O absurdo
por Larissa Prado
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Reencontrando coisas mortas
 
 
O homem teme a morte, pensou Falred, e parte desse medo da morte é projetado nos mortos, então também eles passaram a ser temidos. E a visão dos mortos gera pensamentos terríveis, fazendo nascerem medos sombrios e de memória hereditária, espreitando-nos desde as frestas menos conhecidas do cérebro.
Robert E. Howard
 
 
A fumaça do cigarro se elevava cobrindo boa parte do meu rosto no reflexo do vidro. Assim era melhor, pelo menos disfarçava as lágrimas que insistiam em cair por causa de Anna e tudo que tínhamos perdido. O café esfriava na xícara, intocado, os olhos de Jim me encaravam preocupados. Jim, o único que podia captar a dimensão da minha dor. Afaguei suas orelhas, juntos há 12 anos, meu amor agora se resumia apenas a esse pastor-alemão amarrado ao pé da mesa. Seriam dias difíceis, eu e ele sabíamos disso, mas nunca poderia imaginar que fossem se tornar difíceis de uma forma intolerável.

O telefone tocou, demorei 5 minutos para me lembrar que o toque era meu. Quando estamos sofrendo a mente funciona em um ritmo pausado, lento. Atendi.

- Alec, está tudo certo para amanhã? – disse a voz do outro lado.

- Sim, chego as 10 horas. –

- Que bom, estarei te esperando. – desligou.

Dave era meu amigo desde o colégio, em toda teia de relações que teci durante a vida ele era o único que toleraria na atual fase da minha vida. Sentia que era o único que podia me conhecer de verdade. Fazia 10 anos que não nos víamos, ao procura-lo ele não hesitou nenhum minuto em me ajudar. Sua voz parecia ainda a mesma do colégio, o velho Dave rato de laboratório.

Decidi passar um fim de semana com ele. Por causa do seu último trabalho como ambientalista, Dave estava morando em uma cidadezinha afastada, envolvido com a vida de uma pequena comunidade. Tudo estava combinado para que eu partisse na manhã seguinte. Fiquei mais alguns minutos com Jim na cafeteria e logo nos pusemos a caminhar de volta para casa. O lugar parecia estava morto sem a presença de Anna. Cada porta retrato com seu rosto sorridente era um golpe em minha força de vontade. Evitei retirar as lembranças dela da casa, se fosse para esquecer tinha que começar me lembrando e não fugir disso.

Terminei de arrumar as malas, me preparei para dormir com Jim pulando na cama e se envolvendo em meus pés. Quando o relógio marcou 6:00 já estávamos de pé prontos para pegar a estrada. Antes de sair de casa liguei para Dave, mas ele não atendeu nem na primeira, segunda ou terceira vez que tentei. A princípio acreditei que ele talvez estivesse dormindo ainda ou ocupado com seu trabalho, afastei da minha cabeça qualquer preocupação mais séria. Porém, à medida que avançava na estrada e tentava ligar para ele sem respostas, comecei a ficar realmente preocupado.
 

O sumiço de Dave

Entrei na cidadezinha de Dave, a placa de boas-vindas era de uma tonalidade vibrante e receptiva. Passei por ruas estreitas, observei pessoas sentadas nas portas das casas, tranquilas. Contornei uma praça onde algumas crianças brincavam. Estava seguindo a localização que ele havia me passado para sua casa, ainda não tinha conseguido contato. Parei em um lanche, Jim saltou do banco de trás. O homem que cuidava do lugar permitiu que o cachorro entrasse e sentasse comigo ao lado da mesa. A cidade me transmitia muito aconchego e pacificidade. Tomei um café e fumei um cigarro. O dono da lanchonete que se chamava Dmitry trocou algumas palavras triviais.

- Parece que no fim da tarde vai ser daquelas chuvas...- ele estava encostado na parede do lado de fora de seu estabelecimento. Apenas meneei com a cabeça.

