O absurdo
por Larissa Prado
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O rosto na parede
 
Eis que estava diante Sophia, segurando a xícara e tentando concentrar nos seus assuntos monótonos sobre o dia-a-dia na casa da tia. Sophia, minha prometida noiva com quem passaria o resto dos meus anos, pensar nisso fazia um calafrio subir por minha espinha e terminar com gosto de amargura na boca. O café estava esfriando e não queria beber assim como não almejava tocar o rosto oval, pálido e perfeitamente simétrico daquela virginal garota.

Não conseguia deixar o foco da minha atenção nela por muito tempo e não era por conta das suas conversas tediosas ou do seu tom de voz baixo e inexpressivo. O que tomava conta do meu total interesse era o quadro atrás da cabeça de Sophia, pendurado ali na parede sobre a lareira da sala de estar. Um velho segurando um pássaro exótico de asas negras, encarando a tela como se soubesse de algo inacessível a raça humana. Seus olhos repousavam em mim com tamanha vivacidade que me sentia observado, incômodo e aflito.

Solicitei que Sophia trocasse de lugar comigo, confessei o desconforto em relação ao quadro.

- Este é meu tio, querido. O retrato foi pintado 3 dias antes de sua morte. Foi vítima de si mesmo, encontraram ele enforcado no quarto ao lado dessa sala. Aquele é seu corvo de estimação. Eles eram inseparáveis, tanto que minha tia enterrou o pássaro com ele. –

Não estava inclinado a escutar a história por trás do quadro, queria apenas deixar de fita-lo, mesmo dando-lhe as costas sentia os olhos sobre mim. Passados alguns instantes, Sophia se ausentou da sala de estar por algum motivo referente ao almoço. Não queria virar, não queria encarar o quadro, mas fiz assim mesmo movido por súbita força involuntária. Escutei o farfalhar de asas, como um pássaro tentando levantar voo, aquele ruído me trouxe arrepios por todo corpo. Cravei os olhos no velho, para meu total assombro ele estava de olhos fechados e um macabro sorriso sem dentes se formava em seu rosto. O pássaro havia desaparecido de seu braço. Ele parecia segurar um lenço, o tecido parecia saltar da tela, muito palpável.

Olhei em volta, queria chamar Sophia, o ruído de asas continuou e aumentou. A presença de algo se fez notada por trás de minhas costas, desviei os olhos do rosto no quadro e fitei o enorme corvo que batia as asas sobre o ombro de uma silhueta negra como uma sombra. O grito parou no meio da garganta, a sombra se moveu um passo, dois passos, arrastando-se e infestando a sala com um odor pútrido, veio na minha direção, as asas farfalhavam e ele chilreava de maneira grotesca.

Levantei, súbita uma coragem desceu sobre meu corpo fazendo-o mover, mas era tarde, sempre é tarde para a coragem quando a reação se manifesta. Ele me manteve ali parado ao apoiar a mão sem forma no meu ombro e sussurrar palavras indecifráveis no meu ouvido. Senti-me compelido a pegar seu rifle de caça sobre a lareira, engatilhar na boca e assim pintar seu rosto no quadro com pedacinhos do meu cérebro.
Assim o fiz.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 05/03/2017
Alterado em 05/03/2017
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