O absurdo
por Larissa Prado
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A bailarina torta

Fim do inverno e os preparativos para o grande show de dança estavam sendo feitos. A escola estava movimentada, a inquietação e murmurinho se alastravam. Quem seria a escolhida para o papel principal da dança? As audições tinham ocorrido meses antes, todas alunas se empenhavam ao máximo, uma das professoras, Gertrude, era responsável por escolher aquela que ficaria com o número principal. A mulher era exigente e tentava ensinar para as meninas que no balé o que importava era sempre tentar alcançar a perfeição.

Natasha queria o papel principal assim como todas outras colegas de turma. Sem dormir por causa de todos testes pelos quais passara, ela se mantinha de pé a base de estimulantes. Não conseguia mais pensar em nada além de ganhar o papel principal. Gertrude a tinha em alta estima, Natasha era uma das melhores, estava com a companhia desde os 5 anos de idade, nada mais justo que darem a ela o papel principal, a dança triunfal.

Já estava quase certo que ela seria a escolhida, as outras falavam sobre isso com aquele tom invejoso e disparatado. A própria Natasha acreditava no seu triunfo até que na tarde que Gertrude iria anunciar sua decisão, a bailarina de ouro foi acometida por uma estranha doença. Não conseguiu sair da cama para ir até à escola, Natasha sentia a febre queimando seu corpo para a preocupação da mãe que preparava chás e compressas.

Natasha estava tão desolada com aquela enfermidade súbita, tão inconformada que decidiu tentar se arrastar e ir até a companhia, foi quando tirou as mantas das pernas que o choque a fez paralisar. Suas pernas não passavam de estranhas formas tortuosas como galhos secos de árvores antigas, os joelhos virados ao contrário deixavam os pés apontados para trás. Ela sentia, lenta e dolorosamente, os ossos se esticando até que as pernas ultrapassam a cama e pendessem flácidas no chão tomando conta de todo assolhado em pele e tendões estirados.

O grito ecoou pela casa, não duvido que puderam ouvi-la lá da Companhia de Dança, até Deus poderia ter escutado aquele urro de dor. A mãe entrou pelo quarto como um foguete, pálida e trêmula, tropeçou nos pés da filha, encostados na porta : - MÃE – ela urrou – MÃE, MÃE, MÃE, ELAS NÃO PARAM DE CRESCER! MINHAS PERNAS... DEUS MINHAS PERNAS – o arrombo mental foi tanto que a mãe desfaleceu enquanto as pernas da bailarina continuaram crescendo e lhe causando extrema agonia e extenuante dores.

Alcançando o infinito da perfeição que não existe, a bailarina torta fez seu número triunfal sozinha.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 13/02/2017
Alterado em 13/02/2017
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