Textos


A Solidão do monstros
 
Deus, em sua piedade, fez o homem belo e sedutor, à sua imagem e semelhança. Mas você me fez à imagem e semelhança do demônio. O próprio Satã tinha outros demônios como companheiros de abominação. Mas você me condenou a ser abominável e só.
(Frankenstein – Mary Shelley)
 
 
Escrevo essas palavras porque não me resta mais nada a fazer além do meu diletantismo. As madrugadas de dolorosa insônia servem de combustível. Quem sofre de insônia sabe a dor de não conseguir dormir e amanhecer vagando como um cadáver que se recusa a morrer mantendo os olhos abertos, mas a mente dissipada com a primeira hora da manhã não funciona, permanece em ponto morto, desativada.

Escrevo logo existo. Na minha longa trajetória de fracassos, insônias e consumo excessivo de álcool escrever é a única coisa que faz sentido, que me faz sentir dentro de uma normalidade aceitável. Estou pensando em algo que não sei bem o que é, mas dói. Para evitar ingerir uma dose letal de remédios de dormir somados a generosos goles de whisky, começo a imaginar uma outra existência em que eu não seja o monstro vil, e sim, qualquer coisa que se assemelhe a um pássaro, um viajante solitário em seu cavalo embarcando em um universo western, não chego a ser um Clint Eastwood, estou bem perto. Na minha mente eu sou tudo, a escuridão me envolve e o quarto parece se expandir ao infinito quando fecho os olhos. Escrevo essas palavras porque nunca me restou mais nada além delas.

De uns tempos para cá fui perdendo a capacidade de imaginar. Para alguém com a cabeça como a minha isso representa uma quase morte, pois, não posso mais fugir da realidade, passei a enfrentar seu aroma podre de desilusão e derrota dia após dia. O banquete está posto, minha cabeça é o prato principal. Porque nós vamos desvanecendo no escuro de um quarto quando a imaginação nos abandona e só resta a boa e velha insônia. Escrevo para falar sobre solidão, mas não qualquer solidão, essa é a solidão do monstros – ou seria dos mortos?


Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
(Edgar Allan Poe)

 

Levanto todos dias sem saber que horas são, e não me importo com o tempo. Deixei de me importar com muitas coisas desde que me notei adulto, fracassado e morto. Cada dia que passa é um a menors na minha vida e não há mais chance. Eu sou o monstro que o jovem Frankenstein criou em seu laboratório, uma experiência meio humana que deu errado. Quando jovem almejava abarcar o mundo, mostrar a ele minha arte. Que arte?

Descobri muito cedo que não tenho talento para nada além de ser um monstro que se acuou dentro de um quarto claustrofóbico e escuro, fedendo a mofo e repleto de traças. As traças comem meus livros, elas comem meus dedos dos pés enquanto durmo. Sou de papel e não percebo. Deformado dentro da carcaça de carne e osso que em alguns momentos da vida as garotas aprovaram, eu não passo agora de um objeto quebrado e disfuncional. Você acha que sabe o que é ser sozinho, mas não sabe. Apenas os monstros podem viver esse abismo irrevogável da solidão desértica. Apenas nós, criaturas sem talentos, assombrosos e disformes.

Não me alimento, não faço questão. Não há qualquer tipo de vínculo entre mim e o mundo do lado de fora, porque eles continuam vivendo, se enfeitando, jogando, e sinto que nunca fiz parte disso, e nunca farei, como o monstro avaliando a forma com a humanidade se move, isolado em seu buraco, à mercê de tudo, marginalizado.

Ninguém se importa se um monstro é destruído nas histórias, afinal, todos respiram fundo e sentem protegidos porque o mal foi eliminado, o que é errado e desagradável. Nós somos feios, mas possuímos almas, mesmo que vazias e obscuras, há algo muito singular dentro da nossa existência, inatingível aos belos dedos humanos.

Tomo café forte sem açúcar, alguém me diz algo que não presto atenção, me tornei surdo aos ruídos do mundo. Eu tive um dia uma família que desapareceu das minhas memórias. Amigos foram poucos e desapareceram como sempre soube que aconteceria. Nunca pude aproveitar os bons momentos, pois pensava que terminariam logo como tudo mais na vida. Namoradas nunca existiram, monstros não mantém relacionamentos, o coração deles é impossível. Houve muito esforço em tentar ser amado por algo ou alguém, tive alguns cachorros que foram embora cedo, como todos. Observo a rotação da Terra da janela do meu quarto: dia se transforma em noite, esse movimento é o movimento eterno, o girar da Terra em torno de si mesma e do Sol. Se vivemos em estado cíclico, não há esperança para sair desse abismo que também se tornou um redemoinho.

Diante o espelho toco meu rosto algumas vezes para tomar consciência que ainda existo como algo material e palpável. Eu gosto de sentir que existo quando toco meu rosto, é a prova que um dia eu pude sorrir, que estava lá fora com eles, disfarçado, camuflado e possível. Eu não consigo pensar na morte sem esse traço de conforto e alívio. Eu sei que ela virá em breve, os monstros foram criados para morrer depois de passarem um bom tempo aterrorizando todos e a si mesmos.

A pior solidão é a do monstro das histórias.Observe. Pare e pense, você que não é monstro, pode imaginar quão terrível é? Ter garras no lugar das mãos, membranas no lugar dos pés? Ser desprezível e mau; vil, torpe; incompreendido. Não conseguir vocalizar, formar palavras bonitas porque sua voz não passa de um rugido... você consegue sentir a solidão de um monstro? Sua deformidade? Seu isolamento. Sua incapacidade de ser alguém como você que está aí lendo, pensando, vivendo? Você pode alcançar a dimensão dessa solidão?
 
Provavelmente não, e deve estar pensando quão sortudo é por não estar no lugar do monstro, por continuar seguindo seu tortuoso caminho como figurante de uma peça malfeita que todos chamam de vida. Sim, você tem sorte, então, aproveite-a. Saia e sinta o sol no seu rosto, você ainda pode fazer isso, não há isolamento para você, alguém poderá lhe dar um sorriso amistoso e iniciar uma conversa agradável.

Alguém poderá tocar sua mão e te fazer sentir-se amparado, as coisas podem acontecer para você, pois não é monstro, não é feito dessa matéria pútrida que nós, aberrações, somos feitos. Aproveite o sol das manhãs, as flores e as cores que a vida lhe dá, por mais obscuras que sejam, você pode, sempre vai poder. Não desejo a você saber a dimensão exata da solidão de um monstro, eu não poderia desejar isso, porque por mais monstro que seja, eu ainda acredito nas pessoas o suficiente para que elas continuem me ferindo mesmo na distância inatingível que nos separa.

Acredito em você que está lendo, e você deveria começar a acreditar também, diferente dos monstros você não é sozinho, ainda tem a si mesmo: encontre-se. 

 
Expliquei então meus sofismas mágicos pela alucinação das palavras!... Acabei por considerar sagrada a desordem da minha inteligência. (Arthur Rimbaud)
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 10/04/2017
Alterado em 10/04/2017
Copyright © 2017. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.