- Você é da cidade grande? –

- Sim. –

- Veio descansar um pouco aqui nesse fim de mundo?-

Olhei Jim, ele parecia tranquilo com o homem, sempre que se mostrava tenso em relação a alguém eu evitava a pessoa. Jim era muito intuitivo.
- Na verdade, vim visitar um amigo. Ele está a menos de dois anos, é professor, está fazendo um trabalho na região.

- O ambientalista. – Dmitry entrou e foi arrumar algo atrás do balcão.

- Sim, Dave, o nome dele, conhece? –

- Todos na cidade conhecem, ele não é muito bem-vindo aqui por parte do pessoal que trabalha pra madeireira. Eles não gostam de ambientalistas por aqui ou doutores que ficam se intrometendo nas suas coisas. –

- Entendo...- agradeci e paguei o café.

Antes de voltar para o carro, o silêncio de Dave me assaltou com mais força, a preocupação só aumentava. Voltei-me para Dmitry.

- Não consigo falar com meu amigo, essas pessoas que não gostam do que ele faz aqui... são perigosas?-

O homem deu um sorriso relaxado.

- Claro que não. Só ficam de falatório aqui e ali, ninguém é perigoso por essas bandas, senhor... somos todos muito tranquilos. –

As palavras dele me passaram mais conforto, Dmitry parecia ser um homem honesto, seu rosto era bondoso. Entrei no carro e me dirigi até a casa de Dave.

O lugar ficava afastado do centro, tomei algumas ruas de terra batida e me perdi algumas vezes até chegar.

Estacionei na entrada da casa, para meu alívio notei que a caminhonete de Dave estava ali ao lado da casa. Libertei Jim do banco de trás, juntos caminhamos ao redor da casa, bisbilhotando as janelas. A porta dos fundos estava aberta, entramos por ali. Jim se negou a prosseguir, estagnado na cozinha, as orelhas em pé em sua posição de ataque, ele soltou um choramingo. Incitei ele a andar, peguei sua coleira e o puxei. Nada o fazia sair dali. Lembrei que Dave cuidava de dois gatos, provavelmente, o cheiro dos bichos deixava Jim nervoso. Chamei os gatos, tentei encontra-los pela casa, não havia nem sinal da presença deles.

Deixei Jim correr para o quintal e joguei as malas no chão da sala. Um cansaço me abateu de tal maneira que me sentei no sofá e resolvi descansar um pouco, acabei dormindo. As horas seguiram enquanto permaneci inerte no pesado sono da exaustão. Todos meses de crises com Anna tinham recaído sobre mim de forma violenta, tudo o que varri para debaixo do tapete mental tinha sido soprado e agora restava uma exaustão e sonolência doentias.
 

Caminhando por macieiras de sonhos

No sonho, Dave estava sentado no outro sofá da sala em que eu dormia, esperou que eu despertasse, quando abri os olhos e o vi senti muito alívio.

- Você me deu um baita susto – comentei numa voz longínqua de sonho.

Dave nada disse, ficou me fitando inexpressivo como se não fizesse parte da mesma dimensão que eu estava. Ele olhava não para mim, e sim, através de mim, observando algo que me escapava. Tentei argumentar, disse como tinha sido a viagem tentando me ater a assuntos habituais que o fizesse sair daquele estranho estado apático.

Levantei e toquei seu ombro, não tive tempo de perguntar se ele se sentia mal, seu corpo se esfarelou sob meu toque. Foi como ter tocado uma estátua de areia. Lembro de sentir muito pavor, um desespero angustiante tomou conta de mim. Tinha consciência de sonhar, mas não conseguia encarar aquilo como delírio, eu sentia que precisava fazer algo. Escutei o uivo de Jim do lado de fora casa, alto e rouco.

Acordei num salto, sentado no sofá da sala coberto de suor frio e com a garganta dolorida, não recordava ter gritado no sonho, apenas da vontade forte de tê-lo feito. O uivo de Jim era real, ele estava incontrolável do lado de fora. Corri, esbarrando em tudo que havia no caminho, cheguei no quintal me orientando pelo chamado do cachorro.

