O absurdo
por Larissa Prado
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Jardim Esquecido

I.

Tinha diante mim a casa vazia, o abandono ao qual estava condenada me fez sentir melancólico a princípio. Era para ser uma volta ao passado, uma chance de nos reaproximarmos, eu e o assustadiço Nataniel, meu irmão mais novo. Nossas vidas tomaram rumos diferentes após a tragédia que nos abateu tantos anos atrás. Acredito que nunca mais seremos os mesmos da infância, e quem é? Quem é que conserva em si algo de imutável, que não se deixa contaminar pelos acontecimentos sombrios?

Resolvemos passar o natal juntos após 20 anos de desligamento. O crédito é todo dele que me ligou certa madrugada com uma voz trêmula, como era quando criança, dizendo “Branca se foi essa noite, irmão. Estou sozinho.” Foi o suficiente para que uma tonelada de mágoas se diluíssem. A sua companheira tinha morrido, deixado ele ao sabor de uma vida solitária, sempre fui sensível, isso me comoveu ao extremo.

Sem saber como trazer conforto através de palavras decidi retornar à nossa cidadezinha, lugar que Nataniel nunca abandonou, e passar um tempo. Mesmo hoje, após tantos anos, me surpreendo com sua força e coragem, desde criança, ele sempre foi o mais corajoso da casa e sua cabeça funcionava de um jeito diferente das outras crianças.

Sentávamos embaixo dessa grande e nodosa árvore no jardim. Nataniel se acomodava confortável entre suas raízes, ficava olhando entre os galhos enquanto eu tentava jogar bolas de gude para ele. Sempre estava disperso quando ficávamos assim, como se sua atenção estivesse focada em outra coisa, algo que outros não podiam perceber. Essa sua peculiaridade levou meus pais a se preocuparem e tratarem-no diferente, o que fez crescer a inveja em mim. Sempre quis ser como Nataniel pela atenção que ele recebia e por ser alguém especial. Nunca pude compreender o peso que isso se tornou sobre seus ombros.
 
II.

Em dias de chuva não podíamos passar o tempo no jardim, mamãe proibia, entre suas frequentes preocupações estava a saúde fraca de Nataniel. Eu me ressentia disso, não poder me divertir por causa dele, mas era um sentimento tímido que não admitia para mim mesmo. Naquele dia, porém, mamãe tinha viajado para casa da irmã e meu pai estava sempre ocupado consertando e restaurando móveis na sua oficina para prestar atenção em nós. Saímos e fomos brincar na chuva que caía suave formando lamaçal nos buracos do jardim. Foi uma tarde muito boa, uma das únicas que vivi com Nataniel depois daquele dia.

Não percebemos o tempo passar, meu pai tinha nos flagrado e se limitou apenas a uma bronca fraca voltando aos seus afazeres. Lembro que a chuva tinha cessado por completo e deixado no ar o cheiro de terra molhada. Estávamos ensopados e cansados ao deitarmos sob as raízes da imensa árvore no jardim que chacoalhava ao sabor de uma brisa úmida.

- Um dia eu queria chegar lá no topo dela. – Nataniel disse.

- Impossível, já viu o tamanho que ela tem?- retruquei sem me importar se a árvore era gigante ou com as ideias dele.

Nataniel deu de ombros e seus olhos se perderam na altura dos últimos galhos da árvore. Havia algo estranho nas suas pupilas, ele parecia estar sonhando acordado ou dormindo de olhos abertos. No momento, não refleti muito sobre isso, eu tinha 12 anos e ele tinha 10, o sentido das coisas não poderia ir muito além na idade que estávamos. Hoje em dia, ao rememorar esse instante, percebo que foi o segundo crucial que iniciou toda série de eventos desagradáveis. Ele ficou ali deitado fitando o alto, perdendo algo dentro de si, tornando-se ausente cada vez mais.

III.

Depois daquela tarde chuvosa em que ficamos observando os galhos da árvore balançar e encobrir uma lua cheia bonita, Nataniel caiu de cama. Minha mãe se brigou com papai por conta disso, as febres vinham com tanta força que faziam meu irmão convulsionar. Eram momentos horríveis de se presenciar, ele ficava se contorcendo por baixo das cobertas, os olhos viravam e se tornavam brancos enquanto ele dizia estranhas palavras confusas. Meus pais o levaram no médico da família que disse ser apenas uma pneumonia. Meu irmão foi embora se tratar no hospital e lá ficou por uma semana, mas não era pneumonia, não era nada que os médicos pudessem consertar. Nataniel tinha perdido sua alma, acredite ou não, e os sintomas disso são tenebrosos.

