Textos


O outro lado do rio
 
 
Caro Senhor Ervin,

Por um processo longo de terapias na tentativa de superar o trauma vivido na noite de ano novo, Vincent começou a escrever as notas que seguirão. Encontrei seu diário em seu quarto junto ao bilhete de despedida. Vincent desapareceu há mais de cincos anos, nunca encontramos pistas sobre seu paradeiro, nem a polícia que passou mais de seis meses se empenhando nas investigações e buscas.

O diário serviu como pista usada pelos detetives do caso e outros profissionais que contratamos para encontra-lo, mas logo foi renegado por seu teor delirante e não-confiável. Eu me chamo Martim, sou irmão mais velho de Vincent e estou te enviando essas notas na esperança que o senhor possa me ajudar a desvendar o desaparecimento do meu irmão.
Agradeço a atenção se chegou a ler até o fim,

 
Martim
 
 
Ervin não tinha intenção alguma de reviver seus velhos tempos de detetive do sobrenatural. Aquela vida tinha ficado para trás, enterrada em alguma parte obscura do seu passado. Largou a pesquisa sobrenatural depois de anos trabalhando com o inexplicável, em nome da manutenção da sua sanidade, optou por viver afastado em sua casa de campo, cuidando dos animais e vivendo do que eles produziam. A chegada do bilhete de Martim mudou tudo e o jogou de volta à antiga vida que o perseguia ainda em pesadelos.

Ele não leu o que foi enviado de imediato, deixou guardado em uma das gavetas do seu escritório e, por muitos dias, esquecera-se daquilo. Até o momento que, tomado por grande melancolia nostálgica, voltou a manusear aquelas palavras. A curiosidade o fez abrir o envelope, tirar a série de papeis que acumulavam as notas do jovem Vincent e ler a princípio desinteressado. Ele virou as folhas, os olhos percorreram algumas palavras e se fixaram em um ponto, Vincent narrava suas experiências sobrenaturais em uma viagem de acampamento e aquilo fez Ervin prestar real atenção, reascendendo seus antigos interesses ocultos.

Com o cinzeiro transbordando cigarros e um copo de conhaque sendo esvaziado, ansiosamente, ele passou a ler tudo com a velha perspicácia da juventude como investigador do oculto. Ervin se deteve tanto naquilo que o dia passou e a noite veio enquanto relia algumas das notas.
 
**
 
Nota 1:

Manhã de quarta-feira e o céu está feio como se as nuvens fossem feitas de chumbo. Mais tarde vai cair uma chuva forte o que me faz rememorar aqueles dias apagados da minha memória. Espero que o doutor Gonzales possa me ajudar depois que te mostrar essas notas, por aconselhamento dele passei a escrevê-las embora meu forte nunca tenha sido escrever. Não vou me policiar em relação a isso, ele disse que os pensamentos raramente têm alguma ordem, não preciso, portanto, condicionar minhas memórias ou tentar transcrevê-las de maneira bonita ou coerente.

O que me lembro agora, diante a janela aberta para esse céu cinza e feio, é do dia que chegamos no local do acampamento e organizamos as barracas. Foi uma caminhada longa entre nosso carro até o lugar indicado no mapa. Passados dois anos, vejo agora que o maior erro foi termos embarcado nessa sozinhos, sem ajuda de um guia ou algo do tipo. A região era conhecida por ser bastante frequentada por turistas, aventureiros e praticantes de esportes radicais, não éramos nada disso. Na verdade, era a primeira vez que acampávamos de verdade, sem a presença de um guia e fora dos limites de uma região vigiada.

Quando montamos as barracas o dia estava morrendo e uma noite feia com céu pesado como esse à minha frente chegava. Lembro agora bem do rosto pálido de Karen dizendo que tinha medo dali porque à medida que o sol ia embora tudo ficava no mais completo breu, era como estar de olhos fechados e não pudéssemos abri-los mais... Tranquilizei ela dizendo que a escuridão de florestas era sempre mais densa, como se fosse experiente no assunto. Queria impressioná-la, aquele foi o tipo de encontro mais estúpido que já tinha arranjado para mim. Levar a garota que estava saindo para o meio do nada? Hoje percebo como fui idiota na tentativa de impressioná-la e tudo isso acarretou só tormenta.

Eu conhecia Karen há alguns meses, estávamos saindo e para meu infortúnio ela tinha acabado de sair de um namoro conturbado. Passávamos muitas horas falando sobre seu trauma de relacionamento, me encantava sua capacidade de se recuperar rápido de uma frustração como aquela. Ir para longe de tudo parecia ser ideal para que ela superasse de vez e pudesse notar como minha companhia era divertida e diferente de tudo que tinha conhecido.