A minha cabeça estava desnorteada, não sabia como me mover no espaço externo, não conhecia a casa de Dave. Eu vasculhei os mesmos lugares mais de uma vez, fazendo gestos irracionais como procurar Jim em latas de lixo e embaixo da caminhonete do meu amigo, lugares impossíveis dele estar. Os uivos pararam de vez. Eu tinha uma vaga sensação que Jim estava em perigo, algo me dizia isso, algo indefinível me fazia crer que tudo iria ficar pior, era melhor continuar sonhando, deixando tudo se tornar estátuas se esfarelando.

Comecei a gritar por Jim numa urgência delirante, a garganta voltou a doer, estava seca e latejava. Gritar por Jim me fez sentir uma irresistível necessidade de sentar no gramado do quintal e chorar como criança. Algo estava fora do lugar desde que Dave não atendera o telefone, antes disso, desde que Anna tinha ido embora. Não estava apto para lidar com mais perdas, e sentia essa terrível sensação de abandono e solidão muito forte. Tentei controlar meus pensamentos guiando-os para o lado racional de tudo: eu estava preocupado com Dave, destruído pelo fim do relacionamento de 5 anos, agora, temia perder Jim, isso tudo não passava de um colapso nervoso e todos os dias que ignorei a vontade de chorar estavam ali agora me fazendo querer urrar de agonia.

Fui arrancado da minha tentativa de racionalização pelo choro súbito de Jim, o tipo de gemido de um cão sofrendo um golpe, morto, acabado, era isso. Algo tinha ferido Jim e não sabia onde encontra-lo. Levei as mãos até a cabeça e comecei a gritar por ele com uma força que me era desconhecida. Andei em círculos por uns minutos até que procurei respirar fundo e me guiar na direção do último ruído de Jim. Fui entrando pelo quintal, Dave, como um bom ambientalista, tinha erguido um verdadeiro pomar ali. As macieiras ocupavam grande parte dos fundos da casa, o aroma das frutas era incrível. Não fosse meu estado teria sido agradável caminhar entre as árvores e sentir suas presenças através dos aromas deliciosos.

A primeira coisa que vi entre as macieiras foi o movimento de algo, para ser mais preciso, um vulto se moveu como se quisesse se esconder de mim. Aquilo congelou meu coração, me lembrei da conversa com o senhor Dmitry no lanche sobre os trabalhadores da região não gostarem de Dave. Poderia ser algum deles querendo assustá-lo? O medo logo amenizou e um sentimento mais forte tomou conta de mim por completo: a desolação. Eu vi o corpo de Jim jogado ao pé de uma macieira, dobrado de uma maneira inconcebível. Seus olhos estavam abertos e a língua pendia entre os maxilares fortes.

Ao perder Anna tinha certeza que havia chegado no fundo mais terrível do poço, mas aquela dor não era nada perto do que eu acabara de conhecer ao ver meu cachorro morto. Eu sentia um buraco se abrir no centro do peito onde uma mão fantasmagórica se introduzia e apertava o coração até que ele explodisse, depois disso só haveria o oco frio e a súbita dificuldade de respirar, porque não havia mais coração para o processo.
 

A perda de Jim

Quando me aproximei do seu corpo não podia mensurar a quantidade de fraturas que ele tinha sofrido por dentro, foi só ao abraça-lo que senti sua estrutura óssea esmigalhada, a coluna tinha virado completamente. Jim tinha sido espancado por algo muito forte, desumano diria. Eu fechei seus olhos e passei bons minutos embalando seu corpo enquanto lágrimas caíam, livres, depois de tanto tempo escondidas e ignoradas. Meu coração tinha parado, estava claramente suspenso no oco do peito.

Questionei em sussurros os porquês dele ter morrido, não podia partir assim e me deixar. Tudo o que vivemos durante todos longos anos juntos vinha à mente em um turbilhão de lembranças que agora seriam apagadas pela ausência do meu maior companheiro.

