Textos

O Olho do mal
 
Desde que tinha 5 anos minha avó me contava histórias para dormir. Elas eram de um teor meio inconstante, tudo o que ela inventava não fazia sentido, não poderia fazer em nosso mundo real. Por isso, eu adorava a hora de ir para cama, era o momento que iria ouvir as esquisitices de Wanda, minha avó, imaginava em sua mente incomum. Ela era mãe do meu pai que dizia que depois da morte do esposo, Wanda, tinha enlouquecido em delírios. Não via minha avó como louca, sempre achei que ela sofria pelo excesso de criatividade e isso a deixava um tanto desconfortável perto dos outros, tornou-se introspectiva e apática. Os únicos momentos que Wanda era ela mesma eram nas noites que me contava suas histórias.

Uma delas me persegue ainda hoje depois de adulta, minha vó a chamou de “O Olho do mal” e dizia respeito sobre o olho de vidro que ela usava, era aterrorizante fitar sua face do lado esquerdo por conta daquele olho morto, estagnado, falso...ela sabia que eu sentia repulsa por aquilo, às vezes encobria o rosto com a echarpe para que eu não me sentisse mal durante as histórias.

Wanda me contou que perdeu o olho por conta do descuido do meu avô, ele a atingiu acidentalmente com uma bala direto no olho esquerdo. Felizmente, a bala não causou grandes danos em sua cabeça, ficou alojada na cavidade ocular apenas. A solução foi remover todo olho e colocar aquela cópia estranha de vidro. Meu pai tinha uma versão diferente sobre o dia que viu os pais naquele embate confuso que culminou no tiro saindo pela caçadeira. Ninguém além da minha avó vai saber a verdade sobre aquilo, mas se a verdade dela era aquela sobre um incidente, que seja.

Ela me dizia que o olho que usava na verdade funcionava, ela conseguia enxergar através dele, pois, foi criado por uma feiticeira. Minha mente infantil criava as mais loucas imagens enquanto ela narrava todos os fatos que cercavam a confecção do olho que usava. Na sua história havia um universo além desse que conhecemos, coisas horríveis aconteciam lá onde mulheres com corpos de aranhas e homens com cabeças de cavalos conviviam na mais bela vida pacífica. Se você não os olhasse diretamente tudo ficaria bem, mas caso eles achassem que estava encarando-os, coisas muito ruins podiam te acontecer.

Hoje, creio que Wanda me dizia aquilo para que fechasse os olhos e pegasse logo no sono, exausta de ter que me amparar todas noites com suas histórias para dormir. Sei que eram os únicos momentos em que ela podia ser ela própria, mas eu podia notar o cansaço em sua voz nos últimos meses de vida. Logo, Wanda não veio mais e minha mãe contou que ela estava internada, muito doente. Minha avó morreu de tuberculose num sanatório, e penso sempre que uma mente tão criativa quanto a dela não merecia ter definhado dessa forma.

A verdade é que, passados tantos anos, depois de uma vida bem-sucedida em que consegui me tornar uma juíza bem-conceituada. Anos e anos tentando alcançar esse posto tão almejado, voltei a ter os pesadelos horríveis que me faziam tremer durante a infância. Em um deles, o mesmo que acontece quase todas noites, Wanda sempre me visita com sua história sobre o olho do mal, seu olho que foi amaldiçoado em sua constituição por uma feiticeira negra e sombria. O portal para um inferno indefinível.

Depois de mais uma madrugada ao acordar num salto, encharcada de suor frio e envolvida na atmosfera assombrosa que nos atordoa após um pesadelo, eu vi o objeto ali no escuro do quarto sobre a cabeceira. Ele brilhou por duas vezes quando forcei as vistas. Estiquei a mão e toquei no pequeno globo ocular de vidro, era o mesmo – ou muito parecido – ao da vovó Wanda. Soltei de imediato, todo meu corpo tremia em espasmos de pânico. Pensei em ligar para meus pais e logo me dei conta que eles também já tinham morrido. Todos que me conheciam já tinham partido de alguma forma, não tinha para quem ligar por mais que conhecesse muitas pessoas. Fiquei parada encarando o olho sobre a cabeceira.

As cinzas de Wanda tinham sido jogadas na fazenda que ela viveu com o marido, o lugar que mais amava. Não era possível que fosse seu olho de verdade ou que aquilo estivesse acontecendo. Fechei os olhos e tentei dormir novamente na esperança de estar presa dentro de um sonho, acordando no sonho. Com muito esforço dormi, quando o sol veio não consegui mais acordar. Abri os olhos e nada enxerguei, nada, apenas escuridão. Tateei o espaço, a cama, a cabeceira e ele ainda estava ali, o olho de vidro rolou para minha mão. Eu não abria bem os olhos e nada via, cegueira total.

Passei o dia com o olho na mão, rolando pela palma sem conseguir enxerga-lo, não houve desespero como era de se esperar, só uma compreensão resignada de que tinha amanhecido completamente cega. Apesar de ter muito trabalho no escritório, não me preocupei, permaneci sentada no sofá.
Ela se manifestou lenta, primeiro como uma imagem em um sonho durante um cochilo, depois tomou forma quando abri os olhos e continuava na escuridão. No sonho Wanda estava acompanhada de seres meio humanos e meio animais como os que me descrevia na infância, mas havia mais alguém com ela, uma mulher de preto, uma bela mulher estranha. Eu soube o que deveria fazer assim que levantei do sofá. Meu corpo parecia guiado por um tipo de força que não vinha de mim mesma, marionetes devem se sentir da forma como me sentia: era carregada, levada. Fui até a cozinha, peguei aos tropeços das mãos uma colher, com ela forcei meus olhos até que saltassem das cavidades e sentisse sangue escorrer como lágrimas.

A dor foi tão forte que desmaiei ali mesmo e quando acordei novamente podia enxergar com uma clareza desconhecida e atordoante. Eu toquei meu rosto, haviam dois olhos de vidros no lugar dos meus, me levantei, incerta como uma criança que acaba de dar os primeiros passos. O dia estava tão claro, tão radiante e até seus cheiros eram diferentes, mais reais e honestos. Sai de casa, no jardim que era o meu, mas com nuances diferentes, eles me esperavam, mulheres em forma de aranhas, homens com cabeças de cavalos e a figura feminina em negro manchando toda harmonia clara do ambiente, ela levantou o rosto desfigurado pelo tempo, murcho, azulado e horrível, ao abrir a boca fui tragada por uma força desumana e maligna que me paralisou ali de pé no jardim e assim permaneci, estagnada, fitando todas aquelas criaturas se proliferando diante mim, me envolvendo, enfeitiçando. Ao longe escutei um som de sirenes, muito vagas e insubstanciais, vozes de outro mundo me cercavam e me tomavam, o mundo se tornara uma mistura de camadas, cheiros, sons e não conseguia captar nada além daquela nova realidade diabólica para qual fui despertada.
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 28/03/2017
Alterado em 28/03/2017
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