No fim das contas, o que era para ter sido dias divertidos e tranquilos tinha se tornado o pior dos infernos. A minha mente não consegue se lembrar agora de mais nada relevante sobre a primeira noite na floresta, quem sabe amanhã possa me esforçar mais? Tentarei dormir agora, espero que os pesadelos não voltem, eles se repetem todas as noites me deixando com os nervos em agitação e trazendo insônias exaustivas. A vida se tornou um peso muito grande para suportar, eu temo por mim mesmo, pelo o que posso fazer para me livrar dessa angústia... às vezes as coisas parecem fora de foco, dissolvidas na loucura. Talvez eu esteja louco, mas a lembrança de quem fui um dia ainda me deixa um fio de esperança em recuperar minha sanidade.
 
Nota 2:
 
Demorei a retomar os relatos. Não consegui resgatar nada nas lembranças do acontecido durante as duas últimas semanas. Foi através dos pesadelos que pude clarear a memória. É o mesmo pesadelo todas as noites que voltei da Floresta dos sussurros. Ela recebe esse nome por causa de uma antiga lenda que existe no local, à noite quem estiver ali irá ouvir primeiro sussurros, depois um grito insuportável e será atraído até o ruído. Aqueles que atenderam ao chamado nunca mais foram vistos.
Bobagens.

Não acreditava nessa história, escutava ela desde criança e meus pais tentaram incutir medo para que nunca me aproximasse do lugar. Não deu certo, quando cresci fui até lá por extrema curiosidade. Arrastei Karen comigo, se soubesse o que hoje sei jamais teria embarcado nessa ideia e, acima de tudo, não teria levado ela comigo.
No pesadelo sempre estou caminhando pela mata, minha lanterna está falhando e eu procuro algo ou alguém. Tudo acontece como na noite em que perdi Karen, cada detalhe sendo revivido. Em determinado momento do pesadelo acordava sobressaltado na segurança da minha cama. Dessa vez, portanto, fui além dentro do pesadelo e consegui chegar na beira do rio que cortava boa extensão da floresta.

Sabia que procurava por Karen, ela tinha desaparecido no meio da madrugada me fazendo sair pela noite. A lanterna estava quase apagada e sua pouca luz não me permitiu ver com clareza o que se movia do outro lado do rio. Então, veio o grito alto, potente e desesperador. Soltei a lanterna e cobri os ouvidos.

Preciso me recuperar um pouco para prosseguir. Eu me sinto cada dia mais louco, principalmente agora que reabri portas da memória que deveria manter fechadas.
 
Nota 3:

Demorei a retomar as anotações porque uma febre me debilitou por vários dias. Sou grato pelos delírios febris, eles me permitiram retomar as lembranças daquela noite na beira do rio. A escuridão era tanta que não conseguia enxergar sequer as próprias mãos diante dos olhos. Após o longo e aterrorizante grito, fiquei por um bom tempo parado, os ouvidos cobertos, me sentia cego. O sentido mais aguçado que me restava era a audição. Gritei por Karen, o silêncio súbito fez minha voz ecoar longe, vagando para o outro lado do rio. Continuei gritando, arrisquei colocar um pé na água fria, mas não foi ela que me causou arrepios. O que vislumbrei do outro lado do rio me fez recuar o passo.

Uma forma branca parecia me espreitar entre as formas das árvores, perguntei por Karen em voz alta. A forma desapareceu, era esguia e grande como um animal bípede, um primata, talvez. Sabia que não haviam animais vivendo ali, não os de grande porte, a floresta se resumia apenas à pássaros e anfíbios. Tremia de frio e pânico, não enxergar piorava tudo.
Não posso dizer o que veio depois, existe um hiato nesse momento entre a aparição pálida e o que contarei a seguir. Preciso me recompor, sinto os delírios febris me envolverem, as mãos tremem... e os olhos brancos na janela me observando.
 
Nota 4:

Lá fora faz frio, não pude ir ao centro da cidade comprar o que me pediram. Quem? As vozes.

O psiquiatra me receitou novos remédios que não funcionam, elas não estão na minha cabeça, ecoam de algum lugar fora de mim. Naquela noite no rio, depois perder os sentidos, acordei imobilizado junto a uma árvore. Todo meu corpo doía em tensão muscular extrema. O lugar era diferente de onde estava de pé do outro lado, aquilo era uma clareira no meio da mata. Olhos brancos me cercavam, eles acendiam como olhares de animais notívagos. Tentei gritar, a boca estava selada com grossas linhas, meus lábios foram costurados, quanto mais tentava gritar mais dor sentia.

A primeira criatura que vi foi aquela estranha forma alongada branca, era quase fosforescente no breu. Ela veio até mim e me observou com gigantes olhos brancos sem pálpebras, seu odor remetia a coisas da água, peixes mortos, moluscos. Não conseguia me mover, notei que não estava amarrado, não haviam cordas me atando à árvore. Tudo o que fazia era baseado no controle mental, meu corpo não se movia porque eles não deixavam.