Senti fúria, tristeza, desolação e abandono, todos sentimentos malditos mesclados em uma bola compacta que precisamos engolir seco. A garganta doía mais com essa nova perda, eu não conseguia soltar o corpo de Jim e, por um momento, meu choro convulsivo fez seu corpo balançar junto com os soluços. Pensei que ele estava respirando, conferi por três vezes junto ao seu focinho, nada. Ah, recaiu sobre mim o ódio cego da injusta perda. Não podia aceitar perde-lo daquela forma inesperada e tola. A única pergunta que agora rodopiava e minha cabeça era:

- Quem fez isso com você, Jim? –

E a resposta a isso se tornou um mantra diabólico.

- Eu vou acabar com quem te fez isso, meu amigo. –

 

Encontrando Dave

Com o resto da força que tinha abri uma cova entre as macieiras e enterrei Jim, tal esforço levou o pouco que tinha em mim de energia. Entrei na casa e me deitei no sofá de novo, outro rompante de lágrimas veio e chorei com os olhos coberto pelo braço. No dia seguinte estava certo que iria empreender a busca pelo algoz de Jim, era isso apenas que me mantinha firme.

A manhã veio e foi, permaneci adormecido. Sonhei com Dave, mas não lembrava o que era, só acordava me sentindo desnorteado e apavorado. Em certos despertares eu jurava ouvir o uivo de Jim do lado de fora, logo a consciência se assentava e dizia a mim mesmo que ele tinha morrido como fazia ao olhar o número de Anna no celular e dizer que ela não voltaria.

Levantei à tarde, o corpo todo sofria de tremores musculares e o estômago queimava pelo jejum prolongado. As lembranças com Jim me assaltavam a todo movimento que fazia. Ao fumar um cigarro na varada da frente me vi procurando sua cabeça ao lado da cadeira para afagar as orelhas, os hábitos dilaceram mais do que situações extraordinárias da companhia. As pequenas manias nas quais não pensamos junto do ser querido, a presença em momentos corriqueiros entre um cigarro e outro. Os detalhes que nos fazem sangrar pela falta, são os pequenos demônios implantados na memória.

Estava me deixando divagar em pensamentos, jurando a mim mesmo que não teria outro cachorro ou outra mulher na vida, ponderando o quanto havia me doado a eles e acreditado na imortalidade de suas companhias. Senti as lágrimas ardendo nos olhos quando vi Dave parado na estradinha de tijolos da entrada. Ele fitava a porta ao meu lado ignorando minha presença.

- Dave? – uma euforia discreta invadiu o espaço vazio do meu coração.

- Cara, por onde andou? – me levantei e fui até ele.

Ao dar alguns passos e ficar próximo de Dave notei que ele não era mais o mesmo. Não sei dizer o que mais me aterrorizava se eram os olhos esbranquiçados como os de um cadáver ou o sangue coagulado em suas mãos, lábios e roupas. Retrocedi os passos e esbarrei no primeiro degrau da varanda, Dave desviou os olhos para mim de forma estupidificada, meio lento, era um olhar bovino e doentio de quem não entende o que vê.  

- Dave, cara, sou eu Alec, lembra? Vim passar uns dias, o que aconte...-

Não deu tempo de terminar, Dave sacudiu a cabeça ao som da minha voz e correu na minha direção. Nunca pensei que fosse tão rápido. Não pensei duas vezes e corri para a porta, fechando-a no rosto deformado dele. Dave batia com força sobre-humana a ponto de arrancar as treliças. Corri para a cozinha e vasculhei gavetas em busca de algo cortante. Naquele momento Jim voltou à minha mente, esculhambado e morto, não precisou muito para ligar sua morte ao estado de Dave. A raiva me muniu de coragem e gritei para que ele viesse. Tinha uma faca em mãos, grande o suficiente para extirpar um leitão. Dave arrombou a porta com facilidade. Se o conhecessem iriam se surpreender com isso, nunca foi um homem de porte físico avantajado. Dave sempre sofreu muito de ataques epiléticos e ausência de vitamina no corpo quando era criança, mas aquilo não era Dave.