Meus pais se afastaram e decidiram se divorciar assim que meu irmão melhorasse. Acredito que a doença que o abateu foi apenas uma desculpa para uma vontade antiga de ambos. Eles apenas se toleravam por nossa causa. Porém, a animosidade entre eles crescia de maneira violenta a ponto de papai ter agredido minha mãe em uma discussão acalorada sobre o futuro de Nataniel que já não levantava da cama, sempre com febre. Eu senti muita raiva dele mesclada à inveja, ele parecia ser o elemento que arruinara toda nossa dinâmica de família feliz.

Sentava ao lado dele na cama, tocava sua pequena mão e não sentia nada além de desprezo. Ele parecia menor a cada dia, abatido e cadavérico. Sua respiração chiada me causava arrepios e cada vez que olhava a árvore no jardim pela janela e estremecia. Seus galhos pareciam bailar, nunca paravam de balançar, nunca, como braços festejando um triunfo. Eu odiava aquela árvore, aquele jardim e Nataniel.

- Você podia me ajudar, Al... acabar com isso. – sua voz era madura, parecia de um velho e não de uma criança de 10 anos.

- O que tá falando, Nataniel? – eu respondi.

- Você sabe... não posso mais aguentar o sofrimento de mamãe e o papai nervoso. Só me ajuda a acabar com isso. –

Estávamos sentados nas raízes da árvore por insistência dele, mesmo tremendo de febre e envolto na coberta, ele quis tocar nela de novo.
- Você tá falando do que?-

- Acabar com isso, Alberto... me ajuda a morrer logo. –

Ficamos em silêncio até que uma crise de tosse o atacou e arruinou a nossa paz.
 
IV.

- As coisas que vi ali, Alberto...mesmo depois de tantos anos não posso falar sobre elas, não consigo encontrar palavras que possam. – Nataniel tomou mais um trago da cerveja.

Agora éramos velhos, não velhos no sentido da passagem do tempo, e sim, do acúmulo de más experiências na alma que fadigam e desgastam. Nataniel parece bem mais velho que eu, judiado e triste. Seus olhos ainda são ausentes, desprovidos de brilho. Ele toma a cerveja e eu tomo a minha sentados na mesa da varanda de sua casa. Ele tem um movimento discreto no maxilar que range e range. Na infância sentia raiva e inveja dele, agora, sinto pena, muita pena.

- Ninguém podia ver, e isso me deixava muito atribulado. Era um sentimento de desligamento, como se o mundo em que eu vivia só existisse dentro da minha cabeça, e talvez fosse assim, mesmo, né? Talvez algo sempre foi muito errado aqui dentro – e tocou a têmpora envelhecida -  e ninguém descobriu o que era... Nunca me perdoei pelo o que aconteceu, e acho que quando nos tornamos nosso próprio júri e juiz as coisas se tornam piores, né, irmão? Nunca fui feliz, sabe, Al... e acho que está chegando a hora de parar de tentar. –

Permaneci em silêncio, tentando penetrar na fortaleza do sofrimento do meu irmão, mas incapaz disso. Não precisávamos falar sobre o que tinha acontecido em nossas vidas, as lembranças estavam ali entre nós, nos separando, me fazendo olhar para ele com lágrimas nos olhos e piedade no coração. Por que eu odiava e amava tanto meu irmão? Por que ele tinha que ser tão diferente?

- Nataniel... o que você via? – foi tudo que consegui dizer, a cerveja me dera certa coragem.

Por um momento achei que ele permaneceria calado, apenas fitando a rua parada de um fim de tarde, apenas ausente daquela forma sombria e triste, mas logo ele suspirou, pude sentir a dor daquele gesto. O tipo de suspiro onde tentamos resgatar lembranças torturantes, afiadas e negras.
- Eu conheci o inferno, Al, na verdade, conheci vários infernos de uma vez, depois que você enxerga isso... as coisas perdem um pouco o sentido.
 
V.

Durante o período que meu irmão ficou de cama na infância as coisas em casa pioraram bastante. Papai vivia tão nervoso e violento que chegou a me dar algumas surras marcantes. Mamãe se tornara melancólica e sem força, submetendo-se aos caprichos de papai. Todos nós sofríamos muito e acabamos acostumando com a rotina diária de infortúnios. O sofrimento tem um alto poder de adaptação em nós, apenas questão de se acostumar porque reagir demanda tanta energia e nos desgastamos tentando mudar o que não tem como ser alterado.