Aos poucos mais daquelas coisas me cercaram, formaram um círculo em volta de mim, iniciariam estranhos movimentos como galhos de árvores ao vento. De olhos abertos por vontade deles notei o corpo de Karen pendurado em uma das árvores que me rodeava, ele balançava, sangue gotejava mostrando que ela tinha sido morta há pouco tempo. Faltava-lhe os membros, ela se resumia a um tronco ao léu. Comecei a escutá-los, várias vozes no início, com o tempo se tornou apenas uma que me dizia:
Quando ouvir o chamado, virá até nós, Steven.
 
Nota 5:

Eu não tenho mais como rememorar ou escrever.
Preciso fazer algo que só compete a mim. Há dois dias pude vê-los através da janela do quarto, parados do outro lado da rua, observando. Acredito que esses sussurros que atravessam meus dias e noites venham do outro lado do rio, do outro lado de algo inconcebível à consciência humanada. Vou e me despeço se remorsos... quando voltei daquele lugar sabia que não era mais eu mesmo. Perdoem-me... o chamado chegou.

 
 **
 
Quando Ervin concluiu a leitura das notas a noite já tinha chegado. Largou as folhas sobre a mesa do escritório e procurou na bagunça de sua mesa o cartão com o telefone do irmão de Steven. Ao discar o número chamou por duas vezes, ele atendeu com um grunhido típico de quem foi arrancado do sono.

- Aqui é Ervin Roriz, eu vou averiguar o desaparecimento do seu irmão –
Martim ficou sem voz por alguns minutos, quando a recobrou agradeceu o detetive e ambos trocaram mais informações sobre o dia que Steven saíra para acampar com a namorada. Ao desligar, Ervin decidiu não perder tempo, se dirigisse a noite toda chegara ao local na manhã do dia seguinte, ficava próxima à cidade. Sendo assim, pegou apenas o que precisava para acamar por uma noite na mata e partiu levando consigo as notas incoerentes de Steven.

O sol já estava ardendo quando chegou na região da mata. Comeu qualquer coisa no bar mais próximo e se informou com os guias turísticos sobre o desaparecimento do estudante que já fazia parte do repertório de assuntos locais. Nada de novo a acrescentar nas informações além do que ele já sabia sobre a lenda da Flores dos sussurros. No meio da tarde se embrenhou na mata sozinho, fez o mesmo trajeto que Steven, entre suas notas havia um mapa rabiscado que ele trilhou sua trajetória. Ervin seguiu seus passos e quando a noite veio, ele pode vivenciar seus horrores.

Era meia-noite, o detetive observava as chamas da fogueira morrendo, sem vontade de atiçar o fogo, perdido em lembranças de um passado em que combatia o sobrenatural com maior entusiasmo. “O que estou fazendo aqui?” se questionava, não acreditava mais em quase nada daquilo, estar ali só iria fazê-lo perder tempo, mas uma parte de si queria acreditar. Durante tantos anos trabalhando na área do oculto, agora, afastado desse meio, sentiu renascer no coração a esperança de realmente encontrar algo surpreendente. Porém, à medida que a noite passava a esperança o abandonava dando lugar à fadiga da desilusão. 

Ervin se preparava para entrar na barraca e cochilar, a lanterna sempre ligada. Queria esperar o alto da madrugada para poder percorrer a margem do rio. Seus planos foram interrompidos por um estranho farfalhar das árvores do outro lado rio. Ervin levantou a cabeça e largou o que fazia, a barraca caiu desarmada. A luz da lanterna fraquejava enquanto ele caminhava para a margem do rio, não podia mais ouvir o coaxar das rãs que há alguns minutos estava alto. Não ouvia nada além das árvores do outro lado se movendo, não ventava, o movimento delas era inconcebível.

Ele direcionou o facho da luz fraca da lanterna para o outro lado, o grito ficou preso na garganta. Uma enorme criatura esbranquiçada o fitava diretamente nos olhos. A lanterna caiu, suas mãos tremiam e as pernas fracas não permitiam que ele saísse dali. Ficou estagnado na escuridão, sentindo a presença de algo ou alguém chegar por trás. Ervin não podia sem mexer, todos seus músculos estavam tensos, era como estar sofrendo de paralisia do sono, apenas seus olhos se moviam para lá e para cá, tentando ver o que se aproximava.

Ao amanhecer um grupo de quatro amigos aventureiros encontraram os pertences de Ervin Roriz abandonados na margem do rio. Nenhum sinal da sua presença, era como se ele jamais tivesse existido.
 
 
 
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 08/04/2017
Alterado em 08/04/2017
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