Textos


Psicopatia

Quando o sol se levanta ainda tenho os olhos injetados de insônia e ressaca. A bebida no copo não é capaz de saciar a sede do espírito. Preciso tentar aplacar o vácuo que preenche minha cabeça. Então, decidido a dar um fim nessa espécie de angústia, de necessidade, de súplica da consciência vou para a cidade. Saio do conforto do meu isolamento e me desloco até a aglomeração de indivíduos que mantém a roda do.mundo girando.

Não faço parte disso. Os jogos que eles criaram não me admitem como jogador. Pois, trago desordem para o esquema equilibrado no qual, iludidos, se proliferam como bactérias infecciosas.

Encontro Úrsula na esquina, depois dela vem Mathilde, Bruna, Lavínia e todos nomes falsos oferecendo total satisfação. Levo elas para casa e tento minar a crescente solidão que me acompanha desde o nascimento. Não surte efeito, cada vez que levo uma dessas mulheres de esquinas para casa minha sensação de abandono aumenta. Eu sei que preciso fazer algo em relação a isso, faço, e não há saciedade, apenas um imenso buraco negro devorando cada parte minha que um dia foi humana.

Noto que a cada noite minha mente pede por mais algum tipo de sórdido divertimento, ela pede por sangue e dor. Eu ofereço tudo que posso, mas ela não se cala. Existe um demônio vivendo no centro da minha cabeça e ela devora tudo à minha volta. Ele toma o controle quando a noite cai, eu não me sinto mais parte de mim mesmo quando estou rodando com o carro pelas ruas fétidas dos subúrbios em busca da próxima mulher vulnerável e desesperada por uns trocados.

Todas elas fedem a medo e desilusão. São ratas, baratas e insignificantes. Eu sinto pena delas, acredite, há noites que depois do que ele faz – o demônio do centro da testa – eu até mesmo sinto lágrimas molharem meu rosto, porque parte de mim – uma parte muito pequena e tímida – gostaria de ter o controle, ser normal como todos esses homens lá fora. Não consigo lutar contra a necessidade de tentar algum tipo de conexão com uma dessas ratas de rua. Eu sou miserável, narcisista e egocêntrico, sei que a morte irá vir ao meu encontro através das minhas próprias mãos. Não tem como ser diferente, meu destino estava traçado no dia que enterrei o primeiro corpo no jardim.

Um dia elas florescerão como rosas, servindo de adubo para todas roseiras que cultivo sobre suas covas rasas. Sinto pena delas ao mesmo tempo que sei lhes faço um favor. A vida que levam não pode ser melhor do que servir de alimento para as plantas do meu jardim. Há pessoas que já estão mortas, porém, não entendem isso.

Durmo com a cabeça virada para a parede porque sei que da porta todas elas estão paradas me condenando. Não existe essa de que um assassino não sinta medo quando a noite cai, não o medo de ser pego e detido pela polícia. Existe um medo primordial, acima de tudo isso que os homens criam para manter a ordem e a justiça, um medo que vem do fato de que todas as vidas que ceifei sei que estará pesando em meu ombro quando for minha vez de ir para sepultura. Não me arrependo de todos corpos apodrecendo debaixo de mim, eu até consigo apreciar o cheiro da morte, da decomposição, porque é um aroma honesto. Todos nós, no fim, não passamos de adubo.

Escuto uma sirene, duas, e a movimentação do lado de fora. Eles me pegaram, demoraram, mas conseguiram depois que eu mesmo fiz uma ligação anônima. Eles entram na casa à força, arrombam a porta, eu permaneço deitado, fitando a parede e sentindo os olhos delas sobre mim, ingratas e inconsoláveis. Quando eles entram, me sento na cama, meus braços tremem e minha boca seca. Peço para que me levem e me matem. Um deles diz que vou passar o resto da vida na prisão pensando no que fiz, nos meus atos aterrorizantes. Acho cômico o fato dele achar acreditar que estarei sofrendo assim, confinado.

Quando se passa uma vida inteira sendo prisioneiro de outro ser, esse que vive no centro da sua cabeça coordenando cada passo e vontade sua, gritando para ser alimentado, tomando conta de cada aspecto da sua vida, estar confinado em uma prisão é o menor dos problemas. Saio escoltado, milhares de câmeras, vozes, flashes, antes de entrar na viatura olho para trás, vejo todas elas através das janelas, em pé pelo jardim, algumas seguram as próprias cabeças decepadas, outras arrastam os membros superiores e inferiores que foram arrancados, seus olhos são faíscas demoníacas. Elas gritam, as bocas escancaradas em ocos negros, eu sinto cada grito chocando-se nas paredes da mente.

Fecho os olhos, ele toma o controle, repuxa meus lábios e me faz dar um sorriso largo e eufórico. Sei que centenas de câmeras captaram esse momento e o eternizaram, o monstro sorrindo pelos seus feitos macabros, mal sabem ele que por trás desse demônio existe parte de um ser humano em frangalhos, que se torna menor a cada dia. Elas vão me acompanhar até a prisão, farão companhia todos os dias. A solidão não será mais tão amarga assim, cultivando na memória os melhores momentos da minha vida que foram os que criei junto a elas.
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 26/03/2017
Alterado em 26/03/2017
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