Lembro do dia da morte de mamãe como se fosse hoje. Naquela manhã, Nataniel tinha melhorado um pouco, estávamos do lado de fora no jardim, ele sempre fazia questão de se sentar nas raízes da árvore quando sentia-se mais disposto. Passamos pela cozinha e ela estava cozinhando algo, pela lembrança do cheiro gostoso era um bolo, o preferido de Nataniel. Parecia iluminada sob a luz da manhã, os cabelos penteados em um coque alto e um olhar vibrante pela melhora do meu irmão. Por um breve instante senti uma incontrolável vontade de me jogar em seus braços como fazia quando tinha apenas 5 anos e enchê-la de beijos, eu amava minha mãe mais do que tudo, mesmo que tivéssemos nos afastado desde a chegada de Nataniel. Deixamos ela na cozinha assim: reluzente.

Nataniel tinha se sentado entre as raízes e eu chutava minha bola sem vontade alguma, estava ali apenas fazendo-lhe companhia. Seus olhos se reviravam, como sempre acontecia quando ele passava muito tempo observando os galhos da árvore, e notei que convulsionava como em seus ataques de febre. A princípio eu senti um beijo gelado na nuca do desespero, aqueles segundos iniciais do pânico que nos tiram qualquer reação, apenas ficamos parados sentindo ondas elétricas percorrerem o corpo até que algo nos faz mover.

Eu corri para meu irmão e fiz o que sempre fazíamos, sustentei sua cabeça e tentei puxar sua língua para que ele não sufocasse. Por puro desespero gritei o nome de mamãe alto, mas não o suficiente, minha garganta parecia fechada. Olhei na direção da janela da cozinha, dali podíamos ver todo cômodo e foi quando vi minha mãe morrer. Dois eventos sombrios acontecendo simultaneamente, eu me senti entregue a um tipo de loucura inexplicável. Aquele não parecia mais ser eu e aquilo não estava acontecendo em um mundo onde a gravidade existe.

Pela janela eu notei minha mãe introduzindo-se pelo triturador da pia, sangue e lascas de carne saltavam aos olhos dela e ela apenas ... sorria, reluzente. O corpo do meu irmão se debatia em meus braços, sem pensar duas vezes tentei larga-lo para ir até minha mãe, mas ele agarrou meu braço e seus olhos brancos me fitaram, dizia coisas desconexas em uma voz rouca. A sensação de pesadelo durou pelo resto dos dias se acentuando no velório de mamãe. Ela morreu por ter perdido muito sangue, decepou o braço até a altura do ombro, ainda tentou resistir no hospital por alguns dias, mas acredito que mesmo um corte no dedo iria tê-la matado, mamãe parecia querer morrer naquele sorriso irônico que precedeu sua estranha atitude.

Papai nos deixou. Ele simplesmente desapareceu sem levar nada além do carro. Eu e Nataniel ficamos sozinhos na casa por algumas semanas até que o governo e seus programas assistencialistas vieram ao nosso socorro nos conduzindo a lares para abandonados, mas sempre estivemos juntos, foram anos terríveis. Crescemos e seguirmos cada um seu próprio caminho. Senti alívio quando me desvencilhei de sua companhia doentia. A primeira coisa que ele fez foi retornar para nossa cidade pequena, e eu tratei de enterrar o passado fundo e me reinventar. Até que as nossas vidas se encontraram e só agora podemos falar sobre o que aconteceu, porque algumas feridas nunca fecham e precisam ser cutucadas, sangrar, para, enfim, pararem de doer.
 
VI.

- Quando nos sentávamos nas raízes da árvore era como se meu corpo fosse engolido, entende?- ele abriu outra lata de cerveja, estava cercado delas – eu não ficava mais preso a mim mesmo, à minha matéria, eu simplesmente voava, Al... eu alcançava aqueles galhos e além. Lá de cima eu entrava noutra ... –

- Isso me parece mais uma viagem de droga, Nataniel... se não estivesse perto de você todas as vezes, diria que usava algo para ter essa sensação. –

Ele não sorriu, Nataniel nunca sorria, nem mesmo quando criança, apenas me olhou por um tempo e coçou o nariz para prosseguir.

