nela e desaparecer.

- Eu posso fazê-lo ficar bem. – a misteriosa figura feminina começou então a desabotoar seu paletó mostrando a pele pálida nua.

F. virou o rosto e quando abriu os olhos estava na cama despertando da estranha experiência. Encharcado de suor frio e pegajoso, ele sentia como se a cama o engolisse, a sensação de vertigem o atacou e o fez vomitar ali no carpete. A cor amarelada do vômito combinava com a decoração do quarto e isso o deixou mais tonto ainda. De imediato, olhou para o quadro, estava ali inerte, apenas um objeto inanimado, mas o magnetismo que exercia nele era indescritível. Felix se levantou e foi até lá, as formas estavam com suas bocas manchadas para baixo em caretas horríveis de tristeza.

. Sentiu uma espécie de tontura atingi-lo em cheio como se algo contundente o golpeasse no centro da testa. Delirante, Felix apoiou as mãos nas laterais do quadro para se equilibrar e foi tragado.

Uma centena de vozes ecoaram em sua mente, ele parecia cair vertiginosamente em uma série de espirais que se sobrepunham. Aquelas vozes murmurantes diziam coisas desconexas, sentenças em uma língua morta, assemelhavam-se a cânticos gregorianos. F. mergulhava assim numa existência irreal, as formas pintadas no quadro furtado do pintor Svend Wiig Hansen o acolheram em um abraço constritor, as faces se desmanchavam e os sons saiam de suas bocas tristes. Ele sentia-se sufocado, os pulmões pareciam cada vez menores e o coração batia lenta e dolorosamente. F. lembrou-se da infância em que era obrigado a frequentar as missas dominicais com os avós, sentiu-se transportado para aquele período envolto nos abraços das três figuras do quadro.  

O quarto 175 não era mais um quarto e sim uma sala de aula, F. via os alunos sentados, obedientes, fitando a figura de um homem de bata negra, um clérigo ou algo do tipo. A presença de F. não era perceptível, como se ele fosse o figurante de um pesadelo que não era dele. As crianças foram as únicas que o notaram caminhar entre as carteiras, mas quando viraram os rostos tinham as expressões borradas e melancólicas das figuras no quadro.

“A LOUCURA” ele tentou gritar “ELA ME PEGOU DE JEITO” tudo o que conseguiu foi ficar ainda mais sufocado, aquela cena se desfez em um borrão de tinta e F. estava novamente caindo e caindo, a vertigem tomando conta de seus sentidos enquanto despencava, ininterruptamente, nos braços das figuras no quadro.

A noite caía quando o zelador girou a chave e entrou no 175, o quarto estava impecável, nada fora do lugar, a não ser uma mochila abandonado aos pés da cama e um quadro que não pertencia ao hotel pendurado na parede da antessala. Nele três figuras se mesclavam em uma dança simbiótica, mas ali havia um elemento a mais, um quarto rosto em desespero no fundo de toda cena, parecia gritar com as mãos sobre as têmporas, um rosto borrado e aflito muito semelhante ao de F. O zelador recolheu a mochila com a familiaridade do absurdo que cercava King Edgar Hotel, onde as pessoas às vezes simplesmente desapareciam.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 10/04/2017
Alterado em 10/04/2017
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