O absurdo
por Larissa Prado
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A Caixa Perdida
 
Ela estava saindo apressada dos fundos da grande catedral, a luz sol incidia no topo dos vitrais fazendo-os reluzir. O lugar era iluminado, austero e antigo. A mulher saiu carregando nos braços um pequeno embrulho envolvido por um pano de linho branco, tinha os olhos inquietos e apavorados como se fosse seguida por mil olhos. Parou entre o jardim da catedral e a porta de entrada, viu no céu uma revoada de pássaros migrando para longe e desejou por um momento ser um deles.

Ela correu como conseguiu, a bata negra que lhe cobria os calcanhares incomodava na torrente da última chuva que caíra. Percorreu ruas e avenidas sem parar para pegar metrô até alcançar a loja de antiguidades do Senhor Holz, seu velho conhecido. Bateu na porta, os olhos sempre atrás de si, observando se não estava sendo seguida. Ele abriu e a recebeu, ávido pelo embrulho que trazia, os olhos do velho colecionador se iluminaram quando pôs as mãos na caixa pequenina ornamentada em um bronze enferrujado. Pesava muito, Holz até sorriu por quase não conseguir erguê-la.

- Como conseguiu andar tanto da Catedral até aqui segurando essa coisinha tão pesada, Maria? –

Ela não parecia feita para conversações, apenas fitou o velho colecionador de forma grave, parecia querer dizer algo e as palavras não vieram.

- Preciso ir, senhor Holz, por favor, mantenha-a em um lugar seguro. – e saiu da loja às pressas, a bata negra da freira ao virar deu a impressão ao velho que não passava de uma ave negra agourenta. Fez o sinal da cruz, não gostava de clérigos, de toda aquela gente de cara feia e batas negras. Holz era negociante de relíquias e o significado delas não passava de sandices para ele.

Foi para o fundo de sua loja e arrumou nas prateleiras do fundo um lugar especial para pequena caixa trazida pela freira. Ao virar as costas ele sentiu como se sente um hálito frio na nunca de algum sussurro prestes a ser disparado, um ruído de asas, urgente e quente, exigindo para que fossem libertas.

Holz virou-se para a caixa, ela parecia conter algo vivo no seu interior, centenas de chiados vibraram lá dentro. Ele estendeu os dedos esqueléticos e reumáticos e com um clique simples levantou a trinca da pequena caixa. Não havia nada além do vazio, a percepção de seus fracos olhos velhos não podia contemplar o que acaba de libertar pela sua loja que saía pelas janelas da frente ganhando o mundo. Os chiados o perseguiram pelos restos dos anos, tornando Holz um sorumbático ventrículo de forças obscuras, preso no interior da sua loja, reproduzindo antigos cânticos há muito esquecidos nos confins dos submundos.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 13/03/2017
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