- Haviam esses... seres, coisas, ou seja lá o que são, que me esperavam com estranhos semblantes de insetos, olhos espertos, pareciam ter saído de algum seriado da nossa infância, sabe? Os inimigos de borracha dos super-heróis? Mas eles não eram tão engraçados quanto eles ou tão... de borracha. Eles machucavam, Al... eles me machucavam muito, mas não eram ferimentos na carne, entende? Eles mexiam com minha cabeça e machucavam meu cérebro me fazendo pensar o que não queria, me fazendo ser muito mau. Eles tomavam conta de mim, caminhavam aos pares ou aos trios por campo descampados e fedendo a podridão. Lá era sempre escuro, sempre noite e fedia, Deus... como fedia a carne podre. –

Por um momento a força da narrativa do meu irmão me prendeu tanto que pude vislumbrar tal lugar infernal, senti um calafrio percorrer a espinha porque nas calçadas as folhas das árvores sacudiam, era um som familiar e horripilante.

- Eu era o único ser humano ali, Al... a única criança sozinha e perdida naquele inferno. O chão deixava os pés em borbulhas de queimadura, mas era um fogo frio, igual quando queimávamos a boca com gelo, lembra? Aquilo doía pra caramba, mas eu continuava caminhando, deixando pedaços da minha pele no caminho. Eles me cercavam, afoitos, diziam muitas coisas estranhas, acho que eram as coisas que eu dizia nas convulsões, porque a gente se mesclava, sabe? Eu era eles e eles me eram. Eles eram grandes demais, Al... insetos meio humanos, cabeças de moscas, cabeças de formigas e toda essa merda... – Nataniel segurou um arroto e calou-se.

Não o pressionei para que continuasse, pois, percebi seus olhos vagando pelas árvores nas calçadas, ausentes e inquietos. Queria tocar seu braço e dizer que estava tudo bem, mas não estava e nunca ficaria. Sempre acreditei que meu irmão fosse uma espécie de lunático, que realmente sua cabeça funcionasse errado, mas naquele momento, por um breve segundo, eu acreditei na força de suas palavras e temi que eu mesmo estivesse enlouquecido.

- Você... acredita nisso tudo que me contou? São apenas delírios da febre, Nataniel... da doença que teve...-

- E a morte de mamãe? – ele lançou um olhar tímido para mim. – Como explica aquilo, Al? Naquele dia, eles conseguiram me pegar... eles simplesmente me dominaram, e todos pensamentos horríveis que tive sobre mamãe... ela não queria morrer, Al... você lembra como ela estava feliz naquela manhã? Como alguém tão iluminada daquela forma poderia desejar morrer em um triturador de cozinha?-

O silêncio imperou e dessa vez não vieram mais palavras. Permanecemos sentados, tomando nossas cervejas, olhando para a pouca movimentação na rua.

VII.

De volta para o jardim da nossa antiga casa, rememoro a última conversa com Nataniel e os eventos que vivenciamos nessa casa. Há uma placa de “vende-se” na entrada, em algum momento pessoas irão viver nela, construir lembranças, viver histórias, e me pergunto se os galhos dessa árvore que balançam continuaram se movimentando para elas? Se eles apenas se movimentaram para nós? Arruinando tudo em volta? Não compreendo a cabeça de Nataniel, acreditei que depois de tantos anos ele poderia estar um pouco... normal, mas meu irmão mantém os mesmos olhos de um sonhador sombrio, como se ele nunca tivesse retornado dos locais infernais pelos quais diz ter passado ao sentar-se nessas raízes.

Faço a experiência, eu mesmo me sento nas raízes, de tudo que há nessa casa abandonada, a árvore é a única que mantém sua jovialidade intacta, mas nada acontece. Não me sinto tragado por suas raízes ou absorvido por seus altos galhos, há apenas o ruído constante do movimento da brisa.

Nataniel foi brindado com algum tipo de loucura, não pude acreditar inteiramente em suas palavras embora uma parte forte de mim não duvide, pois, o acompanhei em cada uma de suas viagens sombrias neste mesmo jardim. Eu estive ao seu lado e pude ver como seus olhos se transformavam, mas o mesmo não me acomete, mesmo fechando os olhos e desejando conhecer os mesmos infernos e criaturas, nada acontece.

Após muito esforço consigo apenas vislumbrar na minha mente, de maneira fraca e encoberta por névoas, uma placa gasta de metal enferrujado que diz: Jardim Esquecido.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 12/02/2017
Alterado em 12/02/2017
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