Junto com sua entrada um estranho odor de podridão invadiu a cozinha. Ela vinha diretamente dele, ali pude notar que sua pele estava flácida e pendia do rosto, desgrudando do músculo. Dave me procurou com tiques animalescos, cheirando o ar, notei que sua visão estava comprometida, quase nula. Ele me seguia pelos meus movimentos. Assim, o levei até a porta embaixo da escada que dava acesso ao porão. Abri-a com esforço, estava emperrada, lá o empurrei e tranquei. Não durou muito, Dave conseguiu derrubá-la. O embate parecia inevitável, não tive tempo de correr, ele avançou sobre mim e me agarrou pelo pescoço, as mãos fortes apertavam e obstruíam o ar. A faca bailava débil na direção do seu rosto.

Acreditei que iria morrer e me entreguei a essa compreensão resignado. Não tinha mais motivos mesmo para seguir, soltei a faca, relaxei como pude os músculos e encarei os olhos sem vida do meu amigo. Duas orbes brancas e ocas, o fedor de morte impregnou minha mente e a turvou. Ouvi, então, o uivo de Jim e pensei ser o último delírio do fim. “Vamos nos reencontrar, amigão” aquele pensamento fez meus lábios roxos sorrirem, mas Jim estava ali rosnando atrás de Dave, coberto de terra e com as patas traseiras em um ângulo horrível e deformado, todo quebrado.

Dave me largou quando Jim pulou em suas costas. Tudo aconteceu muito rápido, o embate entre o homem e o cão foi violento em um nível tão grande que regurgitei. Recobrei os sentidos o suficiente para sair correndo da casa. Do lado de fora escutei o urro lamurioso de Jim, olhei para trás esperando que Dave viesse correndo sedento por minha morte. Tudo permaneceu parado, em silêncio. Não tive coragem de voltar, não podia. Entrei no meu carro e dirigi como um louco pelas ruas da cidadezinha voltando para a auto estrada, sem olhar para trás.



Depois de tudo

Fiquei sabendo por buscas na internet que a casa em que Dave morava queimado e nada restou dela, o incêndio tinha sido acidental segundo as fontes. O dono tinha partido para um trabalho de campo em uma floresta local e esqueceu a mangueira do gás vazando e velas acesas pelo último blecaute na cidade que sofria muitos deles, algo do tipo. As notícias todas davam as mesmas informações, nada de sobre o corpo decomposto de Dave e a presença de Jim na cena. Nada que pudesse explicar o que eu havia vivido ali.

Insatisfeito procurei mais sobre a cidade, a região que Dave morava, nada estranho surgiu nas buscas a não ser uma lenda macabra sobre sua fundação. A comunidade em que Dave foi fazer seu trabalho de preservação ambiental nos seus tempos longínquos de fundação, tinha sido dominada por um grupo ocultista que adorava deuses antigos, os rituais incluíam vudu e sacrifícios de animais – algumas vezes humanos – para que os integrantes da comunidade não morressem ou voltassem à vida. Toda aquela lendária história da fundação mexeu comigo. Sofri com pesadelos em que Jim e Dave me perseguiam, mortos e sedentos, onde sempre conseguiam me despedaçar em uma morte dolorosa e onde eu retornava à vida aos pedaços e insano.

É claro que nada disso é real, digo, não sei ao certo até que ponto o que vivi foi verdade ou consequência do meu colapso mental. O que posso assegurar é que a sensação foi vívida, sim, vívida o suficiente para que eu ainda feche os olhos e possa sentir o odor pútrido de Dave e suas mãos geladas asfixiando-me.

Creio que os mortos só retornam quando insistimos em encontra-los, é preciso deixar morto o que morreu, soterrar o desespero de reviver ao lado dos que partiram. As lembranças podem matar e, ainda assim, mantê-lo vivo.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 09/03/2017
Alterado em 09/03/2017
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